A aldeia de Dornes voltou a viver, nos dias 24, 25 e 26 de maio, um dos momentos mais marcantes da sua tradição religiosa e cultural com a realização da secular romaria e festa em honra do Divino Espírito Santo. O evento, cuja origem remonta ao tempo da Rainha Santa Isabel, reuniu doze círios e muitas centenas de peregrinos no Santuário de Dornes, num ambiente de fé, convívio e devoção.

O ponto alto das celebrações aconteceu no Domingo de Pentecostes, com missa campal e procissão que integrou os círios de Ferreira do Zêzere, Miranda do Corvo e Cumieira. A participação do círio de Ferreira do Zêzere voltou a destacar-se pela presença da sua banda filarmónica, mantendo viva uma tradição profundamente enraizada na região.
Na Segunda-feira do Espírito Santo decorreu a missa com o círio de Alviobeira e, ao final da tarde, nova celebração presidida pelo padre Tiago Alberto, das paróquias de Além da Ribeira, Casais e Alviobeira, assinalando também a chegada do círio da Sabacheira.

Já na terça-feira, dia 26, as cerimónias encerraram com missa campal e procissão envolvendo os círios de Arega, Areias, Olalhas, Santiago da Guarda, Alvorge, Formigais e Rio de Couros, numa celebração co-presidida pelo vigário de Tomar, padre Rui Tereso.
Apesar do calor intenso que se fez sentir durante os três dias, os fiéis permaneceram no recinto, procurando abrigo à sombra das árvores que envolvem o santuário.

Aldeia engalanada para receber os peregrinos
Quem visitou Dornes encontrou a aldeia decorada com vasos de barro floridos e mastros com bandeiras, numa imagem de festa que contrasta com a pequena dimensão da localidade, onde residem apenas cerca de 18 habitantes.
Junto ao santuário destaca-se também o novo miradouro construído no topo norte da Torre Templária, uma obra recente financiada pelo próprio Santuário. Segundo o pároco, padre Manuel Vaz Patto, foi necessária a aquisição prévia do terreno a um particular para concretizar o projeto, que veio melhorar as condições de acolhimento aos visitantes.

Em contraste, permanecem ainda visíveis os estragos provocados pela tempestade “Kristin”, com dois troços do muro do cemitério por reparar, situação que continua a aguardar intervenção da Junta de Nossa Senhora do Pranto.
Museu dos Círios preserva tradição secular
Outro dos espaços que continua a despertar interesse é o Museu dos Círios, projeto impulsionado pelo padre Manuel Vaz Patto, que está em Dornes há cerca de uma década. No espaço podem ser admirados 23 dos 40 círios registados no santuário, incluindo antigas velas e caixotões decorados com brasões monárquicos e datas históricas.
Entre os exemplares mais antigos encontram-se os círios de Chãos, Serra, Miranda do Corvo e Maçãs de Dona Maria, datados de 1826, bem como o de Ferreira do Zêzere, de 1827. Há ainda referências a Alviobeira (1863), Areias (1949), Paio Mendes (1976) e Rio de Couros (2013).

O pároco recorda que algumas paróquias deixaram entretanto de participar na romaria, como Igreja Nova do Sobral, mas acredita que a tradição continuará viva graças ao crescente número de peregrinos que acompanha os seus círios todos os anos.
Peregrinos transformam Dornes em espaço de convívio
Perante a reduzida oferta de restauração na aldeia, muitos visitantes optaram por levar os tradicionais farnéis. Os parques de merendas e zonas envolventes ficaram repletos de famílias e grupos de peregrinos em convívio, sobretudo nas entradas de Dornes, junto à estrada de Águas Belas e ao parque próximo da Ponte de Vale da Ursa.
A falta de infraestruturas de apoio em períodos de maior afluência continua, contudo, a ser apontada como uma necessidade. Entre as melhorias defendidas por muitos visitantes estão a instalação de fontenários com água da rede, mais mesas, casas de banho de apoio e a requalificação dos acessos e pavimentos.

Apesar disso, Dornes continua a afirmar-se como um dos principais cartões-de-visita do concelho de Ferreira do Zêzere. Entre a fé, a tradição e a beleza natural da península banhada pelo Zêzere, a aldeia templária voltou a mostrar porque continua a encantar quem a visita — e a deixar vontade de regressar.
Texto: António Freitas






