Uma aldeia em festa, sempre com o melhor da música portuguesa

Por: Beja Santos

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Este livro, editado em agosto de 2019, é um manifesto de Cem Soldos, uma aldeia que goza da particularidade de estar sempre a preparar-se para receber o país inteiro. Livro redigido com grande entusiasmo, organizado com imensa ternura e desvelo, tem ousadia gráfica, é obra caseira que conta o orgulho na organização de um festival extraordinário, se dele houver concorrência é imitação pura, não passa de uma sombra do original. Abre assim: “Este livro é de Cem Soldos. É de todas as pessoas que durante estes treze anos criaram, trabalharam, apoiaram e viveram o BONS SONS. Esta é uma história de capacitação e superação. Crescemos e ficámos mais comunidade.

Esperamos que este livro nos ajude a compreender as nossas conquistas, que nos ajude a partilhar com as novas gerações o que é viver em comunidade e nos dê mais alento para os desafios que ainda se adivinham”. Uma síntese desta glória comunitária, uma aldeia transformada em sala de música que atrai os grandes nomes de tudo quanto é criação artística do fado ao jazz, do hip hop aos pauliteiros de Miranda.

“São 10 edições, centenas de concertos, algumas centenas de milhares de visitantes, muitos milhares de horas de trabalho e milhões de emoções. Mais do que um livro de registo, para ficar na prateleira, queríamos um livro para ser vivido e partilhado. Queríamos também desafiar artistas a partilharem o seu olhar sobre o festival e sobre a música. Quisemos um livro para a família desde o início. Sabíamos que não nada mais poderoso do que contar uma boa história e que tínhamos todos os ingredientes para isso. Aqui falamos um pouco de alguns artistas que fizeram parte da nossa história e que são muito importantes para a cultura portuguesa. Esta história conta-se em dez momentos no livro, um por cada edição. Falamos das duas áreas essenciais do BONS SONS: a aldeia, através das suas curiosidades, e a cultura portuguesa, através dos artistas e das atividades. Conseguimos retratar os momentos mais importantes do festival e as conquistas de Cem Soldos”.

Dez edições, um itinerário que se iniciou em 2006, em agosto. Apostou-se logo em “bandas desalinhadas”, ou seja, projetos musicais irreverentes que não passam nas rádios mas que têm muita qualidade. A segunda edição ocorreu em 2008, vieram os Bombos de Lavacolhos e os Pauliteiros de Palaçoulo, a Serra da Estrela e o planalto mirandês conviveram com o Brasil, e por ali andaram a Brigada Victor Jara, Os Deolinda, e Galandum Galundaina, os mirandeses reapareciam. 2010 ficou para a história: passava-se de 20 para 30 mil espetadores, marcaram presença, entre outros, Dead Combo e Fausto, foi a vez dos Cantares Alentejanos de Serpa e as Adufeiras de Monsanto.

A proeza festivaleira sedimentara, em 2012 cresceu a assistência, lá estiveram Maria João e Mário Laginha e António Zambujo. A multiplicidade de sons tornou-se um facto consumado, misturavam-se a Joana Gama, a Gisela João, o Samuel Úria, o Campaniça Trio, a Amélia Muge, António Chainho, e muito mais. Em 2015, uma novidade monta: pela primeira vez na sua história, as portas do Bons Sons reabriram apenas um ano depois de encerrarem, deu-se a abertura de um novo espaço de campismo, artistas açorianos entraram em cena, foi o ano de Ana Moura e Camané.

Em 2016, a festa espraia-se por quatro dias, comparecem Jorge Palma e Carminho. Passou a haver o programa e a espontaneidade, a assistência passou a ter direito ao imprevisto, como se escreve: “Contrariando a lógica habitual dos festivais, surgem no BONS SONS alguns concertos inesperados: aparições breves, não anunciadas e aparentemente espontâneas de bandas e músicos. Estes concertos contribuíram ainda para acentuar o ambiente da aldeia, proporcionando momentos de surpresa e borborinho”. Mão Morta e Rodrigo Leão foram acontecimento dentro do acontecimento. Sempre a crescer, chega-se à 9.ª edição, 2018, Lena d’Água, Sara Tavares, Slow J, Salvador Sobral e Conan Osíris foram algumas das figuras de proa.

A 10.ª edição, a que fecha este belíssimo livro, mostrou que o empolgante não envelhecera, e veja-se o orgulho com que se regista o evento:

“O que se tem passado em Cem Soldos durante mais de uma década, não serve só os que lá vivem ou os que visitam quatro dias por ano. Serve todos os que procuram um modelo de desenvolvimento sustentável para o resto do mundo rural, uma receita que possa ser aplicada noutros pontos do interior igualmente isolados, igualmente rarefeitos. Dez edições são dez razões para festejar, mas também para procurar olhar para trás e entender, verbalizar e transmitir o que se fez e como se fez através de um Manifesto”. Houve homenagens a António Variações e Carlos Paredes, também a Amália, Giacometti, Zeca Afonso e Lopes-Graça, entre outros. Marcaram presença Júlio Pereira, Tiago Bettencourt, Pop Dell’Arte, Dino D’Santiago, entre outros.

 

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Edição do Festival de 2019

 

Este livro é mais do que um álbum de glórias de um projeto singular que vingou e que fez e continua a fazer história. Não é a primeira vez que a música sobe espetacularmente em palcos de província, recorde-se Vilar de Mouros, mas no caso de Cem Soldos a vibração é dada pela própria aldeia, os músicos portugueses não dispensam a sua presença.

Cem Soldos e BONS SONS são indissociáveis, bem merecedores deste livro irrepreensível no afeto e na singeleza de nele convergirem os momentos altos desses dez anos de uma aldeia que passou a estar no mapa de todos aqueles que gostam da inovação e da provocação na música portuguesa.

Se possível, guarde este livro da aldeia mais musical do nosso país.

Beja Santos

 

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