Do Nabão ao Paul do Boquilobo

Por: Mário Beja Santos

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frtu1Olhar Portugal, Viagens e Paisagens, de Fernando-António de Almeida, Círculo de Leitores, 2015, é uma longa e preciosa peregrinação de um andarilho com créditos firmados com um conjunto de obras que falam de percursos e passeios de fim de semana, roteiros e caminhos de Portugal, a este andarilho não escapa um olhar peculiar sobre o património histórico construído, o património paisagístico, dá-se bem com a cidade e com o campo e sabe perfeitamente  que nenhum olhar se esgota, de Minho aos Açores. Como leitura desta obra ultrapassa as 600 páginas, escolhe-se aquilo que está bem próximo do leitor de O Templário, começa-se no rio Nabão e chega-se ao Paul do Boquilobo, o autor promete encetar uma viagem à roda do maciço calcário que integra a Serra dos Candeeiros e a de Aire, o Planalto de Santo António, serras secas paradoxalmente distribuem à sua volta a água que irriga e fertiliza os campos que as rodeiam.

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Fernando-António de Almeida

 

Confesso o encanto que me provocou a referência ao Nabão, dizendo mesmo que Tomar, a cidade ribatejana de Tomar não deveria fazer parte deste itinerário à volta das serras. Mas faz parte e explica porquê:

“É que, ademais da sua identidade ribatejana, o riozinho que a banha, o senhor Nabão, o senhor rio Nabão, seu nome, rejeitou logo à nascença, na origem, o Maciço Calcário Estremenho. Preferiu estabelecer o seu berço mais a norte, no também pedregoso conjunto calcário das serras de Condeixa, Sicó e Alvaiázere. Mais concretamente, lá para os lados da vila de Ansião. Só que, aqui, o rio de Tomar teve de entrar em compita com, pelo menos, dois outros presumidos cursos de água: o dos Mouros e o Dueça.

Por um lado, com o Dueça, que tomou o caminho do norte (vai para Miranda do Corvo e, depois de deixar-se impregnar pelo Ceira, há de ir para a sua carreira no rio Mondego). Um Dueça (ou rio Corvo) terá sido chamado – quem sabe? – de (O)dueça, à maneira árabe. Compete, por outra parte, o nosso Nabão com o popular rio dos Mouros.

E mais não digo, senão que, por sua vez, este rio dos Mouros tratou de tomar o caminho de poente e, rasgando um profundo canhão, passou furioso pela romana Conímbriga, de onde acabou por quase desaparecer, feito rio seco. Logo de seguida, chegando às terras baixas, amainou-lhe o ânimo, até lançar-se, langoroso, nos espreguiçados braços daquele mesmo rio Mondego que já absorvera o Dueça.

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O Nabão associado a uma época de ouro da indústria de fiação, um rincão da arqueologia industrial

Portanto – e vamos concluir este introito – o Nabão de Tomar foi um dos três rios que, malnascidos, entraram logo à compita, naquilo a que, sisudo como se deve, um sábio geólogo designou pela luta de cabeceiras entre os rios dos Mouros, Nabão e Dueça. E, em matéria erudita, esgotados os recursos próprios de quem escreve, o melhor é ficarmos por aqui”.

É claro que não fica por aqui, lá vai a trote a Torres Novas, passa por Alcobaça e Porto de Mós, vai à Nazaré e sobe ao sítio, faz referência a portos perdidos, percorre Óbidos e detém-se em Sesimbra. E de imediato volta ao Ribatejo e depois de passar pela Golegã entra no Paul do Boquilobo, deixa-nos um texto breve, uma exultação à biodiversidade e um convite à visita:

“Estamos perante uma zona húmida, um paul, que ocupa cerca de 530 hectares. Atravessado pelo rio Almonda, afluente da margem direita do Tejo, o Paul do Boquilobo é bem um dos exemplos deste terro alagadiço.

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Aves no Paul do Boquilobo

Ocupando um leito de cheia, sulcado por marcadas veias, a extensão e a profundidade da água que o ocupa tem uma grande variação sazonal: terreno submerso na época das chuvas, no verão chega quase a secar, mantendo-se a água tão-só nas valas que o recortam.

O Boquilobo é também um dos testemunhos ainda vivos daquilo que constituiu uma parte importante das bacias hidrográficas do território português – do Vouga, do Mondego, do Tejo, do Sado… – onde, durante séculos, e com grande esforço, de prosseguiu uma política de aproveitamento das terras pantanosas, terras que, uma vez drenadas, se transformavam em solos agrícolas, de grande produtividade.

Mas o Paul do Boquilobo, mais do que à sua capacidade de aproveitamento agrícola, deve a sua atual importância, em particular, ao facto de constituir um habitat extremamente rico e indispensável à sobrevivência de numerosa avifauna.

As principais colónias de aves que ali nidificam incluem, antes de mais, as garças. A garça-real, a graça-noturna, a garça-branca, a garça-boieira, formam uma população responsável pela presença de três milhares de ninhos, naquilo que é considerado um dos grandes garçais da Península Ibérica.

À parte das garças, lugar cimeiro na ocupação deste espaço de Boquilobo há que referir os patos que se designam pelos nomes quase esotéricos de arrabios e zarros e, mais terra a terra, os que se dão a conhecer por marrequinhas ou patos-colhereiros, todas aves migradoras. Junta-se a estes os nidificantes pato-real e mais o marreco. Galinhas-d’água e galeirões somam-se aos patos para comporem uma boa parte da dos moradores alados deste território.

Anfíbios, alguns avantajados mamíferos (gineta, raposa, toirão), ou mesmo a lontra esquiva, são outros dos habitantes do Paul do Boquilobo, instalados de preferência na relativamente inviolada zona de Reserva Integral.

Tudo num ambiente onde o mundo vegetal não desmerece, em que se concentram os salgueiros (o branco, o preto), ou ainda o choupo-negro, o freixo; mais a espadana e o bunho, o golfão-branco. Onde, na medida do possível ao abrigo do homem, esse temível predador, entre abril e junho, pacíficas e sentimentais, nidificam as aves de que acima se ementaram algumas das espécies”.

E aqui se põe termo a uma curtíssima viagem que vem do rio Lima abaixo, passa por mosteiros, castelos, albufeiras, passeia-se entre serra e mar e caminha por fortalezas e percorre ilhas atlânticas em todo o seu esplendor. Livro grande e grande livro, e também grande é a riqueza documental e as imagens a propósito. É de ler e chorar por mais viagens.

Mário Beja Santos

 

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