Quando a Carta Arqueológica de Tomar se revela um notável livro para a História da região

Por Mário Beja Santos

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Carlos Batata em escavações arqueológicas

A recente publicação de As Origens de Tomar, da autoria do arqueólogo Carlos Batata, uma belíssima edição de uma feliz parceria, revela a excecional capacidade de comunicação de um arqueólogo que, a par de um trabalho minucioso dos sítios arqueológicos que levanta para a reedição da Carta Arqueológica do Concelho de Tomar, explica ao estudioso e ao leigo de forma acessível não só o ambiente geológico e geográfico da área estudada, como a ocupação humana do território desde a Pré-História, passando pelo período romano incluindo o povoamento rural e as suas vias, a época visigótica, a época islâmica e como se manifestou a sua presença, e por último estamos chegados à Baixa Idade Média, a Ordem Templária e a Ordem de Cristo recebem um legado patrimonial e a partir daqui redefine-se a Tomar da Idade Moderna e seguintes. É um documento científico que só um autor sapiente pode escrever. Por mim, não hesito em dizer que este empreendimento veio para durar, ficará a par dos documentos clássicos sobre a identidade da região.

Porque o autor é um homem de grande rigor científico e muita humildade, convoca todos aqueles que passados mais de 20 anos após a primeira edição da Carta Arqueológica do Concelho muito labutaram para dar exuberância à arqueologia nabantina. Não deixa de chamar a atenção para o mau uso que se faz de tamanha riqueza, muitos dos materiais das primeiras escavações foram para museus alheios e mesmo para o Museu Nacional de Arqueologia. Destas quatro últimas décadas de escavações efetuadas, a sorte dos materiais não tem sido melhor e comenta: “Os materiais dos últimos vinte anos, recolhidos em escavações realizadas no âmbito da Arqueologia Preventiva, bem como os respetivos relatórios científicos, encontram-se em depósitos estatais, legalmente constituídos como é, no caso do Concelho, a Extensão de Torres Novas e o Instituto Politécnico de Tomar. É preocupante tal dispersão de materiais.

A história local provou que essa dispersão contribuiu para o desaparecimento de muitos deles pois, por falta de cuidado ou desleixo, foram desaparecendo para irem enriquecer coleções particulares. O Museu Silva Magalhães é disso exemplo. Em finais do século XIX existiam aí imensos materiais arqueológicos do concelho, de que hoje pouco resta. Alguns aparecem em coleções particulares de Tomar, a outros desconhece-se-lhes o paradeiro, como é o caso das peças de menor tamanho do Museu da UAMOC. O Convento de Cristo ainda conserva parte do espólio desta associação. A dispersão de materiais retira-lhes visão de conjunto, não estando disponíveis para serem apreciados pelos olhos ávidos de conhecimento do cidadão. A sua reunião em espaço definido como espaço museológico ou como museu vivo, é hoje um imperativo concelhio”.

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Campanha de escavações arqueológicas no Fórum de Sellium

A narrativa do arqueólogo é própria de gente experiente, que sabe encantar os curiosos para o estudo do seu passado, é aliciante o que ele escreve sobre a ocupação humana do território, como descreve o Paleolítico, Mesolítico, Neolítico, Calcolítico, assim chegamos à Idade do Bronze, já estamos, portanto, entre 2000 e 1000 a.C., segue-se a época romana, é aliciante como ele nos descreve Seilium, e somos confrontados com estes vestígios sob os quais caminhamos, veja-se o que ele escreve: “Os trabalhos levados a cabo até aos dias de hoje ampliaram as dimensões da cidade romana para cerca de 14 hectares, compreendendo uma zona baixa (Estádio Municipal e Santa Iria), e a parte alta, delimitada pelo topo da Rua do Centro Republicano, Bonjardim, Colégio Nun’Álvares, terminando em Santa Maria dos Olivais. Permitiram também conhecer mais em pormenor a estrutura da cidade. O Forum Romano só foi parcialmente escavado. Por um lado, rodeia-mo, pelos lados oeste, norte e este (para onde este se entende) o Quartel dos Bombeiros e vários prédios de habitação. Por outro, ficaram por escavar muitas banquetas e alguns espaços (passeios), que poderiam ajudar a completar a planta do edifício. O Forum de Tomar tem, possivelmente, do lado poente da Basílica uma Curia, um Comitium e uma sala onde presumivelmente existiram umas escadas de acesso ao andar de cima”. Já se referiu que o design gráfico é de primeira qualidade, o leitor acompanha corretamente o texto com as imagens tidas como as mais apropriadas.

O que se sabe sobre a presença visigótica é pouco abundante, ao contrário da época islâmica de que há numerosos vestígios, vamos saber como mais tarde moçárabes e população cristã irão viver do outro lado do Nabão, havia uma arcaica ponte romana. Especula-se sobre a origem do nome Tomar, Seilium em época romana, Sélio na época visigoda, Nabância no século XIII, terá havido a evolução fonética de thamaris, o autor recorda que os Templários não eram daqui, não conheciam os nomes, houve seguramente adaptações que melhor suavam ao ouvido.

Não menos interessante é a apresentação que o autor nos faz da localização islâmica do que é hoje o Castelo de Tomar, e as imagens ajudam muito. Seguem-se as observações sobre a Idade Média e Carlos Batata procede a uma síntese que acompanha a reflexão que ele faz sobre a arqueologia concelhia nestes últimos vinte anos, passa de novo em revista a Pré-História incluindo a Idade dos Metais, as épocas Romana, Visigótica e Islâmica, assim chegamos à Idade Média Cristã, nova referência aos trabalhos arqueológicos que têm vindo a ser desenvolvidos, caso do Complexo da Levada, as obras na Sinagoga, o facto de a limpeza do Aqueduto dos Pegões, pelo Grupo de Amigos do Aqueduto, ter posto à vista duas pontes tardo-medievais, e naturalmente refere as vias romanas e medievais, assim as comentando: “A única via romana comprovada na zona é a que vinha de Torres Novas para Seilium. Para além da sua largura (5,5 metros), tinha valetas para escoar a água e marcos miliários ao longo dela. Construída provavelmente como promoção da categoria da civitas de Seilium e costeada pelo imperador.

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O mais antigo monumento funerário megalítico da região

As restantes, são vias de sulcos, que os romanos utilizaram mas não construíram”. E refere outras vias, não esquecendo de dizer que a estrada de Ceras é medieval, como a Sul, a estrada da Asseiceira, com a ponte tardo-medieval da Guerreira parece ser da época medieval. E refere por último que a sudoeste existiria uma via romana que viria de Tancos ou Almourol e outra por Casal de Deus e Cardais.

A obra prossegue com este monumental levantamento dos sítios arqueológicos, sempre bem documentados, identificados, veja-se a páginas 318 e seguintes a bela apresentação que nos faz do trabalho arqueológico efetuado na Sinagoga.

Não é só de leitura obrigatória, pelo seu modestíssimo preço deve constar das nossas bibliotecas, é uma certidão de nascimento onde devemos ter orgulho de nos vermos ao espelho.

Mário Beja Santos

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