Quarta-feira, 25 Fevereiro 2026
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Quando o Teatro Se Caminha

Uma história antiga, uma inquietação contemporânea:
“Paixão” sobe ao palco de Tomar, pelo Fatias de Cá

No próximo dia 29 de março, durante a tarde e em 10 cenas, o grupo Fatias de Cá volta a ocupar espaços emblemáticos da cidade de Tomar com um espetáculo.
“Paixão” não é apenas uma recriação de um episódio conhecido. É um regresso ao instante em que tudo parecia terminado, e alguém decidiu continuar.
No dia 29 de março, em Tomar, não se entra numa sala para assistir a um espetáculo. Caminha-se.
Em dez cenas distribuídas por diferentes espaços da cidade, o grupo Fatias de Cá convida o público a viver Paixão não apenas como narrativa, mas como experiência física. O teatro deixa de ser frontal. Torna-se percurso.

O espectador desloca-se. Aproxima-se. Sente o chão irregular, o eco das paredes antigas, a mudança de luz entre um espaço e outro. A história não acontece à distância, acontece à volta.
Esta opção não é casual. O Fatias de Cá tem feito do património arquitetónico e paisagístico parte integrante da sua linguagem teatral. A cidade não é cenário ilustrativo; é estrutura dramática. E isso muda tudo.
Quando caminhamos, o corpo participa. Não há o conforto passivo da cadeira.
Há presença. Há respiração partilhada. Há atenção redobrada.

Paixão revisita um episódio que marcou profundamente a cultura ocidental. Mas mais do que recontar uma história, o espetáculo expõe um mecanismo  profundamente humano: o modo como uma narrativa se constrói coletivamente quando é atravessada em comum.
Expõe como o sentido não nasce apenas das palavras, mas da experiência partilhada.
Como o colapso de uma história pode transformar-se em continuidade quando alguém decide não sair de cena.

Entre um largo e uma igreja, entre um jardim e uma praça, o público não observa apenas a fragmentação e a reconstrução, percorre-as. A cidade transforma-se num mapa dramático onde cada espaço acrescenta atmosfera e significado.
Num tempo em que o consumo cultural tende à velocidade e ao ecrã, esta proposta recupera algo essencial: o encontro físico. A partilha do mesmo espaço. O silêncio coletivo antes de uma fala decisiva.
O teatro volta a ser rito.

No final, talvez não seja apenas a história encenada que permaneça. Talvez seja a consciência de que o sentido se constrói caminhando – juntos.
No dia 29 de março, em Tomar, o teatro não se vê apenas.
Percorre-se.

Alexandra Carvalho

 

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