Ambientalistas contra a conversão da Central do Pego para a produção de biomassa

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Em carta aberta dirigida ao Governo e à Comissão Europeia, a que a Lusa teve acesso, a Quercus, em nome da plataforma de nove associações ambientalistas, como a Zero, a FAPAS e o GEOTA, entre outras, afirma que os impactes decorrentes da queima de biomassa para a produção de eletricidade são “devastadores em termos de conservação dos solos, da capacidade de armazenamento de água e da manutenção da biodiversidade”, rejeitando a proposta de projeto anunciada para a reconversão da central a carvão do Pego.

“Numa altura em que são cada vez mais evidentes os impactes da queima de biomassa sobre os ecossistemas, as populações e o clima, a Trustenergy”, principal acionista da Central Termoelétrica do Pego, com uma potência total de 628 megawatts, “anunciou a intenção de converter a unidade de queima de carvão para a queima de resíduos florestais, mas que, na prática, se traduzirá sem dúvida na queima de arvoredo”, pode ler-se no documento.

Central do Pego 2
Central do Pego

Nesse sentido, alertam que, “em condições médias de operação, a central irá gerar cerca de 508 GWh por ano, correspondente a uma necessidade de consumo anual de biomassa de 1,1 milhões de toneladas por ano”, valor que, na sua plena capacidade, “poderia aproximar-se dos cinco milhões de toneladas de madeira”, gerando uma “procura acrescida de matéria-prima que ultrapassaria em muito os recursos disponíveis”.

Por outro lado, “pese embora que se alegue apenas vir a queimar resíduos florestais na central do Pego”, os ambientalistas alertam para o facto que, de acordo com as regras atuais da União Europeia, este termo pode incluir qualquer tipo de madeira, sejam resíduos das indústrias da madeira ou arvoredo.

As organizações signatárias, que apelam ao Governo português e à Comissão Europeia para “não viabilizarem o financiamento público à queima de árvores para a produção de eletricidade”, notam que “um dos cenários mais prováveis para o fornecimento de biomassa ao Pego seria a rolaria de eucalipto”, situação que aumentaria a procura por madeira desta espécie, em concorrência direta com unidades muito próximas de produção de pasta e papel.

Tal facto, sublinham, “tenderia a criar condições para a instalação de novas áreas de monoculturas na bacia hidrográfica do rio Tejo, o que poderia agravar ainda mais os problemas associados aos grandes incêndios”, para além de exigir maior pressão sobre as importações de madeira de eucalipto por Portugal, a partir de Espanha, do Uruguai ou de Moçambique”.

Para os ambientalistas, “qualquer aumento na utilização industrial de arvoredo em Portugal contribuirá, no imediato, para um agravamento da perda de coberto arbóreo, com destaque para as espécies autóctones”, sendo que “a possibilidade de se vir a recorrer à sua queima na central do Pego agravaria ainda mais o nível de emissões de gases de efeito estufa”.

No documento, a plataforma ambientalista defende a alocação de “financiamento público no apoio à requalificação e criação de novos postos de trabalho na região, em particular os que possuem ligação à promoção de fontes de energia verdadeiramente renováveis, para compensar uma eventual perda de postos de trabalho” com o encerramento da unidade de carvão na central do Pego.

O fundamental é, concluem, “direcionar a subsidiação pública para apoio aos proprietários rurais, na conservação de habitats e no estímulo à adoção de sistema de produção verdadeiramente sustentáveis”.

Lusa

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