Viagem ao fim da noite com as mulheres da limpeza

Por: Mário Beja Santos

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90O texto da badana é mesmo aliciante, como a leitura desta reportagem irá com comprovar: “Viajam quando a cidade dorme. Entram cedo e saem tarde. Estão em todo o lado, porque é raro o edifício, público ou privado, que as dispense. São discriminadas, porque são, muitas delas, imigrantes. O que fazem não produz nada de material, de palpável, de preferência nem um grão de pó. Aqueles para quem o fazem mal sabem ou reconhecem que elas existem.” E assim entramos no contacto com as mulheres da limpeza, há mesmo um homem, são as tais pessoas socialmente invisíveis: As Invisíveis, Histórias sobre o trabalho de limpeza, por Rita Pereira Carvalho, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022.

A reportagem é sobre mulheres que limpam, sobre as dificuldades que passam para gerir um magro orçamento, aspirando a uma vida familiar com sonhos para os filhos, sobretudo que eles não se levantem de madrugada, digerindo preconceitos, utentes crónicas de transportes públicos. “Não se encontrará, provavelmente, um motorista da Carris ou da Vimeca, em Lisboa, que nunca tenha levado uma empregada de limpeza ao seu trabalho ou tenha feito com ela o caminho de regresso a casa.” A maioria vem dos subúrbios da cidade de Lisboa, os dormitórios: Odivelas, Pontinha, Amadora, Buraca ou Margem Sul.

Observa a autora que os esforço de quem limpa aquilo que os outros sujam vale o ordenado mínimo, ou pouco mais do que isso. Isto em Lisboa, mas disseminam-se por todo o país. No fundamental é trabalho feminino, é trabalho que tem diferentes categorias, o destaque vai para quem faz as limpezas de casa ou toma conta dos filhos dos patrões, segue-se esse farto contingente das empregadas da limpeza industrial, estas computam-se em cerca de 40 mil, não superfície que lhes escape: centros comerciais, escritórios, hospitais, bancos, lojas, aeroportos. Esta chamada invisibilidade não impede o assédio moral e a violência verbal.

Elissangela é a primeira a entrar em cena, acorda pouco depois das 4 horas e deita-se aí pelas 22h30 – 23 horas. Apanha o comboio desde o Cacém até Sete Rios e depois o autocarro até ao Marquês do Pombal. Veio de Cabo Verde com 12 anos, nunca teve medo de trabalhar nem de acordar quando os outros dormem. Sente que existe algum desdém de outros, “Acham que quem faz limpeza não vale nada e não dão valor nenhum”.

Uma jovem aluna de mestrado em Estudos sobre as Mulheres, Sanie dos Santos Reis decidiu analisar a invisibilidade da mulher negra em Portugal. “E fez um exercício que permitiu transformar a observação em números. Entre janeiro e março de 2019, fez 64 viagens no autocarro 793, entre Marvila e a estação de Roma-Areeiro. Em 3 meses, viu 2369 mulheres naquele autocarro às 5h30 da manhã. Desse total, 2132 eram negras ou de nacionalidade estrangeira”. A mesma conclusão tirou das viagens que fez no comboio que liga Sintra a Lisboa. A autora desvela histórias bizarras, uma delas passada com Carol, uma brasileira que dormia no espaço quase camuflado de uma igreja evangélica, na Amadora, depois apareceu o SEF a fazer buscas nas instalações, os pastores da igreja foram constituídos arguidos. “Carol é uma das 86 158 mulheres que em 2019 trocaram o Brasil por Portugal. Dos cerca de 40 mil trabalhadores nas empresas industriais, mais de metade não são portugueses. A mão de obra estrangeira começa a aparecer quando os salários baixam para o mínimo possível”.

Fala-se das mães mulheres da limpeza e dos seus filhos, muitos deles acordam de madrugada, acompanham as mães ou vão para as amas. Mas também não se esconde a existência da solidão. “O trabalho de limpeza é já de si um trabalho solitário, mas torna-se ainda mais isolado quando, depois da hora de saída, não há ninguém para ir buscar à escola, ou não está sequer ninguém em casa para conversar, ou reclamar”. É o caso de Isaura, a quem só falta encontrar coragem para desistir deste trabalho e voltar à terra onde nasceu, Vieira do Minho. Isaura tem um horário bastante diferente das outras, pois sai de casa às 6h30 da tarde e chega às 10h e tal da manhã, começa nos escritórios da Carris, na Pontinha, e depois na Avenida da República.

A idade também conta, mas nas limpezas são mulheres dos 18 aos 80. “Durante uma das madrugadas de reportagem, sentaram-se, em momentos diferentes, exatamente no mesmo banco de uma paragem de autocarro na Pontinha, duas mulheres. Nada de novo a não ser os 58 que as separavam. Às 5h30 da manhã, Madalena Soeiro esperava o 724 para rumar a Alcântara. Faltava meia hora para entrar ao serviço nos escritórios da Administração do Porto de Lisboa. A seu lado está Ana Isabel, tem 25 anos, é são-tomense, tem uma enorme vontade de estudar, e faz prodígios para trabalhar e concluir um mestrado em Gestão e Empreendedorismo.

Rita Pereira Carvalho lembra-nos que nem a pandemia deixou as trabalhadoras da limpeza em casa, foram indispensáveis nos hospitais, mas ao que consta foram poucos os que lhes bateram palmas, isto num período em que foram absorvendo-se os cuidados para travar a expansão do vírus, desde os sacos do lixo aos detergentes. Prossegue o desfile destas trabalhadoras, lembra-se o drama das empregadas de limpeza sem contrato, as lutas sindicais (que também passaram por proteger a dignidade destas trabalhadoras nos hospitais), a reportagem não esquece quem trabalha no interior e em pequenas povoações.

E assim chegamos a Ismário que trabalha em duas empresas, uma no Marquês de Pombal e outra na Avenida 24 de Julho, limpa vidros, gosta do trabalho que faz, já não é criança e sente-se bem quando regressa ao aconchego familiar. Comenta para a autora: “Nas limpezas há sempre alguém que suja de dia e alguém que tem de limpar à noite”. Uma aliciante história de quem viaja ao fim da noite, passa por invisível nas limpezas industriais e se habituou a limpar o que os outros sujam sem se preocupar muito com agradecimentos. Um belo trabalho, em nome da dignidade destes invisíveis.

Mário Beja Santos

 

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