O maior compositor português do século XX em retrato de corpo inteiro

Por: Beja Santos

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    O professor Mário Vieira de Carvalho é indiscutivelmente a grande autoridade na investigação da vida e obra do tomarense Lopes-Graça. O seu livro “Pensar a Música, Mudar o Mundo: Fernando Lopes-Graça”, Campo das Letras, 2006, é uma recolha de ensaios e conferências devidamente organizados em torno da individualidade do compositor, do estudo da sua obra musical e da investigação biográfica, trabalho indispensável para estudos vindouros. Empreitada de grande dimensão cultural, oferece ao leigo e ao estudioso o que houve de identitário, de inovador, de enraizamento, de harmonia entre o credo estético e o ideológico, dá-nos também a noção de conflito do artista com o seu mundo interior, o poder universal que a sua obra acarreta.

    É uma oportunidade de o leitor se esclarecer do corte que o artista introduziu nas correntes musicais de pendor nacionalista e folclorista, criando um veio musical com notórios indicadores populares que utilizou com talento admirável sobretudo na música coral. Acompanhou outro mestre, Michel Giacometti, numa recolha ímpar de música popular portuguesa que corria o risco de se perder do nosso património. Hoje os dois espólios – o de Lopes-Graça e o de Michel Giacometti – estão no Museu da Música Portuguesa em Cascais, na Casa Verdades de Faria, à disposição dos investigadores. Cortando com o populismo, Lopes-Graça teve como grandes referências clássicos Bach, Mozart e Beethoven e apaixonou-se muito cedo por Debussy, Stravinsky e Schönberg. Dois grandes compositores reforçaram o seu pendor pela música popular de raiz, Kodaly e Bartók.

    Mário Vieira de Carvalho discorre sobre os conceitos de música nacional e a busca a uma identidade nacional alternativa, vai equacionando o que escreveu Kodaly e o que produziu Bartók e como esses novos caminhos influenciaram o compositor português. Em jeito de síntese, diz o autor que “Lopes-Graça jamais buscou o êxito fácil perante um qualquer público e também nunca se preocupou com a moda. Ao contrário de outros, que por adesão a um credo estético ou ideológico, se perfilaram como adeptos, ora desta, ora daquela ‘escola’ artística, ou que primeiro defenderam e depois condenaram certas correntes ou tendências da música europeia, Lopes-Graça não andou aos ziguezagues, defendeu o seu percurso próprio, de construção ou descoberta da individualidade artística (…) Enquanto alguns jovens artistas de ontem o consideravam ‘ultrapassado’, por não estar na moda, os jovens músicos de hoje redescobrem-no já como um paradigma da modernidade. Ao assumir tenazmente o princípio da diferença ou da diversidade das expressões culturais, Lopes-Graça tornou-se mais atual do que nunca. E tanto mais atual quanto dessa maneira a sua música prossegue um desígnio de resistência que se manifestou ao longo da sua vida de múltiplas maneiras e que hoje ganha nova força, no contexto da globalização”.

    A conversa que o autor mantém com Fernando Rosas sobre Lopes-Graça é altamente estimulante para perceber como esta obra se timbrou por uma reinvenção de um certo padrão de cultura popular, e como o seu trabalho musical, vastíssimo, abarcando peças orquestrais, música de câmara, coro a capella, obras para piano e voz, para voz e guitarra, cantatas, peças para flauta, violino solo, entre outras manifestações, vai-se desenhando na pergunta-resposta o perfil de um compositor que dispunha de uma vertente pedagógica ímpar e que cedo ganhou singularidade, como observa Vieira de Carvalho: “Realiza uma síntese de uma herança ou de um legado histórico, mas com uma profunda marca pessoal. Ouvimos dois ou três compassos da sua música e identificamos automaticamente o autor. Há dissonâncias não resolvidas, há determinadas estruturas rítmicas que se tornam irregulares, oscilações métricas e de tempo, pinceladas nítidas que logo se esbatem. Ele tem uma formação que o pôs em contato com a tradição clássico-romântica. Mas Lopes-Graça não assimila um Debussy de rotura, que pusesse em causa a ordem tonal. Em Lopes-Graça não há uma ideia de rotura com uma tradição, mas de alargamento das possibilidades expressivas, através da renovação, da utilização de novos recursos harmónicos”.

    O autor dá-nos uma cronologia com dados preciosos sobre a evolução do trabalho, é a sua intervenção política, as distinções e homenagens. “A 27 de novembro de 1994 morre na sua casa, na Parede, quando se encontrava só. O funeral saiu da Academia de Amadores de Música para o Cemitério de Trajouce, no concelho de Cascais, tendo sido acompanhado, entre outras entidades oficiais, pelo então Presidente da República, Mário Soares. Coube a António Borges Coelho, seu camarado de partido, o elogio fúnebre. Deixa quase todo o seu espólio à Câmara Municipal de Cascais (Museu da Música Portuguesa), com exceção do repertório do Coro da Academia de Amadores de Música que destina à Associação Fernando Lopes-Graça, entretanto criada. Esta recebe ainda em legado, para edição e promoção das obras corais, a avultada quantia que Lopes-Graça tinha amealhado após o 25 de Abril, como garantia da sua reforma – pois ninguém promovera a sua reintegração retroativa na Função Pública, enquanto ele sempre se recusara a requerê-la”.

    Realce é dado por Vieira de Carvalho a um conjunto de obras que se prendem com a genialidade do compositor e que entrosam com etapas da sua vida, caso de Canto de amor e de morte, o Quarteto de Arcos N.º 2, as Canções sobre poemas ibéricos e o Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal, talvez a sua obra mais monumental, para cinco vozes solistas, coro misto e orquestra.

    A Biblioteca Municipal de Tomar possui um importante acervo do compositor, é indispensável conhecê-lo, ele é uma das memórias culturais de Tomar.

Beja Santos

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