O Grupo de Amigos do Aqueduto do Convento de cristo deu hoje uma conferência de imprensa, na antiga casa da decantação de água, nos Pegões Altos, onde denunciou o silêncio institucional e exigiu um plano urgente de salvaguarda para o monumento com cerca de 400 anos.
Nesta Conferência de imprensa participaram Rui Ferreira, João Elvas, José Carlos Marouco, Fernando Lopes e Joaquim Nunes. Marcou presença o presidente da Junta de Freguesia de Carregueiros, Francisco Santos e João Flores.
O Aqueduto do Convento de Cristo, uma das mais notáveis obras hidráulicas do período da Ordem de Cristo e com cerca de quatro séculos de existência, permanece em avançado estado de degradação após décadas de alertas, estudos técnicos, iniciativas cívicas e promessas nunca concretizadas por parte das entidades públicas responsáveis pelo património.

A denúncia é feita pelo Grupo de Amigos do Aqueduto do Convento de Cristo, que acusa o Estado de abandono continuado e de falhas graves na gestão de um monumento classificado como Monumento Nacional e considerado peça-chave para a compreensão do conjunto monástico de Tomar, Património Mundial da Humanidade desde 1983 — classificação que, no entanto, excluiu o próprio aqueduto e a cerca conventual.
Segundo o grupo, apesar de o aqueduto ter sido alvo de manutenção regular até ao século XIX e de grandes obras financiadas pelo erário público já no século XX, a atenção do Estado foi diminuindo progressivamente, cessando quase por completo no final da década de 1970. Desde então, a degradação estrutural, o vandalismo e a deterioração da paisagem envolvente agravaram-se.
Em 2000, o então Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) anunciou um plano de recuperação faseado, que incluía o levantamento integral do estado do aqueduto, o seu restauro e até a criação de um circuito de visita. Nenhuma dessas medidas foi executada.
Ao longo dos anos seguintes, associações cívicas e especialistas tentaram colmatar a ausência do poder público. Em finais dos anos 1980, o CEPPRT promoveu ações de limpeza e sensibilização. Em 2009, a associação Restauradores sem Fronteiras realizou em Tomar a iniciativa internacional MemoBlitz, reunindo voluntários e peritos para identificar problemas e potencialidades do aqueduto. A documentação produzida foi enviada às entidades competentes, sem qualquer resposta.
Em 2013, a Direção-Geral do Património Cultural reconheceu por escrito a proteção legal do aqueduto, mas afirmou que o assunto “não merecia acuidade especial”, admitindo apenas a intenção, a médio prazo, de o integrar no perímetro do Património Mundial — intenção que nunca saiu do papel.

Foi neste contexto que, em 2014, surgiu o Grupo de Amigos do Aqueduto do Convento de Cristo, que há mais de uma década promove limpezas, visitas temáticas, colóquios, ações de reflorestação, documentários e iniciativas públicas de sensibilização. Num colóquio realizado em 2016, na Quinta dos Pegões, especialistas de várias áreas apelaram formalmente ao Ministério da Cultura para a criação urgente de um plano de salvaguarda e para a integração do aqueduto na classificação da UNESCO. Mais uma vez, não houve resposta.
O grupo manifesta ainda surpresa perante declarações recentes do atual Instituto Público do Património Cultural, que afirmou publicamente desconhecer alertas anteriores sobre o estado do aqueduto. “Os alertas existem há mais de 40 anos, foram públicos, técnicos e mediáticos”, sublinha a associação.
Apesar disso, os ativistas veem com esperança os mais recentes desenvolvimentos, que incluem o anúncio de um levantamento do estado de conservação — ainda que limitado ao troço dos Pegões — e a interdição da passagem pedonal, medida há muito reivindicada como essencial para travar a degradação.
Com mais de seis quilómetros de extensão e quatro nascentes, o Aqueduto do Convento de Cristo continua a resistir, sendo um dos ícones turísticos de Tomar. Mas, alerta o grupo, “a monumentalidade do Vale dos Pegões não pode esconder o abandono do conjunto como um todo”.
“O aqueduto é legado, desafio e oportunidade”, concluem os Amigos do Aqueduto, que garantem que continuarão a denunciar, divulgar e agir na defesa de um património que consideram uma obrigação ética nacional preservar.





