No dia 17 de dezembro de 1906, nascia em Tomar uma das figuras mais marcantes da música portuguesa do século XX: Fernando Lopes-Graça. Músico, compositor, pianista, maestro, musicólogo e intelectual comprometido com a cultura e com a liberdade, Lopes-Graça deixou um legado artístico e cívico que continua a inspirar gerações.
Infância e formação: os primeiros passos em Tomar
Nascido no coração da cidade do Nabão, Fernando Lopes-Graça começou cedo a mostrar o seu talento musical. Já com apenas 14 anos, trabalhava como pianista no Cine-Teatro de Tomar, executando arranjos próprios e tocando obras de compositores como Debussy e autores russos contemporâneos — um sinal precoce da sua sensibilidade e versatilidade musical.

Em 1923 ingressou no Conservatório Nacional de Lisboa, onde estudou piano com mestres como José Viana da Mota, composição com Tomás Borba e ciências musicais com Luís de Freitas Branco. Mais tarde, complementaria a sua formação em Paris, aprofundando os seus conhecimentos em musicologia e composição.
Uma vida entre música e resistência
A obra de Lopes-Graça está profundamente enraizada nas tradições musicais portuguesas. Ao longo da sua carreira, explorou e harmonizou elementos do folclore nacional, fundindo-os com uma linguagem contemporânea e inovadora. Uma das suas primeiras obras importantes, “Variações sobre um tema popular português”, data de 1929 e testemunha essa ligação entre tradição e modernidade.
Além da sua atividade como compositor e intérprete, Lopes-Graça destacou-se como crítico musical, escritor e editor de colaborações em revistas culturais, como “Presença” e “Seara Nova”, espaços em que defendeu sempre uma música livre e aberta às correntes culturais contemporâneas.
Opositor ao Estado Novo
Afirmado como um artista independente e crítico, Fernando Lopes-Graça foi um fervoroso opositor do regime do Estado Novo em Portugal. A sua adesão ao Partido Comunista e o seu envolvimento em movimentos de resistência cultural valeram-lhe prisões, repressão e a proibição temporária de ensino e apresentação pública de obras nos anos 1940 e 1950. Mesmo assim, manteve a sua atividade criativa e intelectual, organizando concertos, escrevendo e lecionando sempre que possível.
Legado artístico e cultural
A sua obra diversificada abrange desde compositores para piano e orquestra, até harmonizações de canções populares e grandes obras corais. Muitos dos seus trabalhos fundem o rigor técnico com um profundo sentido de identidade cultural portuguesa.
Após a Revolução de 1974, a obra de Lopes-Graça recebeu o reconhecimento que lhe era devido. Foi condecorado pelo Estado português e a sua música voltou a ser amplamente interpretada.
Fernando Lopes-Graça faleceu a 27 de novembro de 1994, em Parede (Cascais), deixando um vasto espólio que continua a ser estudado e celebrado em Portugal e no estrangeiro.
Tomar orgulha-se de um filho universal
Mais de um século depois do seu nascimento, a cidade de Tomar continua a orgulhar-se de ter sido o berço deste compositor cuja música e pensamento atravessam fronteiras. Em museus, estudos musicológicos e concertos, Lopes-Graça vive através das suas partituras, das suas reflexões sobre a música portuguesa e da sua inquebrantável dedicação à arte e à liberdade.
Em Tomar, pode ser visitada a Casa Museu Fernando Lopes-Graça, onde o compositor e músico nasceu há 119 anos.






