A Última Moleira
Tia Aida, da Linhaceira, foi a última a ouvir o canto da mó, a última a sentir o cheiro do grão moído, a última a dar vida à farinha que alimentava o povo.
Tia Aida, da Linhaceira, foi a última moleira da nossa freguesia e, talvez, de todo o concelho. Casou cedo, com apenas 19 anos, em 1951, com António Santos, conhecido por “Varunca”. No moinho que levava o mesmo nome, ajudou o marido num ofício que, até então, era quase exclusivo dos homens. António aprendera o trabalho com o pai, Manuel Vélez Santos, vindo da Barquinha e com raízes no Crato. Nesse mesmo moinho trabalhou também o meu avô materno, José Joaquim, o “Manso”.
Ficando viúva muito cedo, Tia Aida manteve viva a arte que aprendera dos seus antepassados. Durante 45 anos, continuou o ofício com a mesma dedicação, força e saber. Até ao seu falecimento, em 2019, foi exemplo de resistência, humildade e amor pelo trabalho.
Além de moleira, foi agricultora e avicultora — uma mulher de mil tarefas e de uma coragem silenciosa. A sua vida foi um testemunho do valor do trabalho e da tradição, daquelas que não se apagam com o tempo.
Quem não conheceu a Tia Aida, a moleira? Deixa saudades fundas e lembranças que cheiram a farinha e a pão quente. Com ela aprendi histórias, ouvi o eco do moinho e descobri o caminho do grão até à mesa.
É justo e merecido prestar-lhe homenagem — talvez um dia erguer um pequeno museu, um espaço de memória e estudo, para que as gerações futuras saibam quem foi e o que representou.

Porque há pessoas que merecem ser lembradas, e a Tia Aida é, sem dúvida, uma delas.
Quem não conheceu a Tia Aida?
A moleira que sorria com o pó da farinha no rosto, que contava histórias ao som da água, e que me ensinou a ver o milagre simples do pão de cada dia.
Jorge Franco

Nota da redação: Jorge Franco, natural de Linhaceira, Frguesia de Asseiceira, tem vindo a dar a conhecer figuras e ofícios desta antiga localidade do concelho de Tomar. Pela importância e pelo interesse histórico destes apontamentos, também aqui ficam registados
n’ otemplario.pt com o devido consentimento de Jorge Franco. O autor do texto também já provou ser um exímio aguarelista, sendo as aguarelas aqui reproduzidas, da sua autoria.






