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Tomar e o Colégio Nun’Álvares num livro prodigioso

Por: Mário Beja Santos

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livroO livro intitula-se “Putos da Minha Rua”, de Raúl Patrício Leitão, Âncora Editora, 2014, é uma narrativa assombrosa redigida por alguém que se iniciou há pouco nas excursivas mas que detém a mestria da escrita. A obra pode caber na chamada literatura memorial, é uma narrativa da sua juventude em Peniche, uma intensa e emotiva viagem sobre a meninice naquele promontório de onde não se podia sair facilmente. Aqui se fala de brincadeiras, de meninos pobres e remediados, da atmosfera escolar, da descoberta do corpo e dos primeiros amores, da criação de grupos como a “Seita do Some e Segue”. O jovem Raúl envereda no Colégio Nun’Álvares e estas descrições no contexto tomarense são de inegável beleza.

Logo no arranque: “O Colégio Nun’Álvares estava instalado no enorme edifício de três pisos que fora expressamente construído para funcionar como internato para rapazes, e eram ali ministrados, além de instrução primária e do curso geral dos liceus, também os cursos industrial e comercial, este último em convénio com a Escola Industrial de Tomar”.

O Raúl não tinha em Peniche onde fazer os liceus, os pais preferiram o internato. Frequentavam o colégio jovens vindos das colónias, das vilas e das aldeias distantes das capitais de distrito, com destaque para Santarém, Beja, Faro e Lisboa. Havia pois gente da Guiné, de Cabo Verde, de Angola e Moçambique e do Congo Belga. Como ele narra, era uma amálgama complicada que se tinha que se sujeitar a uma férrea disciplina interna, tanto o grupo de rapazes como as raparigas instaladas numa mansão antiga, à beira do Nabão. Enumera muitos nomes e destaca o nome mais relevante, o de Salgueiro Maia.

Espraia-se com vivacidade sobre o colégio e a cidade: saída semanal reduzida ao domingo da parte da tarde, missa na Igreja da Várzea, recorda o Mouchão, a Mata dos Sete Montes, a Praça Gualdim Pais em respeitosa contemplação ao Convento de Cristo e desfaz-se nalgumas confidências: “Era na cidade velha, no local onde outrora se instalara a judiaria, e agora estavam as tabernas, casas de pasto e alguns cafés com os seus bilhares e matraquilhos, e muito em particular as casas de putas da Rua da Calça Pêrra, nesse alargado conjunto a formarem um autêntico parque boémio”. E dirige o seu olhar para o interior do colégio: “O Nun´Álvares era de franca inspiração coimbrã; os seus fundadores tinham-se formado em Coimbra, eram acintosamente republicanos e antissalazaristas e seriam também agnósticos (…) Excitante para nós, nesse tempo, viria a ser a visita do general Humberto Delgado à região, e nomeadamente à cidade de Tomar em mil novecentos e cinquenta e oito. Para nós, jovens de quinze, dezasseis anos, seria extraordinária e empolgante toda aquela movimentação humana. Jantaria o general e a sua pequena comitiva no restaurante A Flor do Nabão, e nós formámos uma extensa fila só para o ir cumprimentar. E seria de pé, que aquele homem teve então a paciência de durante quase uma hora receber e apertar a mão a mais de duas centenas de jovens de estudantes, dos quais seguramente nenhum podia votar!”.

Alunos que usavam capa e batina, Tomar até parecia uma cidade universitária. Raúl Patrício Leitão é divertido e malicioso a descrever professores e prefeitos. Raúl Lopes, o diretor do colégio, sobressai pela sua liderança natural e pela facilidade com que, com oportunidade, ia distribuindo bofetões. Os alunos suspiravam pelas férias e os de Peniche não eram exceção. O regresso ao meio familiar é detalhado:

“As demoradas viagens desde Tomar a Peniche, eram então sempre uma aventura e também um motivo de grande divertimento no regresso, quer primeiro na viagem de comboio até o Entroncamento, quer depois na ida de camioneta até ao Valado de Frades e a seguir no percurso de comboio até Caldas da Rainha, quer já no final, outra vez de camioneta até casa. A farra começava logo à saída do Colégio e na compra dos bilhetes na Gare do terminal do caminho-de-ferro, ainda em Tomar, e prolongava-se no transbordo e nas esperas nas estações”. E com as férias surgiam compensações para esses meninos internados lá longe: “Nesses períodos de férias os nossos pais também passaram a ser um pouco mais permissivos e começaríamos então a ter maior liberdade, sobretudo nas saídas à noite”.

É uma narrativa própria de um grande oficial da escrita, pasma-se com uma crítica permanece desatenta e deixa no silêncio literatura tão empolgante como “Putos da Minha Rua”.

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Foto atual do edifício do ex-colégio Nun´Álvares (hoje encontra-se ali instalada a Escola Secundária Nun´Álvares).

Mário Beja Santos

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