Zurzir nas trafulhices das crendices: Uma viagem no mundo do imaginário religioso dos portugueses

Por: Mário Beja Santos

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capa do livroA obra chama-se Histórias Heréticas, é seu autor o escritor António Loja, um madeirense que comandou a Companhia de Caçadores nº 1622, colocada num dos locais com maior risco, no Sul da Guiné, 1966-1968, deu matéria para que este capitão miliciano tivesse escrito uma poderosíssima obra de literatura memorial, de referência, As Ausências de Deus (Âncora Editora, 2013, ainda disponível). Volta agora a publicar na Âncora Editora, em 2020, uma reflexão sobre a exploração das crendices, apresenta-se como agnóstico e avisa claramente que não vem com sanha antirreligiosa, limita-se a medir a temperatura da religiosidade dos seus compatriotas, lembra alguns santos que afinal não existiram e outros que aparecem associados a guerras santas, é o caso de S. Tiago na guerra aos mouros, de S. Jorge que foi excluído do calendário litúrgico, afinal ele ter vencido o dragão não passou de uma balela e, por muito incómodo que seja, não há provas do milagre de Ourique, foi de facto uma aldrabice forjada pelos frades de Alcobaça.

Muito há a suspeitar dos milagres de Santo António, lembra um episódio descrito pelo conde da Ericeira no seu Portugal Restaurado, referente aos acontecimentos do 1º de Dezembro de 1640, havia gritaria do povo defronte da igreja de Santo António, dizia-se que uma imagem de prata de Cristo crucificado que levava um capelão, despregara o braço direito.

“Gritou o povo, prostrado por terra, que era milagre, e todos cobraram invencível confiança de que Deus aprovava a gloriosa deliberação dos confederados.” Tudo isto só podia ter acontecido na igreja de Santo António…. E o milagre das rosas, as atrocidades da Inquisição, as falsas miraculadas, a que, felizmente, a Igreja Católica consegue pôr termo; e os milagres daquelas imagens que parecem chorar, depois faz-se exame pericial e quem sabe da poda, um santeiro, esclarecia cabalmente o fenómeno:

“Quando levamos a imagem de barro ao forno não podemos colocar-lhe os olhos antes da cozedura. O forno é muito quente e os olhos de vidro derretem naquela temperatura. O que fazemos é, depois da cozedura, abrir um furo por detrás da cabeça até ao lugar dos olhos, depois colocamos estes, sempre por detrás e preenchemos o espaço vazio com cera.

A pintura disfarça as cicatrizes, mas quando há muito calor junto da imagem, uma lâmpada mais forte em dia quente, por exemplo, ou um candelabro com várias velas mais próximo, a cera pode começar a derreter e sair pelos olhos. Isso até tem acontecido na oficina.” Assim se pôs ponto final sobre um milagre que não aconteceu.

E há os milagres de Santa Filomena, outra santa que não existiu, mas que aliviou dois jovens residentes na Câmara de Lobos a tirar umas notas de um saco que estava por trás da imagem de Santa Filomena e que pretendiam comprar duas bicicletas.

António Loja faz uma grande angular sobre iconoclastas, troça de um tolo fanático, Sousa Lara, que queria que se fizessem umas cruzes altíssimas, a Igreja impediu esta iniciativa megalómana, na viragem do século. E há o negócio das medalhas milagrosas, os falsos videntes, e aí conta-nos a história da vidente Alexandra, a Alexandra Solnado, são crendices à vista desarmada, mas que têm clientela segura. Era indispensável uma referência a mercantilismos de padres de paróquia, e o autor traz aqui a história do padre do Livramento, na Madeira, que pedia pela prestação de um serviço a quantia de 8 euros por cada membro da família, a prestação tinha a ver com a visita do Espírito Santo, ou seja, na Páscoa aparecia o padre acompanhado de gente com opas vermelhas e empunhando pendões, fazia parte do uso e costume oferecer-lhes vinho da Madeira, bolos e broas, pela visita, segundo a circular distribuída pelo correio havia a tabela de 8 euros por cabeça. Não sabemos como acabou a história, seguramente que não teve um final prestigiante.

Sendo madeirense, também vem zurzir sobre o turismo religioso na região, será o caso da beatificação do imperador da Áustria, ali falecido em 1922, Carlos, o herdeiro de Francisco José, refugiou-se na Madeira. “Dizem os seus cronistas que viveu santamente, ajudando os pobres da terra e praticando as obras de misericórdia, assim garantindo a beatificação. O Bispo D.Teodoro de Faria declarou ao Diário de Notícias do Funchal que a beatificação do imperador Carlos de Áustria tem levado ao Monte um maior número de turistas, sublinhou que as igrejas e os túmulos dos santos são locais de evangelização e o turismo religioso é um dos mais impressionantes em números.” Para quê comentários?

E conta-nos também uma história saborosa de um imigrante bem-sucedido que regressou da Venezuela e que oportunamente um padre o nomeou mordomo, o sr. Freitas aceitou, e na missa solene de domingo, com um grupo coral contratado para o efeito e dois rabequistas se esmeraram junto ao altar-mor, o sr. padre pediu uma oração pela saúde deste estimado paroquiano e pela prosperidade dos seus negócios. Alguém bichanou ao ouvido de alguém para saber a que negócio se dedicava o sr. Freitas, e foi rapidamente elucidado que o sr. Freitas era proprietário de um bordel.

Não deixa de zurzir na promiscuidade entre a religião e a política e vem à baila o padre da paróquia do Estreito de Câmara de Lobos, estávamos em 1994. Em pleno púlpito, repentinamente, como se uma ideia brotasse do seu cérebro iluminado por uma língua de fogo, o vigário deixou sair dos seus lábios a frase-chave do inflamado sermão: “Se Deus pudesse votar, votaria no PPD.”

Estamos chegados às conclusões, o autor sublinha que a fragilidade cultural de uma sociedade é a sua permeabilidade ao dolo e ao engano, e a sociedade portuguesa ainda se mantém, em parte, recetiva a trapaceiros e sugestionada pelo bombástico (religioso ou não). E desanca naquela que o autor considera a grande instituição da trapaça, a Igreja Universal do Reino de Deus, pega num folheto que lhe deixaram na caixa de correio, com títulos sugestivos:

“Sinta prazer na vida familiar”, “Que esperança há para entes queridos falecidos?”, aqui o folheto garante: felizmente está próximo o dia em que Satanás e o seu bando deixarão de existir! O mundo (inclusive seus governantes demoníacos) está passando, assegura a Bíblia, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre; e há também o título “Pode este mundo sobreviver?”, versa uma infinidade de tragédias, de castigos com terramotos, inundações e pestilências. E o autor lembra as sessões litúrgicas da Universal onde se fazem exorcismos, afinal a Idade Média ainda está ao pé da nossa porta. “Abençoada Igreja, à qual tantos tolos entregam fielmente a dízima, tal como os católicos faziam há mil anos. Funciona melhor que o negócio da Dona Branca. E, aparentemente, nada paga o fisco.”

Mário Beja Santos

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