O Colégio Nun’Alvares, emblema arquitetónico destinado a educar novas gerações

Por: Mário Beja Santos

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Capa do livro, edição da Câmara Municipal de Tomar, 2021

Cheguei a Bissau para uma cooperação de sensivelmente 5 meses, havia um protocolo assinado pelo ministro do Ambiente de Portugal e pelo ministro da Indústria e Recursos Naturais da Guiné-Bissau, tratava-se de implementar uma infraestrutura na capital guineense que desse início a um processo legislativo e de sensibilização da população para a afirmação dos seus direitos na área do consumo e contribuísse para impulsionar um movimento associativo.

Estávamos em 1991, a Guiné-Bissau ia entrar na via pluripartidária, a abertura dos mercados, a liberdade de expressão ganhava novos contornos, matérias como a cidadania e os direitos humanos passavam para o topo da agenda social. Desembarcado, fui conduzido ao gabinete do ministro Filinto Barros, receção afável com um cumprimento inusitado, faz a sua apresentação política como dirigente do PAIGC e manifesta o seu regozijo em ter estado no processo negocial para a independência. “Fui aluno do colégio Nun’Alvares, em Tomar, depois licenciei-me no Técnico.

Logo na primeira reunião com a delegação portuguesa, para assombro das duas delegações, fui abraçar um antigo colega do colégio de Tomar, toda a formalidade inicial se diluiu com aqueles dois colegas, de dois países, que tinham em comum terem vivido no internato de um colégio que os marcara para o resto da vida”. E pela primeira vez me apercebi que havia uma instituição educativa que marcara gente da Metrópole e do Ultramar, como se dizia no anúncio de apresentação do colégio.

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Fotografia de António Passaporte, 1960

E temos agora esta obra promovida pela Autarquia e pelo Instituto Politécnico, no essencial contempla-se uma perspetiva arquitetónica de uma edificação modernista “que marca como poucos a traça da parte nova da cidade, mas também como parte integrante da renovação urbana da mesma nos meados do século XX” como observa a presidente da Autarquia.

As autoras apresentam a análise do conjunto de projetos de arquitetura e engenharia referentes ao complexo educativo do colégio Nun’ Alvares, que se produziram entre 1952 e 1968, para a zona escolar da cidade, prevista no Plano Geral de Urbanização de 1938-1946. “Os seus edifícios, construídos nas décadas de 1950 e 1960, marcaram indelevelmente o perfil e a dinâmica urbana de Tomar”. E a publicação diz pretender contribuir para o desenvolvimento de estudos no domínio da História da Arquitetura e da Construção.

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Bloco residencial para professores do Colégio Nun’Alvares, alçado Sul, fotografia de António Passaporte, 1960

O colégio iniciou as suas atividades na década de 1930, funcionou num edifício no centro da cidade de Tomar, já possui instalações para o regime de internato. Os projetos de arquitetura desenvolveram-se entre 1952 e 1958 numa nova localização. “A maioria dos edifícios diretamente relacionados com a atividade educativa foram projetados entre 1952 e 1964: corpo central e ala norte, 1952; ala sul, 1954; prolongamento das aulas norte e sul, 1961; ângulo sul, 1961; ginásio e salão de festas, 1963; e ampliação da ala sul, 1964”.

Logo em 1953 o jornal O Templário publicava um anúncio onde se apresentava uma perspetiva da escola, começava nas novas instalações com 30 alunos, ganhou pergaminhos e reputação, passou a ser um complexo educativo com fama nacional, gozou também de notoriedade pela diversidade de atividades culturais, lúdicas e conviviais.

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Na hora do recreio

Era uma instituição de ensino de iniciativa privada obviamente subordinada aos requisitos de índole pedagógica comuns aos do ensino público, seguia o designado Plano de 38 que se prendia com a construção e melhoria das instalações liceais, contemporâneo de reformas educativas onde pontificavam os manuais únicos aprovados, mas no caso vertente havia que seguir à risca a construção de edificações com vários serviços próprios de um liceu e uma conceção que deveria garantir a separação dos sexos e a separação dos ciclos. Havia igualmente que ponderar o cumprimento dos Estatutos do Ensino Particular, e também não se podia esquecer a lógica do Estado Novo para as instalações escolares: “A uniformização da linguagem arquitetónica e urbanística de modo a servir os ideais historicistas e de caráter representativo pretendidos pelo Estado Novo”.

Davam-se, entretanto, mudanças no uso de materiais, com a rápida disseminação do aço e do betão armado, paredes resistentes de alvenaria. E as autoras observam: “Em grande parte destes edifícios, e sobretudo os construídos durante as décadas de 1930 e 1940, é comum a existência de paredes resistentes de alvenarias de pedra, de tijolos cerâmicos ou de blocos de betão, que suportam lajes aligeiradas de betão armado e vigas de betão armado.

Os edifícios têm 2 a 3 pisos, e o acesso vertical é realizado através de um corpo de escadas, maciças, de betão armado. É também frequente, particularmente nas zonas de recreio cobertos e de átrios de entrada, a presença de estruturas constituídas por grelhas de vigas de betão armado que se apoiam em pilares, e que suportam o pavimento superior”. Foram condicionalismos que em 1952 o arquiteto Amândio Pinto Marcelino, que projetou as primeiras instalações do colégio teve que ter em conta, teve que seguir certos valores funcionalistas embora tenha utilizado uma linguagem que se aproxima do vocabulário do moderno.

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Anúncio da época

As autoras não esquecem os aspetos históricos da fundação do colégio, a integração deste no plano de urbanização da cidade, elencam as fases de construção do complexo educativo, a primeira fase de construção (corpo central e ala norte), a segunda fase (ala sul e ângulo sul do corpo central), a terceira fase (prolongamento das alas norte e sul), segue-se o ginásio/salão de festas, a piscina e, por fim, os projetos complementares e o bloco residencial para professores, não esquecendo que nuns casos a sua implementação foi mitigada ou não se concretizou. Desenvolveram-se 2 projetos para a construção de muros de vedação, construiu-se um monumento em memória dos alunos do colégio falecidos no Ultramar, inaugurado em 1969, concretizou-se a construção de um bloco residencial para professores, o arquiteto João Pedro da Mota Lima projetou uma capela, projeto que não foi avante, desenhou-se igualmente, com autoria de Raúl dos Santos Coito, o anteprojeto de um bairro para os funcionários, o que se pôde construir implantou-se na Estrada da Circunvalação.

Depois do 25 de abril, face à situação financeira, o colégio entrou no seu ocaso, isto quando tinha 835 alunos do sexo masculino e 254 alunos do sexo feminino e 200 trabalhadores. Foi extinto em 15 de junho de 1984 e espera-se agora que tenho um futuro promissor quando aqui albergar a escola profissional, esta belíssima obra modernista tem que se manter ao serviço da educação em Tomar.

Mário Beja Santos

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