A Central Termoelétrica do Pego vai começar a ser desmantelada este ano, 2026, pondo fim a uma presença que marcou a paisagem e a história económica da região durante mais de 40 anos. O processo inclui a demolição da chaminé, das torres de refrigeração e a descontaminação dos solos, num investimento estimado em cerca de 40 milhões de euros.

O espaço ficará disponível para novos projetos industriais e energéticos, integrando a estratégia de transição justa liderada pela Endesa, que prevê investimentos de cerca de 700 milhões de euros em energia solar, eólica, armazenamento em baterias e, numa fase posterior, hidrogénio verde, com impacto direto nos concelhos de Abrantes, Chamusca e Gavião.
O presidente da Câmara de Abrantes garante que o licenciamento está na fase final e sublinha que o futuro do Pego passa agora pela inovação, pela reconversão profissional e pela atração de novos investimentos, mantendo infraestruturas-chave como o ramal ferroviário e o ponto de injeção na rede elétrica.
Memórias de uma central, que foi grande no passado!
Foram anos e anos a olhar aquelas duas gigantes chaminés, que marcaram a paisagem e toda uma região. Lembro-me do início da central, projetos que à partida ninguém queria por perto, devido aos avisos sobre os efeitos nefastos para a qualidade do ambiente. Após muitas negociações, acabou por ser construída no concelho de Abrantes e passamos a conviver com a central do Pego, como era conhecida.
A sua construção mexeu com o concelho de Abrantes, um concelho do interior, meio perdido entre as extremas de duas regiões, do Ribatejo e Alto Alentejo, acalantou os sonhos de muitos autarcas nabantinos que viram as contrapartidas da sua instalação beneficiar os cofres da autarquia em nome do desenvolvimento local à custa, quem sabe, dos ares mais poluídos sobre as populações.
No âmbito do jornalismo, foram tantas as reportagens que deram à estampa a história da central. Durante os seus 40 anos de vida acolheu inúmeras visitas de ministros e secretários de estado, sempre com grande pompa e circunstância, já que a mesma era motivo de orgulho para um país que queria ser autónomo na produção de energia. Não sei se alguma vez o foi, autónomo? Julgo que não, pelo menos nos períodos de maior consumo. Mas isso agora pouco importa.
Aprendi a ver a central do Pego como um mal menor, antes pelo contrário, um exemplo de que o país também é capaz de ter as suas centrais. Inicialmente, nas suas imediações, construíram um alojamento, para acolher os quadros que acompanhavam a sua gigantesca construção, mais tarde virou a hotel, tendo acabado por fechar portas apesar de várias tentativas de negócio. Quem sabe se não era já o prenúncio do fim da central.
À medida que a tecnologia avançava, e que permitia a redução das emissões de dióxido de carbono na atmosfera, a central acompanhava a modernização. Lá íamos todos, a imprensa, ver as novas tecnologias agora aplicadas ao gigante do Pego. Na maior parte das vezes de capacete na cabeça, observávamos as transformações, as melhorias, e um conjunto de técnicos confiantes num futuro quase perfeito.
Mesmo assim um vizinho não parava de se queixar que as suas frutas e legumes da horta deixaram de ser o que eram, desde que a central do Pego foi construída. Dizia com convicção que era consequências dos fumos das chaminés que emanavam ininterruptamente. Não sei, se as colheitas agrícolas nas proximidades perderam qualidade. Apesar do meu vizinho viver noutro concelho, a sua convicção era grande. Afirmava que os fumos eram empurrados pelo vento e dissipavam-se em toda a região provocando fraca colheita agrícola.
Dizem, que tudo tem um princípio e um fim. E as centrais também, e se há meio século as centrais a carvão proliferaram, hoje estão absoletas e foram preteridas por outras que não comprometem tanto o ambiente. É o que dizem!
Portugal apressou-se a declarar «morte» à central do Pego em nome da futura energia verde. Contudo, há quem diga que fechamos esta no Pego, mas vamos comprar a Espanha energia que é produzida numa central a carvão como era esta.
Agora, o processo é irreversível, a central vai ser mesmo desmantelada, há promessas de novos investimentos para compensar os trabalhadores que perderam ali o seu posto de trabalho. Que assim seja!
Contudo, confesso que vou ter saudades das suas gigantes chaminés, onde o pôr do sol tornava o cinzento do fumo esbranquiçado num rio dourado a reflectir no Tejo. Nunca mais vão haver visitas, ministros, capacetes, e técnicos a olhar os céus em busca de minúsculos fios de fumo perdidos, mas livres a cruzarem os céus!
Isabel Miliciano






