Por quem chamam as chamas?

Por: Mendo Henriques

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Eu resido perto da rua Morais Soares, em Lisboa e um dia dei-me ao trabalho de saber exatamente quem ele era… Este ilustre diretor-geral de agricultura, no século XIX chamado Rodrigo Morais Soares, do partido dos agrocratas, do que seria hoje o “partido da terra”, foi quem mais lutou a partir da Regeneração para transformar os “montes claros” ou calvos, que era grande parte do país, em matas frondosas,debatendo qual o tipo de arvoredo adequado às nossas condições de terra e clima.

Passaram 150 anos e pode-se dar muitas voltas à questão dos fogos mas todas vão dar ao mesmo sítio: por volta dos anos 80 mataram a visão de Morais Soares e criaram a visão errada do país como uma cidade litoral e um interior cada vez mais despovoado. Donde o despovoamento do interior, as periferias da Grande Lisboa e do Grande Porto e de Setúbal, a agroindústria, o eucaliptal, o excesso de autoestradas.

Nesse país despovoado, sobretudo nas serras e terras a norte do Tejo onde predomina o minifúndio, torna-se cada vez mais difícil combater incêndios provocados por incendiários pagos, incendiários loucos e incendiários casuais em percentagens que se desconhecem mas que deitam fogo ao material combustível. Não são apenas as matas que ardem. Arde o que as populações nelas construíram. Arde um pouco da alma de Portugal. Nas matas da Portucel, nada arde. Perguntem-lhes porquê.

O país continua a arder porque abandonámos as leis de fomento agrário que já vinham do século XIX optando pelos desenvolvimentistas que comandaram o processo de integração na CEE.

Ao desmantelarem a Reforma Agrária, Cardoso e Cunha e Álvaro Barreto, ministros de Cavaco, colocaram os agrários na caça aos subsídios da CEE e mandaram a população para as periferias de Lisboa, Porto e Setúbal, deixando em sua vez plantações de eucaliptos.

Nessa altura, Gonçalo Ribeiro Teles era um dos poucos ecologistas que pregava no deserto, enquanto os tecnocratas da agroindústria, os especialistas em engenharia financeira, os planeadores do betão e os criados das multinacionais fizeram do interior a terra de ninguém. Ou só de alguns, muito poucos e muito idosos, por vezes as vítimas mortais dos trágicos fogos.

Este é o fado desde os anos 80 dos governos da AD, do Bloco Central, da PÁF, do PS, da Geringonça. Ficaram a gerir os tachos das empresas públicas e o sistema de consultadoria da integração europeia, do desenvolvimento regional e do apoio às autarquias. Morreu um país rural que já não volta mas pouco se aprendeu com os bons exemplos e boas práticas, do Minho ao Algarve, da agricultura dos vinhos, do azeite, das frutas e das hortas de legumes em que somos talvez e apenas, dos melhores do mundo

Quando vamos entender que as chamas trágicas dos incêndios de Verão estão a apelar para que mudemos a nossa atitude para com a nossa terra …. em vez de julgarmos que é o Governo a lançar dinheiro às pazadas para não sei quantos serviços de combate aos fogos que vai resolver quem queremos ser como país……?

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