Olhares sobre a blogosfera portuguesa

Por: Mário Beja Santos

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Quem previu o fim da blogosfera como comunicação digital seguramente que se equivocou quanto a esta morte prematura. Os blogues incendiaram as redes sociais e como é timbre da aceleração da sociedade digital vão mudando de pele e de alvos de comunicação. Irradiaram a partir dos EUA, foram acolhidos com simpatia entre nós no dobrar do século, entusiasmaram políticos, fazedores de opinião, entidades culturais, agentes da diversão e como labareda deram origem a canais temáticos.

A própria imprensa diária foi obrigada a refletir sobre esta extensão comunicativa e de algum modo agendou espaço para que os leitores emitam opinião. Daí a curiosidade em ler A Blogosfera Portuguesa, por Sérgio Barreto Costa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021. O autor tem o mérito de logo nos intrigar na nota prévia dando-nos o seu quadro ideológico, atitude bizarra dado que esta coleção adquiriu pergaminhos divulgativos e sem olhar a quem. Este blogger deve-se levar muito a sério para nos trazer logo o seu bilhete de identidade político: numa linha que vai da esquerda à direita inclina-se para a direita; numa linha que tenha início no socialismo e fim no liberalismo, tende para o liberalismo; e numa linha que comece com os progressistas e termina nos conservadores, é provável que se encontre mais ou menos a meio do caminho.

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Deve julgar-se divertido e pensar que vamos perder tempo a cogitar em que barco da direita anda a remar. Ficamos igualmente a saber que ele escreve no blog Blasfémia. Diz-nos que a blogosfera portuguesa nasceu no dia 15 de outubro de 2002, introduz-nos num ambiente paroquial de plumitivos da direita portuguesa, cita nomes que se farta, engendra a ilusão de que toda esta direita bem-pensante tem direitos de saque especiais. Mas é condescendente, abre prudentemente a porta a blogues da esquerda, segue-se mais uma bebedeira de nomes, está-se a falar no José Pacheco Pereira e o autor tem que demonstrar que é culto, ora escutem: “Nos primórdios do estalinismo, o pintor Kazimir Malevich, pouco dado a expressar artisticamente as realidades sociais e a ser útil ao coletivo, foi acusado de subjetivismo pelas autoridades soviéticas e ficou, desde esse momento, com a vida ligeiramente desgraçada. Pacheco Pereira, que saudavelmente se afastou dessas andanças, parece por vezes refém da formação que terá tido na juventude, tendo-se refletido essa particularidade no seu Abrupto, que logo se quis afirmar como a consciência moral da blogosfera”.

E como se estivéssemos num ambiente de pátio e soalheiro, Pacheco Pereira critica Passos Coelho, e depois o autor não faz mais nada, quer mostrar-se sardónico e escreve: “Pacheco Pereira nunca escondeu que, mais do que um blogue, o Abrupto era o jornal de liceu que gostaria de ter feito na juventude e que não pôde fazer por falta de dinheiro. E, pedindo a palavra emprestada a Sá de Miranda, patrono do blogue, ‘tresvaliou’ (isto é, navegou diletantemente), por todos os temas a que a sua manifesta curiosidade o transportava.

É certo que a forma ligeiramente robotizada com que abordava, por exemplo, a poesia, fazia daquele espaço o local mais adequado ao verão do que ao inverno”. Quem vem à procura de uma radiografia da blogosfera anda permanentemente enredado nestas chalaças de novo-riquismo, temos depois os partidos políticos, vamos de novo à esquerda, vamos de novo à direita, até o Grupo de Ofir tem honras da casa, ficamos a saber que Pedro Arroja é místico, para além de ideólogo do Chega, como já está criada a imagem de que a blogosfera é coisa para gente fina fala-se do blog Ladrões de Bicicletas, ficamos a saber que é formado em grande parte por académicos ligados ao Bloco de Esquerda e à ala mais esquerdista do PS, destaca-se João Galamba e aproveita-se para dar ao leitor o décimo milionésimo ensinamento, viemos todos da parvónia: “Não nos esqueçamos, porém, que a velha máxima esculpida por Álvaro Cunhal para o PCP (Partido Comunista Português) – rigidez estratégica e flexibilidade tática – nunca esteve tão na moda como nestes últimos cinco anos – e que a ascensão do atual secretário de Estado Galamba pode ser apenas mais um sinal da eficácia desta forma de estar.

Há um episódio na vida de João Galamba que, apesar de pessoal, é relevante para a compreensão das idiossincrasias da blogosfera e das relações esquerda-direita em Portugal. Trata-se do seu casamento com Laura Abreu Cravo, que com ele partilhava a condição de blogger, mas não a de esquerdista. Trazer a vida privada das pessoas para este texto pode ser interpretado como um desvio de mau-gosto, mas como quer um quer outro já falaram sobre o assunto em entrevistas à comunicação social, arrisco o tabloidismo”.

Sérgio Barreto Costa dá-nos uma blogosfera de vistas curtas, muita gente intelectual, muita gente do seu meio, muita conversa de nova geração, questões ontológicas de lana-caprina, o anonimato, o pseudónimo, as picardias, sempre gente muito fina e bem-pensante e muito atuante, o embaixador Seixas da Costa, com um currículo quase perfeito na área dos Negócios Estrangeiros, blogger prolixo e gastrófilo conhecedor, Eduardo Pitta que vem à estacada quando alguém se atreve a tocar, mesmo que ao de leve, no adorado e sacrossanto Partido Socialista, temos muita Clara Ferreira Alves, Alberto Gonçalves, há mesmo um blogger português com maiores tomates, Ana Cássio Rebelo, “que, com a sua sinceridade, não se importou de arriscar, num país conservador, um destino parecido com o que calhou em sorte à Ana da canção de Chico Buarque: transformar-se em carta marcada de um jogo de azar”.

E a seguir fala de Bob Dylan, pois claro. Voltamos ao anonimato, e escolhe-se um caso modelar, o blog O Meu Pipi, “foi um avassalador sucesso, tendo conquistado, nos poucos meses em que foi alimentado, a atenção de uma plateia bastante heterogénea. Os primeiros posts, de maio de 2003, já recheados com vocábulos capazes de fazer corar o proletariado da construção civil e com neologismos capazes de despertar a atenção do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, terminavam com a curiosidade de nem sequer estarem assinados por um pseudónimo”. Que anonimato edificante!

A grande surpresa vem no fim: “A quantidade de pessoas que, tendo iniciado a sua exposição ao espaço público através da blogosfera, se encontra hoje em dia dos mais relevantes espaços mediáticos do país (televisões, jornais, Parlamento, Governo, partidos políticos, etc.) é tão significativa que chega, por vezes, a originar equívocos”.

E o historiador Fernando Rosas leva um safanão pelo comentário que fez ao discurso de João Miguel Tavares nas comemorações do 10 de junho. Sérgio Barreto Costa fala da blogosfera como um novo fóssil, é uma morte antecipada que não está confirmada, há gente fora da classe nobre que constitui a sua paróquia que se move na blogosfera desde as associações de doentes aos antigos combatentes da guerra colonial, enfim, atividades muito pouco chiques para a empáfia deste deslumbrado pseudo-erudito.

E há que questionar o que leva a Fundação Francisco Manuel dos Santos a publicar esta derrisão.

Mário Beja Santos

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