Chamusca

Tomar e o Portugal lendário

Por: Mário Beja Santos

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Nome sonante da cultura portuguesa, com investigações de referência quanto à obra de Camilo Castelo Branco, literatura tradicional, contos populares e lendas, é de saudar a sua mais recente publicação, Portugal Lendário, Tesouro da Tradição Popular, Temas e Debates, agosto, 2022, ali cabe todo o nosso país, justamente ele fala em Portugal lendário de ponta a ponta, e diz mesmo: “Um país sem lendas é um aborrecimento, é capaz de não existir.

1Aliás, os seus habitantes, em torno de uma salamandra, eternizam-se a contar ao serão a lenda do país que não tinha capacidade de forjar lendas para passar de geração em geração.” Há que esclarecer o que é lenda, como o autor recorda: “A narrativa lendária, tal como se nos apresenta desde há muito, está marcada por uma quase total liberdade de efabulação.

Nunca foi organizado um mapa cronológico das lendas de Portugal, mas quando tal acontecer, poderá haver quem coloque o comparativo de outras lendas por esse mundo fora – e então quantas surpresas surgirão pela equivalência!” Não esquece de mencionar duas figuras cimeiras no pioneirismo das lendas de Portugal, Garrett com o seu Romanceiro, e Herculano com as suas Lendas e Narrativas.

Que escolha fez Mestre Viale Moutinho na inclusão de Tomar? Escolheu A Montanha de Ouro, eu não conhecia e nesta literatura de chefes mouros, princesas encantadas, tesouros escondidos e amores sacrificados, li com imenso agrado e espero que o leitor apanhado desprevenido se fascine. Pois vamos ao texto:

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José Viale Moutinho

“Quantas vezes se terá perguntado o que é Bezelga quem conhece o nome desta freguesia de Tomar. É que há uma agradável vilazinha Bezelga e uma ribeira assim chamada. É para quem já formulou essa interrogação que se conta esta dramática lenda.

Ouçam-na. Ah, e comecemos por chegar a uma cidade antiga, há muito desaparecida, e fazemo-lo em dia de festa. As festas são em homenagem a uma jovem princesa que se chama Bezulce. Linda como os amores, os homens caem por ela. Entre os atos, há um torneio que coloca frente a frente dois jovens que se diferenciam muito bem entre si: um deles chama-se Elga, é muito rico e soberbo; o outro, Flavius, é pobre e bom rapaz. Quando entram em combate, de lança e espada, ambos os cavaleiros disputam as atenções da princesa com quem querem casar. Foi um combate duro, que Flavius venceu. E a princesa manda chamá-lo à sua tribuna. Deseja felicitá-lo pela brilhante vitória. Ele dirige-lhe um galanteio:

– Mas nada mais pretendi que agradar-vos, princesa… – Falam um pouco mais, trocam amabilidades e ele acaba por dizer-lhe que o único prémio que pode apetecer é o coração dela.

A princesa não se surpreende, tanto mais que sentiu uma inclinação por Flavius desde que o viu em campo. Mas não se atreve a ser clara com ele, pede-lhe que aguarde. Ele afasta-se.

Mas aproxima-se Elga, o rival, que imediatamente pede Bezulce em casamento, prometendo-lhe uma montanha de pepitas de ouro como dote. A princesa recusa, dando a entender que a sua escolha está noutro lado. Ela dispõe-se a aguardar o regresso de Flavius. Mas Flavius nunca mais aparece, e assim, ante as insistências de Elga, Bezulce acaba por ceder. Casará com ele.

Marcado o casamento, mesmo assim Bezulce espera até à última hora que apareça Flavius, mas tal não acontece. Casam, e ele, dando-lhe o braço, leva-a à saída da cidade e mostra-lhe um outeiro de pepitas de ouro, dizendo que é a sua prenda de casamento. Ouve-se então uma voz que diz ter sido aquele ouro extorquido ao povo. Elga assusta-se, e Bezulce, que pelo casamento se passa a chamar Bezelga, pede contas ao marido.

A mesma voz dá a entender que é de Flavius, a quem o marido mandou assassinar e enterrar ali mesmo. Que lhe mataram o corpo, mas a alma, o espírito, está ali para denunciar o vilão. Elga está furioso com aquela intromissão sobrenatural e acaba por confessar que a questão era ou ele ou eu a resolver à sua maneira. Então, a princesa disse que tinha poderes mágicos para serem usados só uma vez e atuou com eles. Transformou a montanha de ouro em pedra e Elga numa estátua também de pedra. Entretanto, a princesa começou a chorar copiosamente, transformando-se na ribeira do seu nome. E a povoação ali aparecida foi nomeada em sua memória.”

Isto é o que nos conta o insigne estudioso, deu-me para vasculhar na internet o que há mais sobre Beselga e a sua atmosfera lendária, vejam só o que eu encontrei, a consonância perfeita:

 
“A lenda de um monte de ouro e de uma ribeira de lágrimas

Num antigo povoado, havia uma princesa com um curioso nome – Bezulce. Parece de homem, dirão alguns, habituados que estão às terminações de nomes femininos atuais. Para trocar as voltas, outro dos principais personagens era um abastado nobre tratado por Elga, nome estranho para um rapaz.

Ora, Bezulce, a princesa, era objeto de cobiça por parte de todos – ricos e pobres, novos e velhos. Elga seria, pela sua posição, o mais provável candidato a desposar Bezulce. Aquilo com que Elga não contava era com um adversário ao seu nível, mas de baixa classe. Um tal Flavius, que compensava a pobreza com a simpatia.

Chegados ao dia de festa da terra, os habituais torneios de combate aconteceram. Por coincidência, Flavius e Elga tiveram de se digladiar. Era uma luta que superava as ambições de cada um a ser campeão. Disputavam algo mais – disputavam a atenção da princesa Bezulce.

A esforçada contenda teve um surpreendente vencedor. Flavius, o pobre, levou a melhor. Bezulce pede para o congratular pessoalmente, perguntando-lhe se haveria alguma coisa em particular que desejasse dela. Flavius, com a humildade de sempre, respondeu que a atenção que a princesa lhe dedicara já era suficiente. E que o único prémio que realmente pretendia era ser seu, de alma e coração.

Bezulce quis saltar para os seus braços. Mas, sentindo-se observada, não responde. Nem sim, nem não. Pede apenas a Flavius que aguarde e que volte noutra altura.

Dias depois, Elga, humilhado e derrotado, pretende vingar-se. Mata Flavius e, de seguida, sem dizer o que fez, resolve pedir a princesa em casamento. Como presente, caso aceitasse, dar-lhe-ia um monte de ouro. A princesa recusa. Achava ela que estava destinada ao pobre Flavius, a quem pediu para regressar. Mas Flavius nunca mais aparecera.

Passaram-se meses. A princesa, magoada, resolve enfim anuir ao pedido do nobre Elga.

No dia do casamento, com uma princesa visivelmente triste para um dia que deveria ser de festa, Elga cumpriu a promessa. Bezulce, com a união, passou a chamar-se Bezelga. Terminada a cerimónia, com todo o povo a aplaudir, mostra-lhe um longo monte com ouro em vez de terra.

Mas, do nada, uma voz levanta-se e fala: esse foi o ouro que Elga roubou do povo. Perguntando quem tinha dito tal infâmia, Elga recebe em resposta que aquela é a voz de quem ele matou e atraiçoou, do Flavius que o vencera em torneio, que tinha partido em carne, mas que se mantinha em espírito, e que ali estava para repor justiça.

Pressionado pelo espírito e por Bezelga, Elga confessa a sua malvadez. A princesa, irada com os atos do seu marido, e desgostosa com a morte do seu amado, levanta os braços e, usando dotes mágicos desconhecidos de todos, transforma o monte e Elga em pedra. Ajoelhou-se e as lágrimas caíram. Foram tantas que delas se fez uma ribeira – a ribeira de Bezelga.

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Igreja Matriz da Beselga
A lenda e a realidade

Que a aldeia de Beselga existe, já confirmámos. Que há uma ribeira de Beselga, bem perto da povoação homónima, confirmamos agora. Resta saber qual seria o monte de ouro transformado em pedra que a lenda cita, bem como um eventual afloramento rochoso que, no imaginário popular, corresponde à estátua de Elga.

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Beselga e Madalena na Festa dos Tabuleiros

No caso do monte, parece-me provável que se refira ao Alto do Serafim, ou ao Crutinho, um outeiro que se eleva a uns modestos 156 metros de altitude, e por onde a ribeira de Beselga passa, ao longo da vertente sul. Quanto a um molde de pedra que a tradição oral atribui ao nobre Elga, não tenho qualquer conhecimento da sua existência.

Já a princesa Bezulce, depois renomeada Bezelga, tem muitas afinidades com as Mouras Encantadas do folclore português – seres encantados ligados à água que têm, por norma, temperamento vingativo. A princesa da Lenda de Beselga conta com estes dois atributos, a água pelas lágrimas choradas que viram nascer uma ribeira, a vingança pela sentença que atira ao seu marido ao saber a verdade.”

– Transcrito do blogue Portugal Num Mapa – O País Que Desconhecia (https://www.portugalnummapa.com/a-lenda-de-beselga/), com a devida vénia

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Ponte sob a ribeira de Beselga

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