Porventura um dos maiores acontecimentos culturais de 2020: História Global de Portugal

Por: Mário Beja Santos

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Mário Beja Santos

É um projeto pioneiro, comporta abordagens singularíssimas na peugada das modernas correntes historiográficas, onde nada se aproxima, nem de perto nem de longe, das doutrinações de Fortunato de Almeida, Damião Peres e mesmo Oliveira Marques, que foram mestres de gerações (a nota dissonante era Vitorino Magalhães Godinho). Os diretores de uma obra que é um verdadeiro sobressalto no modo de ver a nossa relação com o país e o mundo (Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva), no prefácio dão um esclarecimento claro: “A história era conhecida de forma bipolar, dualista: existíamos nós e os outros. E os outros eram muitas vezes visto de modo maniqueísta: os povos amigos e os povos inimigos.

Nos casos mais extremos, a história nacional, ou até a local, era concebida e ensinada como uma realidade quase autónoma em relação à história do mundo, com uma vida imaginariamente separada, isto é, que podia ser explicada como se nada mais existisse ou, existindo, como se essa existência não fosse determinante para a entender”.

Pertenço à geração que aprendeu com os compêndios de António G. Mattoso, parecia que a história era linear, havia uma estranhíssima antiguidade oriental em que se sobrepunham povos e civilizações, uma verdadeira cavalgada que passava por Grécia e Roma, umas tais invasões bárbaras que eram culturalmente contrariadas por uns monges que não só preservavam mensagem cristã como resgatavam o melhor da cultura greco-romana (sabe-se hoje que o fanatismo religioso destes séculos levou à destruição de textos de incalculável valor), havia depois a Idade Média, que parecia singrar automaticamente para uma Idade Moderna… e a partir da cultura greco-romana a visão histórica era literalmente eurocêntrica com algumas adjacências que podiam ser a China, as culturas Maia e Azteca. História Global de Portugal é um novo alento para entender a dinâmica a que os habitantes deste espaço foram sujeitos.

O modo de ver a história mudou, como os mesmos diretores observam: “Despontou nas duas últimas décadas, em vários países, uma reflexão acutilante sobre a história global, que impõe a necessidade de repensar o passado. Foi esta reflexão epistemológica que fez emergir, no campo historiográfico, novas histórias globais de várias nações. Assim, em 2017, vieram a lume as histórias mundiais da França e da Itália, a que se seguiram, em 2018, perspetivas similares na Holanda e na Espanha. Também na América já tinham sido publicados livros que abordavam a história global dos Estados Unidos”. Obra, portanto, de vanguarda, mas manda a seriedade que se indique a inspiração, a fonte original.

E pôs-se o projeto em marcha que dá este tomo de mais de 650 páginas, comporta-se 93 textos agrupados em cinco blocos cronológicos, cada um deles com um coordenador científico. “Os textos partem de um acontecimento, criteriosamente escolhido pelos diretores da obra e pelos responsáveis científicos de cada uma das épocas, que é lido à luz dos preceitos acima expostos.

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Esta História Global de Portugal pretende oferecer um conhecimento crítico, mediante um exercício de síntese analítica, que permita produzir uma visão de conjunto da história que, tendo tido a sua génese no território português ou por ele tendo passado, estimulou os processos de encontro e de desencontro do mundo global hodierno: História Global de Portugal, Temas e Debates, 2020.

E assim temos uma Pré-História e uma Proto-História onde são evidentes as analogias com tudo o que se passou pela Europa, percebe-se o que há de global na chamada cultura campaniforme (recipiente em campânula invertida e com decoração), cuja produção ocorreu entre 2700 e 1800 a.C. e que vamos encontrar na Europa Ocidental e Central, como a Ciência permite comprovar. Aqui arribaram Fenícios, Romanos que impuseram a Hispânia num grande mercado correspondente às dimensões do Império de Roma, que nos deixaram formulação jurídica e a base linguística, a emergência das cidades, relatos como os de Estrabão e de Plínio, O Velho; Suevos, Alanos e Vândalos, no início do século V entraram na Hispânia e chegaram à Lusitânia e à Galécia, deixaram dedadas civilizacionais e culturais. E assim se arranca para uma Idade Média globalizante, onde não faltou confronto e interação com o Islão, onde a nossa língua foi evoluindo, onde se assimilou do Românico ao Gótico, uma estética marcadamente europeia, chegaram ordens militares e religiosas, e das primeiras, a Ordem do Templo iria assumir um papel primordial na formação do território e até, com o nome da Ordem de Cristo, no processo expansionista; nasce uma literatura incipiente, Portugal entra num sistema universitário que é francamente global e definidas as suas fronteiras pelo Tratado de Alcanices, assegurada a independência por Aljubarrota, Portugal procura ligar-se a novos mundos, descobre as suas ilhas atlânticas, ruma ao norte de África, começam as navegações a contornar a sua costa ocidental, é tudo terra incógnita e mar ignoto, mas depois do Bojador lança-se uma âncora na costa da Guiné, cria-se a fortaleza de Arguim, o conhecimento científico avança a passos largos, desde a arte de marear e da cartografia até aos conhecimentos das drogas que curam, os missionários repartem-se pelos continentes, Camões escreve toda esta épica, e dá-se um refluxo, a despeito da manutenção da dinâmica global, a União Ibérica.

Contemporâneo da Restauração é o Tratado de Vestefália, onde se tentou um regime de relações assente na igualdade político-jurídica entre todos os Estados. Acontecera que a nossa geografia de circulação das pessoas conhecera uma grande modificação depois de 1640, as grandes potências europeias mantiveram o seu estatuto, Portugal procurou refazer o seu império na Ásia e no Brasil.

As correntes artísticas mantiveram porosas, Portugal não escapou nem ao maneirismo nem ao barroco e pode-se falar do Palácio de Mafra como uma visão global do barroco, há para ali uma magnificência inultrapassável. E sempre a demonstrar que a História de Portugal não somos só nós e depois os outros, este projeto audacioso da História Global de Portugal recorda-nos o papel da Maçonaria, as tentativas de modernidade arquitetónica de que a reconstrução de Lisboa no projeto do Marquês de Pombal é o caso de maior evidência. O período napoleónico introduz uma fratura num regime absolutista, a Corte portuguesa desloca-se para o Rio, tudo será diferente a partir daí, quer para o Brasil quer para Portugal. Haverá resistência ao liberalismo, e Portugal conhecerá uma dolorosa guerra civil. Após meio século de significativos recuos, a Regeneração procura caminhos de progresso e desenvolvimento.

Extinto o império brasileiro, confinada a presença portuguesa no Oriente a alguns vestígios, inicia-se o período do III Império em África, o mesmo continente onde se extinguirá a nossa história imperial. Mas seremos globais por outras vias: pelo Turismo, pelo Santuário de Fátima, e depois de uma guerra colonial que quase nos transformou num Estado pária, ingressámos no que é hoje a União Europeia onde, a despeito da onda eurocética, temos colhido enormes benefícios. E continuamos a toada migratória, e acolhemos gentes, hoje não é necessário ir à Rua Nova do Almada para conhecer o Portugal global, basta ir à freguesia de Arroios, ali vivem e labutam habitantes de 90 países de todos os continentes. Estamos visceralmente marcados pela tolerância e pelo espírito de acolhimento, ninguém nos subtrai à tentação global.

De leitura obrigatória, livro tão otimista como este em tempos de nebulosidade pandémica que atravessamos não se acredita que possa existir. Parabéns a quem foi ousado, apostou forte e ganhou.

Mário Beja Santos

 

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