Chegou hoje às redações a notícia que a NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém, em conjunto com as comunidades intermunicipais do Médio Tejo, da Lezíria do Tejo e do Oeste, e presidentes de câmara, vão participar de 9 a 13 de março, em Cannes, França, na MIPIM 2026, numa das feiras internacionais mais relevantes do setor imobiliário.
Refere ainda a nota de imprensa que a participação destas entidades regionais, neste evento internacional, traduz um esforço articulado de promoção destas três regiões, que têm vindo a trabalhar de forma cada vez mais integrada na valorização e projeção do seu potencial económico e de investimento junto de mercados internacionais.
Avança ainda que, a presença conjunta das três regiões é o primeiro exemplo prático do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido de forma coordenada entre os territórios do Médio Tejo, da Lezíria do Tejo e do Oeste, no âmbito da nova lógica de cooperação territorial da nova região Oeste e Vale do Tejo (OVT).
Acrescenta também que a presença na MIPIM, tem por objetivo posicionar-se de forma integrada como uma região atrativa para o investimento imobiliário, industrial, logístico e turístico, evidenciando as suas vantagens competitivas, nomeadamente a localização estratégica, a qualidade de vida, a disponibilidade de solo para investimento e o dinamismo do tecido empresarial.
Ao longo do certame, a comitiva portuguesa terá oportunidade de estabelecer contactos com investidores, promotores e outros agentes internacionais do setor, apresentando oportunidades concretas de investimento existentes nos diferentes territórios e reforçando a visibilidade desta ampla região junto dos principais decisores do mercado imobiliário internacional.
Todos os argumentos que justificam a presença destas entidades da nossa região, na referida feira internacional de imobiliário, são aceitáveis.
Mas questiono:
Uma Feira Internacional de Imobiliário que tem por objetivo alavancar negócios neste setor, vai certamente muito além do imobiliário para habitação, pode estender-se a espaços físicos e logísticos para o comércio indústria e turismo. E sem dúvida que temos na região muitos exemplos de antigas fábricas devolutas, casas senhoriais em estado quase total de abandono e por aí adiante.
Quanto ao imobiliário para a habitação, e à semelhança do que se regista em todo o país, também a região vive um dos maiores dramas neste setor, a falta de habitação disponível para arrendamento e/ou venda. A procura há muito que é superior à oferta, tendo vindo a provocar ao longo dos últimos anos uma inflação escandalosa, que restringe o acesso, da mesma, às classes com rendimentos mais baixos.
Por outro lado, o que temos vindo a registar é cada vez mais a procura de imóveis para habitação por parte de estrangeiros com poder de compra, nomeadamente nos grandes centros urbanos. E há ainda uma franja de estrangeiros que procura em locais idílicos do interior um lugar para viver (esta última situação é outra face da moeda que nalguns casos têm contrariado a desertificação de algum interior mais esquecido).
Contudo, o que pretendo questionar é se a participação nesta feira internacional não acaba por atrair mais estrangeiros, inflacionando o mercado habitacional, sem que esteja garantida e protegida uma quota de mercado para as famílias portuguesas?
Nas feiras, que a NERSANT, as Comunidades Urbanas Intermunicipais e as autarquias da região têm participado, quais foram os negócios que resultaram dessa participação?
Quem foram, ou são, os investidores que se instalaram nestes territórios no âmbito dos contactos estabelecidos nestes encontros internacionais, na sequência deste trabalho de divulgação? Há estatísticas? Relatórios?
Sem sabermos, e sem termos dados sobre as anteriores participações destas entidades, nestes certames internacionais, o cidadão comum pode ser levado a pensar que esta ida à Feira Internacional de Imobiliário não é mais que um passeio, à custa dos nossos impostos.
Temos o direito, e o dever de perguntar! Aguardemos, então os resultados!
Isabel Miliciano






