Sexta-feira, 13 Fevereiro 2026
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A defesa começa na aldeia

O dia 28 de janeiro de 2026 vai ficar na memória de muitas pessoas como um dos dias mais assustadores das suas vidas. É possível que na memória fiquem também os dias seguintes, de crescente dificuldade e angústia, em particular para todos os que passaram pela depressão Kristin nas aldeias de todo o país. Escrevo a dia 13 de fevereiro, e neste momento ainda há famílias sem luz, e sem comunicações. A água chegou também a faltar em vários sítios. Mais de duas semanas depois da passagem da Kristin, as preocupações continuam a multiplicar-se, entre estragos, cheias, derrocadas e desabamentos de terras e estruturas. A inquietação é palpável, os recursos limitados, e a resposta difícil e demorada. Um pouco por todo o país, a palavra continua a ganhar forma: calamidade.

Face a uma catástrofe à escala da depressão Kristin, com o seu rasto de destruição conhecido, a resposta centralizada foi manifestamente insuficiente. É dolorosamente evidente que as estruturas centrais não tinham e não têm ao seu dispor os recursos necessários para reagir a uma catástrofe desta dimensão. Mas, imaginando possível que cada autarquia tivesse esses recursos à sua disposição, parados à espera de uma catástrofe, a estrutura central seria demasiado pesada para ser ágil: também a organização de tantos recursos introduz demora nas respostas. Calamidade é aquilo a que estamos condenados enquanto a proteção civil continuar a ser feita de cima para baixo, centralizando, quando devia ser feita de baixo para cima, sustentando nas comunidades o seu propósito.

Em situações de calamidade desta dimensão não há estrutura de Estado que substitua a resposta da comunidade. É evidente que imediatamente após um evento destrutivo são as pessoas que acionam a primeira resposta, iniciando os esforços de limpeza e socorro. Muitas estradas de acesso a aldeias, por exemplo, foram desimpedidas por moradores e vizinhos que, partilhando as ferramentas e máquinas que tinham disponíveis, abriram caminho até populações isoladas. Foram as pessoas que deram a resposta imediata que puderam para tentar restabelecer a segurança das suas comunidades, como faz sentido que aconteça: são elas que estão no terreno, e que conhecem os locais. No entanto, sem preparação, recursos ou capacitação para esta resposta, ela torna-se limitada e menos eficaz. Sem geradores, sem máquinas de pequeno porte, sem água, sem lanternas, sem pilhas, sem rádios, sem mantimentos não perecíveis suficientes, sem informação, as comunidades ficam desprotegidas, abandonadas à sua sorte.

É por isto que a proteção civil tem de incluir as pessoas e as comunidades como agentes ativos, capacitados e integrantes dos planos de emergência. As pessoas têm de ter formação e recursos para se valer a si e às suas comunidades no imediato, enquanto a estrutura central se orienta para lhes chegar. Mais, as juntas de freguesia e associações locais têm de ser pontos estratégicos de resposta, e têm de ser capacitados nesse sentido. É (também) aqui que é preciso investimento.

O que é que isto quer dizer, na prática? Quer dizer dar acesso a redes de comunicação de emergência às juntas de freguesia. Garantir que juntas de freguesia e associações que prestem apoio social tenham geradores de emergência, para si próprias e para disponibilizar à comunidade. Assegurar que há depósitos de água para suprir necessidades imediatas, se ela faltar na rede. Quer dizer nutrir comunidades coesas, que sabem identificar as pessoas vulneráveis a quem é preciso socorro mais urgente, e assegurar espaços para onde essas pessoas possam ser transportadas e devidamente cuidadas, se em suas casas deixar de haver condições para isso, ainda que temporariamente. Significa também alargar gradualmente a formação em suporte básico de vida a toda a população, e garantir kits de emergência a todas as famílias do país, como o LIVRE propôs recentemente no Parlamento. Quer dizer, no fundo, capacitar as pessoas para saber lidar com situações de emergência de forma segura, e assertiva.

É importante frisar que esta abordagem é válida em qualquer situação de emergência, incluindo ataques militares. No 40º Congresso dos Verdes Europeus, que decorreu em Lisboa em dezembro, Liene Gātere, Secretária Parlamentar do Ministério da Defesa da Letónia, apontou a preparação das comunidades como um aspecto crucial nos planos de proteção civil face ao cenário de guerra iminente; lembremos que a Letónia faz fronteira com a Rússia. Em situações de emergência, é essencial que as comunidades saibam como agir, que saibam qual o seu papel no caminho da reposição da normalidade, e que tenham os recursos para o desempenhar. Uma estrutura de proteção civil robusta tem de criar condições para que, numa emergência de qualquer natureza, as pessoas consigam organizar-se, responder rapidamente, e valer-se a si mesmas e às suas comunidades enquanto esperam pela resposta central mais alargada, inevitavelmente mais demorada. E portanto, sim, investir em ‘defesa’ tem necessariamente de passar por investir nas aldeias, e na preparação e capacitação das suas comunidades.

Não podemos evitar catástrofes, e sabemos que eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e mais violentos devido às alterações climáticas – sabemo-lo, e dizemo-lo há mesmo muito tempo. Mas podemos evitar o caos, ou o caos maior, face a qualquer catástrofe. Cabe-nos estar preparados, e capacitar a primeira linha da prevenção, da preparação e da proteção: as comunidades. A defesa começa na aldeia.

Natércia Rodrigues Lopes

 

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