Crédito Agrícola

Uma Asseiceira cheia de história, bem apetecível para crianças e jovens

Por: Beja Santos

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   O livro tem o formato que se destina habitualmente à literatura infantojuvenil, a edição é da Junta de Freguesia da Asseiceira, 2016, escreveu Nuno Garcia Lopes e ilustrou José Lima. O objetivo é claro: perpetuar mais de 700 anos de uma freguesia que já foi concelho. Era uma vez… De 1315 a 1836, a Asseiceira foi um concelho, tem história rica de acontecimentos, a atual freguesia tem uma dimensão aproximada de 29 quilómetros quadrados e uma população que rondará os três mil habitantes. Para quem ainda não a visitou, um dado sobre a sua localização: é banhada pelo Nabão, desde a ribeira de Beselga até à foz, depois as suas águas misturam-se com as do Zêzere. Das nove aldeias que a compõem, a Linhaceira é o maior centro populacional do concelho, encontrando-se igualmente Asseiceira e Santa Cita no grupo das dez maiores. A pecuária é a principal atividade económica da freguesia, que já foi uma das mais importantes no fabrico de papel a nível nacional. A destacar outras atividades: a olaria e os chocalhos, uma arte que é hoje Património da Humanidade.

   O primeiro documento que atualmente se conhece com referência à Asseiceira data de 1218, refere uma doação do lugar de Ceiceira (nome que tinha nessa altura) que foi feita pelo Mestre dos Templários, D. Pedro Alvito, a Paio Farpado. Nesta edição graficamente primorosa vem a Lenda de Santa Cita que deve ser tratada como lenda, obviamente, é uma das histórias de martírio bem própria do tempo da Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, basta recordar oficiais romanos convertidos e martirizados, Santa Iria, a lista é inumerável.

   Parece que Paio Farpado tinha obrigação de construir uma albergaria (por ali passavam muitos peregrinos com destino a Santiago de Compostela), não o fez, razão que motivou o Mestre dos Templários a fazer nova doação, em 1222, desta feita a Pedro Ferreiro, o mesmo fundará e dará o nome a Ferreira do Zêzere.

   Estamos já em meados do século XIII, os Templários ofereceram aos frades Franciscanos um lugar que então se chamava o Casal de Vale Bom (hoje Santa Cita) para ali fazerem convento, de que hoje resta a igreja e uma casa particular, ao seu lado. Asseiceira foi ganhando notabilidade, recebeu privilégios, não teve vida fácil entre as cobiças de vizinhos poderosos, Tomar e Torres Novas, lá intercedeu D. Dinis, em 1287 a proibir que outros lhe cobrassem impostos ou aplicassem leis. E assim chegamos a 1315, D. Dinis concede carta de foral a Asseiceira, passou a ser sede de um pequeno concelho rural, aproximadamente do tamanho da atual freguesia, veio a ter paróquia e capela.

   É concelho rural, mas há notícia de que em 1506 ali existiam saboarias, tal como na Atalaia. Em novembro de 1514, D. Manuel atribui à vila um foral novo, o mesmo quer dizer que confirmou o foral dado por D. Dinis. Faz-se então recenseamento e ficou-se a saber que existiam ao tempo 73 famílias em 4 lugares: Asseiceira, Roda, Grou e Linhaceira. Em 1513 já existia o nome Linhaceira, um porto no rio Nabão (na zona hoje conhecida como Taveira), de grande importância porque era por ali que transitavam muitas mercadorias destinadas a Tomar.

   Um dos bens patrimoniais mais importantes da Asseiceira, só por si uma razão para a ir visitar, é a coroa do Espírito Santo, existente na Igreja-Matriz e datada de 1544. Esta coroa é a mais antiga das que desfilam na Festa dos Tabuleiros.

   Há notícia a partir do século XVIII de que a Guerreira já existia como povoação, depois surgiu a aldeia de Santa Cita que no século passado veio a “absorver” a vizinha Guerreira. Nuno Garcia Lopes não se esquece de referir esse recurso de sempre, o rio Nabão, era através dele que era trazido em barcos o sal destinado a Tomar.

   Para que os meninos e até os graúdos saibam, o primeiro mapa de Portugal, da autoria de Fernando Álvares Seco, é datado de 1561, embora tenha sido elaborado uns 30 anos antes. Inclui a Asseiceira registada como Ceiceira. Voltando ao Nabão, também importante como força-motriz, tem-se igualmente notícia, em especial na Matrena, da existência de uma fábrica de vidros em 1595. Estamos a falar da mesma Matrena onde se instalou em 1900 uma fábrica de papel que foi das mais importantes do século XX no nosso país. E para mostrar que Asseiceira teve sempre muita vida dá-se a prova dos registos paroquiais onde, para além de casamentos, batizados e óbitos, surgem referências às várias aldeias.

   O século XIX está marcado por acontecimentos históricos para a Asseiceira, viveu muitas provações e foi palco de uma batalha em 1834 que levou à inexorável derrota do Absolutismo e abriu a porta à era do Constitucionalismo Monárquico, por via do Liberalismo. Mas antes houve as invasões francesas. Em 1807 por aqui andou um exército espanhol comandado por D. Juan Carrafa, era sonho napoleónico e espanhol retalhar Portugal. Os franceses obrigaram a Asseiceira a pagar o imposto de guerra, em 1808. O autor dá-nos conta das provações que se seguiram. A vila foi ocupada em novembro de 1810 pelo Regimento de Dragões N.º 11. Depois passou por aqui o Regimento Francês da Linha N.º 76 e no ano seguinte os invasores franceses voltaram a atravessar a Asseiceira, era a Divisão Loison, o tal general maneta, atrocidades não faltaram, a Igreja-Matriz da Asseiceira foi muito arruinada pelos franceses que lhe queimaram altares, desapareceram alfaias religiosas, o costume da depredação.

   Vinte anos depois, no auge da Guerra Civil, aqui se deu a 16 de maio de 1834, nas charnecas entre Santa Cita, Asseiceira e Linhaceira, a batalha que deu a vitória a D. Pedro IV. E diz-se com uma certa amargura que o concelho onde os liberais obtiveram a vitória acabaria por ser extinto dois anos depois, na sequência da reorganização do espaço autárquico no Código Administrativo, foram extintos 498 pequenos concelhos de todo o país. E escreve o autor que do concelho da Asseiceira restam os paços, que já foram junta de freguesia, e também acolheram a escola primária, e que desde o dia 16 de maio de 2015, em comemoração de mais um aniversário da batalha, passaram a albergar o Centro Cultural.

   Registe-se, por último, o desenho da capa, apresenta a Batalha da Asseiceira que fez perdurar para sempre o nome da freguesia na História de Portugal. É uma linda edição, texto muito acessível e um desenho a preceito. Os parabéns para a Asseiceira e para quem lá nasceu ou lá vive, ali a História não falta.

Beja Santos

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Fábrica da Matrena, uma jóia da arqueologia industrial ao completo abandono
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