Esse longevo génio literário que levou aos píncaros a literatura de espionagem

Por: Beja Santos

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Agente em campo, por John le Carré, Publicações D. Quixote, 2019, é o último romance desse quase nonagenário que nos últimos anos, sem quebra ou desfalecimento, só tem produzido obras-primas, caso de O Túnel de Pombos e Um Lugar de Espiões. E agora regressa com uma leitura do nosso tempo, cáustica e cruel, traça e retraça uma operação em marcha para pôr a Europa em fanicos, põe em cena figuras admiráveis de patriotas e traidores e agentes duplos, com uma coragem sem limites vai desnudando negócios criminosos que passam pela City de Londres e desvela aquilo que temos diante dos nossos olhos e que uma comunicação social controlada procura camuflar: a ascensão que um punhado de arrivistas e de um novo czar pôs em marcha um plano que pretende solapar o sonho europeu.
A figura central é Nat, um veterano dos Serviços Secretos Britânicos. Regressado a Londres, é nomeado chefe do Porto de Abrigo, um inoperante subposto da Geral de Londres, que prima por acolher um bando de espiões incompetentes. Uma agente com sangue na guelra propõe a operação Botão de Rosa para desarticular uma tenebrosa rede do crime. Pretende-se saber com quem opera Orson, que tem negócios com um duo de lavadores de dinheiro de ascendência eslovaca, baseados em Chipre e próximos de Moscovo, com um bando privado em Nicósia e uma sucursal na City de Londres. Pertencem a um sindicato do crime aprovado pelo Kremlin que opera a partir de Odessa. A estrutura do romance é simultaneamente tão ágil e tensa que não nos dá tréguas. Nat volta às rotinas do badmínton onde é procurado por um jovem, Ed, com quem estabelecerá grande cumplicidade; Nat aprecia a contestação de Ed, ele odeia o Brexit, odeia Trump e odeia o emprego que tem numa indecifrável agência de comunicação. Uma situação imprevista junta estes dois novos amigos com a responsável pela operação Botão de Rosa e a irmã muito doente de Ed. Em cima deste encontro, Nat é impelido para um encontro com um traidor russo, que ainda permanece como “adormecido” pelos Serviços Secretos Russos. Vem a caminho de Londres e para um encontro seguramente de grande importância um quadro altissimamente classificado da espionagem russa. Nat informa os seus serviços.
Estranhamente, desativa-se a operação que preparava uma cilada a Orson, homem de imensa riqueza, com uma offshore administrada em Guernsey e na City de Londres, com bens na Madeira, Miami, Zermatt e Mar Negro, muito assíduo na Embaixada Russa em Londres, e que contribuiu com um milhão de libras para um fundo independente a favor do Brexit. Florence, a dita agente que preparara Botão de Rosa, enfurece-se com o abandono da operação, desaparece. Nat desconfia de quem vem de Moscovo para um encontro com o novo agente e procura Arkady, outro traidor russo que vive em Karlovy Vary, John le Carré consegue fazer deste encontro um dos momentos mais extraordinários da já por si extraordinária carreira de uma obra literária que excede as fronteiras da chamada literatura da espionagem. Quem vem é Valentina, e se vem Valentina é porque se trata de recrutar um peixe graúdo. É nisto que se descobre que um dos chefes dos Serviços Secretos Britânicos é casado com a baronesa Rachel, administradora-delegada e cofundadora, com o irmão, de uma chique empresa de fortunas com escritórios de prestígio na City, empresa especializada em offshores. Jersey, Gibraltar e a Ilha de Nevis. “A especialidade da baronesa e do irmão é o Estado soberano da Ucrânia. Alguns dos seus maiores clientes são oligarcas ucranianos. Cento e setenta e seis das ditas empresas anónimas são donas de propriedades de luxo em Londres, principalmente em Knightsbridge e Kensington. Mas uma dessas propriedades de luxo é um duplex em Park Lane detidopor uma empresa que é detida por uma empresa que é detida por um fundo fiduciário que é detido pelo Orson”.
Começa a operação empolgante de usar a sofisticada eletrónica para registar o encontro entre Valentina e o traidor em processo. Tudo se precipita quando Nat vê a imagem do traidor, inicia-se uma descrição entre o macabro e o grotesco de interrogatórios a Nat. Este procura a verdade e encontra-se com uma importante espia alemã, pretende saber o que o traidor em processo quisera já oferecer às autoridades alemãs. E vem então a lume uma informação estarrecedora, a operação Jericó.
Com o génio e o timbre, le Carré faz guinar a trama para um processo de salvamento e pôr em fuga alguém que é genuinamente patriota. E mais não digo, o leitor que se deixe espicaçar pelo torvelinho de todo este enredo cheio de figuras fascinantes: Nat, Ed, Prue, a devotada mulher de Nat, amante de causas, Bryn Sykes-Jordan, um amigo de Peniche que é Diretor do Departamento da Rússia, Dominic Trench, chefe da Geral de Londres, uma verdadeira osga, a sincera e entusiasta Florence que cedo perde ilusões acerca do ninho de lacraus em que procurou trabalhar cheia de entusiasmo. Há diálogos de um vigor e palpitação inexcedíveis.
Assombra ver este quase nonagenário no topo das suas faculdades imaginativas, é um dos maiores escritores do nosso tempo. E bem andou o crítico do Guardian quando escreveu: “Nenhum outro escritor até hoje cartografou –
impiedosamente para os críticos, mas deliciosamente para os leitores – as histórias públicas e secreta dos tempos que viveu”. De leitura obrigatória.

Beja Santos

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