Opinião: Tomar é para extinguir?

Por: Sérgio Martins

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A notícia sobre a venda do edifício onde estão os SMAS de Tomar, na Praça da República, está a impressionar negativamente a comunidade tomarense e confirma o que venho propondo desde há 31 anos. Desde 1987 que venho defendendo um Plano Integrado de Desenvolvimento para Tomar, que abranja, além da economia, a cultura, os serviços, o turismo, o urbanismo, os monumentos, bem como as relações entre os vários setores. Nada foi feito. Os “políticos” também não sabem como o fazer. Tomar tem de ser considerado no seu todo, no seu significado, nas suas relações com o Universo, e nas suas necessidades económicas e sociais, o que não é entendido pelos “políticos” nem pelos autarcas. Sobre a Praça da República, há muito que devia ter sido elaborado um Plano a vários anos para a sua valorização, aproveitamento, relação entre os edifícios (onde se inclui o onde está o SMAS, agora vendido), e até sobre a manutenção, ou não, do próprio nome da Praça e a permanência da estátua de D. Gualdim Paes. O mesmo devia ter acontecido em relação à rotunda Alves Redol, a da desaparecida fonte cibernética; devia ser revisto o nome da rotunda e delineada a sua valorização. Outrora, antes da loucura da fonte cibernética, o artista Tó Carvalho elaborou um projeto para aquela rotunda, em ligação com os Estaus e a Levada, que não foi levado em conta, nem este nem outros projetos, porque em Tomar nada se cria e tudo se destrói. O sociólogo António Barreto, refugiado político antes do 25 de Abril, socialista, Ministro da Agricultura de um Governo Socialista, investigador, e socialista desiludido como a maioria dos que passaram pelo erradamente chamado de Partido Socialista, escreveu na sua crónica dominical no DN, como outros antes dele o fizeram, que Tomar é uma “cidade excecional de monumentos e obras de arte”, que, reconhece, são mal preservados. Defendem alguns que a Câmara de Tomar devia ter uma palavra a dizer na ou mesmo assumir plenamente a administração do Convento de Cristo, o que seria a melhor forma de o destruir. Uma Câmara que apagou o Parque de Campismo, que não consegue resolver os problemas do Convento de Santa Iria (que está num Município onde só se sonha com unidades hoteleiras), que não sabe arranjar novas aplicações para o Parque do Mouchão e para o edifício da Estalagem nele instalado, que não sabe desenvolver a Zona Empresarial, e que não sabe o que fazer com o resto do concelho, é uma Câmara que apenas ajuda à extinção de Tomar, seja qual for o partido político nela dominante.

Todos os partidos políticos e grande parte da população em Tomar defendem que a Câmara Municipal não se pode meter nos assuntos económicos, por isso o concelho entrou numa crise profunda. A Câmara de Oeiras recuperou o vinho de Carcavelos, um dos melhores do mundo; a Câmara Municipal de Lisboa, segundo o DN de 25/5/2018, fez uma parceria com a produtora de vinhos Casa Santos Lima para plantarem uma vinha nuns terrenos abandonados junto ao Aeroporto de Lisboa, agora, três anos depois da plantação da vinha, a primeira colheita deu um vinho que ganhou uma medalha de ouro. Em Tomar, as preocupações dos partidos políticos que têm ocupado a Câmara vão apenas para os “eventos” e a política de transformar Tomar na “capital dos eventos”, eles sonham em viver na “Terra do Nunca”, como o Peter Pan.

O Primeiro-Ministro António Costa, em entrevista à revista Ípsilon, do Jornal Público de 18/5/2018, avisa que “não podemos ter os centros das cidades como disneylândias para adultos”: é nisto em que Tomar, ao longo dos anos, se tem vindo a transformar.

Enquanto Tomar se vai transformando numa má Disneylândia, em Portugal, perdão, em Lisboa, está a decorrer um grande debate sobre um Museu dos Descobrimentos portugueses. O PM António Costa, na revista acima referida, diz ser “preciso descolonizar os Descobrimentos”. Há quem acuse a intenção de construir um Museu dos Descobrimentos de “neocolonialismo”. A discussão sobre a existência do Museu e o seu nome é grande, mas é um debate que é dominado pelo colonialismo e pela utilização que o Estado Novo fez do Império Colonial, quanto a outros valores e objetivos, como o Culto do Espírito Santo, nada é dito. Tomar, “princípio da Universalidade do Mundo”, de onde partiu o Culto do Espírito Santo para o Mundo, e onde foi delineada a política e a estratégia dos Descobrimentos, como é reconhecido por todo o Mundo, devia assumir uma posição sobre o assunto e exigir que o Museu das Descobertas fosse instalado no Convento de Cristo, mas não o fará. Em Tomar, que tem potencial, mas falta-lhe força e poder para o realizar, prefere-se espezinhar a “Cruz de Portugal”, ou cruz da “Ordem de Cristo”, que foi levada pelas caravelas dos Descobrimentos para todo o Mundo. A “Cruz de Portugal”, o símbolo nacional português instituído por D. Dinis, está implantada em passeios de Tomar, onde é espezinhada e sujeita a todas as humilhações, uma terra que cultiva semelhante aviltamento tem direito a existir? Uma terra que não consegue salvaguardar os seus símbolo históricos e espirituais, que são símbolos universais e de Portugal, que não consegue salvar a sua base económica nem as suas simbólicas empresas sociais, nem o seu ambiente, nem os seus edifícios históricos, nem o desenvolvimento da sua população, não corre o risco de extinção? É isto que os tomarenses querem?

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