Sarah Affonso foi muito mais do que a mulher de Almada

Por: Beja Santos

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As artistas do modernismo português foram sempre subalternizadas, nenhuma teve acesso à grande notoriedade. Chamaram-se Sarah Affonso, Maria Adelaide de Lima Cruz, Ofélia Marques, Milly Possoz, Estrela Faria, mas podíamos facilmente adicionar outros nomes. Não que não fossem estimadas, mas davam-lhes obras menores, colaboravam em exposições, com discrição, faziam trabalhos gráficos em livros e revistas, decorações de interiores e atividades afins. Só quando chegámos ao limiar da sociedade de consumo é que os nomes femininos adquiriram peso sonante, não falando já de Maria Helena Vieira da Silva, houve e há Lurdes Castro, Paula Rego, Menez, esta falecida, os tempos tinham mudado. E com a categorização da artista, aos poucos homenageia-se essas grandes figuras do modernismo. Duas grandes exposições em Lisboa revelaram facetas desconhecidas do grande público dessa polifacetada artista que foi Sarah Affonso, mulher de Almada Negreiros.

Na Gulbenkian houve uma exposição dedicada ao olhar da artista sobre o Minho, onde viveu na infância, terra de ancestrais, do óleo, passando pelo desenho, foi possível apreciar a paixão da artista pelos temas minhotos.

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Até 22 de março, está patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado uma segunda mostra também lhe dedicada, intitulada “Sarah Affonso. Os dias das pequenas coisas”. Trata-se de um grande acontecimento museológico e que revela talento museográfico, aproveitamento impecável de um espaço anteriormente ocupado pelo Governo Civil de Lisboa, num longo corredor onde outrora houve gabinetes e se emitiam passaportes, é-nos dado o percurso artístico desta aluna de Columbano Bordalo Pinheiro, esteve em Paris onde estou desenho, assistiu aos bailados russos de Diaghilev e desenvolveu uma paixão por Cézanne e Matisse, que a marcou por toda a vida.

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Sarah Affonso, Auto-retrato.

Paris introduziu-lhe uma viragem estética, na cor, na linha mais depurada, na racionalização dos planos, numa outra utilização da superfície. O ser humano é uma constante deste período, veja-se a serenidade na postura de José Tagarro, um amigo fiel e que cedo desapareceu. E veja-se mais adiante as crianças, retratos ingénuos, cândidos, linhas deliberadamente sublinhadas, os tons de pele de um róseo que parece apelar ao expressionismo alemão.

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José Tagarro, amigo de Sarah Affonso.

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As curadoras da exposição interrogam-se com a pintura de um missionário, Maria de Aires Silveira sugere tratar-se de um retrato do Padre António Vieira. Emília Ferreira adianta outra hipótese: “Da primeira vez que a Sarah foi a Paris, terá ido à atenção de um amigo do pai, que era missionário. Mas tudo são hipóteses”.

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A constituição de família levou à reconversão do seu percurso. Nascida em 1899, casa em 1934 com José Almada Negreiros. O primeiro filho nasce no ano seguinte. A pintura subalterniza-se, ela está assumidamente na sombra, o marido é uma figura pública mas o dinheiro é escasso.

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Altamente criativa, explora as linguagens de artífice, recorre a outros suportes, desenho, bordado, cerâmica, ilustração infantil. Será Sarah Affonso quem irá ilustrar “Mariazinha em África”, de Fernanda de Castro, que conheceu reedições sucessivas. Criou os desenhos da primeira edição de “A Menina do Mar”, de Sophia de Mello Breyner. Explora com grande sucesso a boa relação com a natureza que sempre manteve, não faltarão algas, motivos marítimos.

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A exposição do Chiado destaca a Quinta da Lameirinha, a casa em Bicesse, no Estoril, adquirida pelo casal em 1938, ela idealiza o jardim, enche-o de caráter.

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É tempo de redescobrir estas talentosas mulheres cujos nomes permaneceram na penumbra da história da arte portuguesa, nunca puderam aparecer ao mesmo nível de Amadeo, Eduardo Viana, Almada, Mário Eloy, entre outros. Parece inquestionável que Sarah Affonso explorou um sem número de dimensões estéticas, é seguramente a figura mais engenhosa do modernismo português. A Tinta-da-china, em colaboração com o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado preparou uma belíssima obra, exatamente com o título da exposição, “Os dias das pequenas coisas”, é patente que a belíssima pintura, o desenho recortado, amável, tranquilo, as vaquinhas infantis, os coretos, carrosséis e andores minhotos, a exploração dos tons ocres, as linhas corporais perfeitamente delineadas, a pintura dos seus frisos para o parque infantil de S. Pedro de Alcântara, a imensidade dos seus desenhos, os botões pintados, os desenhos de colchas, napperons, almofadas, a casa encantada da Lameirinha, e muito mais é um mundo que podemos agora reapreciar com outros olhos e perceber que Sarah Affonso foi muitíssimo mais que a mulher de Almada Negreiros.

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