Um peculiar andarilho, um farol literário da sua geração

Por: Beja Santos

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yyyyyO que prende, o que parece mais relevante na máquina literária deste jovem é a apresentação sincera de um saber de experiência feito. O seu romance de estreia, “O Meu Irmão”, fazia constar essa luminosidade, o leitor embarcava num relacionamento de dois irmãos tão díspares, e questionava como é que um jovem adulto se entranhara naquele labirinto afetivo, perturbando-nos com uma ficção de paredes meias com a realidade. A seguir, no final de 2018, deu-nos um pungente romance, “Pão de Açúcar”, uma descida aos infernos num mundo de jovens onde pontuam relações tão antagónicas entre o puro afeto e os despiques do ódio, com um desfecho que chega aos picos do horror.

Desta feita, Afonso Reis Cabral investe-se de andarilho, fará por inteiro a Estrada Nacional 2, tudo num concerto sinfónico digital, que lembra os ciclistas de fôlego que levam carros de apoio, aqui o apoio chegava-lhe através das redes sociais, a todas as horas do dia. “Leva-me contigo”, Publicações D. Quixote, 2019, é a essência dessa viagem pedestre, preparou-se a rigor, no dia 22 de abril partiu de Chaves até Parada de Aguiar e em 15 de maio percorria o trajeto de S. Brás de Alportel até Faro, e nesse preciso dia deixa-nos um comentário que abona não só o seu saber de experiência feito mas que faz despontar a esperança que nele se deposita de ser um dos grandes escritores da sua geração:

“Naveguei neste grande rio que desce Portugal vendo na sua água de asfalto o que nunca tinha visto, encontrando quem nunca tinha encontrado. Comi banquetes de iogurte. Dormi sozinho em albergues que guardavam a memória de peregrinos e caminhantes. Acordei em camas alheias no cume de serras. Visitei olarias onde a forma do barro revelava a forma da mão. Aprendi a ser bicho da chuva e do sol. Soube andar quando só era possível descansar e descansar quando só era possível andar.

Mas sobretudo espantei-me: a estrada foi mesmo um rio que me levou às margens de novas pessoas, novas histórias. Também me espantei com o entusiasmo por este diário do caminho, dentro e fora do Facebook. E com tanto apoio. O que agora escrevo já estava escrito em forma de saudade antes de chegar ao marco simbólico dos 738 quilómetros.

Ocorreu-me saltar em cima do marco, mas o salto pareceu-me demasiado raso para traduzir o contentamento ou demonstrar a angústia. Planeara dar-lhe um beijo e depois outro no chão, mas esqueci-me. As pessoas que me receberam viram o salto mas não viram o que ia dentro do salto.”

Ao longo da sua narrativa ir-se-á falar muito do mar, que se irá saldar naquele altamente quilométrico tapete de alcatrão. Documentou-se, investiu muito na conformidade da viagem, a mochila levava o essencial, e demora tempo a gerir o que deve fazer parte desse essencial. Vai anotando: “Neste primeiro dia besuntei os pés com batom Compeed anti-bolha. Não serve de nada. O segredo é passar pomadas como Pédi Relax a cada dez quilómetros. Vaselina também ajuda”. E quando se esperava que estava aqui o termo de uma observação funcional, avantaja-se o escritor: “Fiquei várias noites em albergues. São os sítios dos caminhos cruzados. Como os apanhei sempre vazios, para mim também foram os sítios dos caminhos imaginados”. Os carros de apoio disparam bons votos, estalam encómios, mal começou a caminhada e a claque abana por todos os lados. Ele caminha de Parada de Aguiar para Vila Real e apercebe-se que a claque também está na rua, oferecem-lhe tudo, comida, água, casa, conversas e abraços, há quem pense que vai para Fátima ou para Santiago de Compostela, há caminhos íngremes, no terceiro dia anda de pernas a abanar, é nessa altura que lhe recomendam que arranje dois bastões, o que se revelará sábio conselho. Por índole e formação, o andarilho gosta e não se acanha a pintar paisagens:

“Depois da Régua, a terra começa a desistir das vinhas. Os montes crescem e surgem árvores, cuja espécie não sei identificar, que têm os ramos cobertos por musgo igual ao veludo das hastes dos veados. E descobri que as pedras deitam sangue: quando encontrava xisto resvalado de uma encosta, por baixo cresciam papoilas.

Nos vales, centenas de andorinhas-das-chaminés cruzavam-se no ar em busca de insetos. A mim pareceu-me que teciam um véu para lançarem sobre as montanhas”. Até o escritor Mário Cláudio vem dar uma mãozinha, clarividente no aplauso: “Textos assim, indiferentes ao suporte, confortam-nos na certeza do futuro da escrita portuguesa”. Estamos no oitavo dia, caminha entre Adiça e Santa Comba Dão, escreve de si para quem o quiser ouvir ou ler: “Duzentos e quinze quilómetros depois, foi aí que cheguei: só às crianças se oferece ajuda na berma da estrada; só às crianças se abre a porta de casa; só a elas não se cobra. E só a elas se conta a vida de enfiada, sem reservas. O pudor fica para mim, que não sei como reagir a tanta generosidade. E também sou criança assim: nunca o meu corpo se modificou tão depressa como desde essa altura”. Sabe perfeitamente que está a pôr à prova o coirão, chegámos a uma fase da prova em que jamais terá sentido a desistência: “A generosidade das pessoas continua um bálsamo que refresca. Carros apitam, motos param, bicicletas conversam”. Alguém declama nas redes sociais: “Adoro os rasgos de delírio. O que as dores nos pés fazem a um homem”. O relato da peregrinação é pontuado, como se entende, de múltiplos e variados olhares, mete fauna e flora, os manjares de ocasião, alguns deles regionais, para além dos bastões estimula-se com música de todas as formas e feitios, depois de duas semanas, ali para os lados de Ponte de Sor, na Bemposta, uma senhora chamada Anita esperava-o com duas garrafas de água e com um bilhete que funcionou como ticket de restaurante. É nisto, já nas primícias do Alentejo, que nos deixa um belo parágrafo: “Já sei como os náufragos lidam com o horizonte: quanto mais avanço, mais as retas se afastam. Encontro muitas pessoas nas retas, mas para meu azar vão em carros, motos e camiões. E também devem achar as retas perpétuas, uma vez que aceleram como nas autoestradas. Quando os camiões passam rumo às corticeiras, fica o cheiro a madeira, fresco como o de uma laranja acabada de descascar”. E assim viaja até Faro, onde é recebido em triunfo, ele vai em direção ao mar, e desta vez não é alegórico, pois mergulhou na rebentação. E escreve, em jeito de despedida: “Confirmo que a estrada não continua para o mar. Há apenas areal, ondas e água salgada”.

Se é bem verdade que possuímos uma literatura de viagens invejável, este contributo de Afonso Reis Cabral jamais será esquecido, ele encontrou ao longo da Estrada Nacional 2 amostras de um povo unido, numa orografia toda ela desigual.

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