Alfarrabistas e livrarias de todas as espécies e feitios: quem é que lhes bate à porta? Quem somos nós, bibliófilos ou devotos dos livros?

Por: Mário Beja Santos

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nnnA obra intitula-se “A religião dos livros”, por Carlos Maria Bobone, alfarrabista e filho de alfarrabista, com o currículo sempre metido nos livros, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022. Começa por nos dizer que este mundo das livrarias e da venda dos livros é mais não-notícia que outra coisa, de vez em quando a comunicação social lança brados sobre a descoberta de uma preciosidade ou de um livro licitado a alto preço em leilão, mais vagamente ficamos a saber que caiu mais uma livraria em combate. E se acontece que as livrarias vão desaparecendo, ou transformando-se, a venda de livros antigos e usados online sobe em espiral, há dois conglomerados editoriais e uma vasta linha de editores independentes e até de editoras que estão prontas a publicar o quer que seja desde que o autor traga dinheiro na mão. Destaquem-se as leiloeiras online, nenhuma delas prescinde fazer leilões de livros entre a arte contemporânea, o colecionismo, os ouros e as pratas, os objetos de decoração. E há as vendas ao ar livre (é o caso da que decorre na Rua Anchieta) isto para já não falar nas Feira da Ladra, nas tômbolas e nas vendas caritativas.

Certamente que a vida das livrarias se modificou com as exigências dos conglomerados editoriais que lançam enxurradas de livros nos hipermercados. Vão desaparecendo as livrarias onde o aficionado se pode sentar, ler umas páginas, ter condições para uma decisão não precipitada. E o autor decide testemunhar, tem muito a contar sobre a vida de alfarrabista: “Só é excêntrico aquilo que é raro, pelo que, para mim, o modelo do alfarrabista ou do livreiro sempre foi o modelo da normalidade. Visto de dentro, nada há de excêntrico ou de bizarro num livreiro, é tudo natural. Nem todos os livreiros são nobres, cultos, resistentes e generosos, ou nunca me teriam deixado entrar no ramo”. E observa como o índice de alfabetização exige um novo olhar: “Um país que nos últimos cem anos viu a taxa de alfabetização subir dos dez para os 90 e muitos por cento também viu aumentar os potenciais clientes das livrarias em 800 por cento. Se aí juntarmos as possibilidades que a internet traz para a divulgação dos livros, haverá sempre uns quantos maduros capazes de sustentar algumas livrarias. Elas existem, como outras existiram e outras existirão. Resta saber como funcionam.”

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Um leitor compulsivo com um sorriso de felicidade entre pilhas de livros… dos outros

E temos a narrativa da história do livro, bem apaladada, por sinal; este autor alfarrabista tem o condão de nos agarrar entre séculos de história e de nos dar um apanhado do que nesses séculos se pôde vender ou mostrar nas prateleiras ou expositores. E há o entusiasmo da sua própria aventura: “O esforço constante de renovação é o que torna o trabalho interessante e arriscado, e é por isso também que se falará mais neste livro de alfarrabistas do que livrarias de livros novos. As livrarias de livros novos trabalham com o senão de serem reféns daquilo que as editoras têm disponível; além disso, podem estender a receita por muito tempo – se vendem um livro, volta a encomendá-lo. O livreiro alfarrabista, porém, não consegue simplesmente encomendar um livro igual. Tem a vantagem de beneficiar de vários séculos de impressões à sua disposição, embora escondidos em casas em que nunca sabe se entrará. É sobre os esforços da imaginação para contornar estes obstáculos que este livro versa.”

Fala-nos sobre livreiros, bibliófilos, procura caracterizar estes, lembra que os livreiros se distinguiram pelos seus catálogos, ainda hoje importantes, por vezes imprescindíveis referenciais de preços. Dá-nos conta de algumas especificidades, um exemplo: “O conhecimento bibliográfico que tantas vezes permite ao livreiro passar por erudito também o pode fazer passar por conhecedor, sem que seja uma coisa ou outra. Estamos habituados a que a erudição, em conversa, seja demonstrada em pormenores, já que raramente há tempo ou disponibilidade para divagações substanciais ou completas sobre um assunto; daí que se pressuponha que, debaixo da ponta, haja um icebergue inteiro. O conhecimento do livreiro, porém, é feito destas pontas, de saber quais são os opúsculos mais raros de Camilo como só um verdadeiro apaixonado saberia, ou quantas gravuras há num livro de medicina do século XVII, como só um estudioso profundamente mergulhado no conhecimento do livro poderia descobrir. O mundo do livreiro, é assim, um mundo de enganos e de falsa cultura, que poucas vezes é percebido como tal.”

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Interior de um alfarrabista em Bruxelas

E assim vamos mergulhar nos livros raros e usados, ouviremos falar das feiras, na especialização no mundo dos alfarrábios, seremos iniciados no mundo de leilões e leiloeiros, assim chegamos à proveniência dos livros, podem ser as bibliotecas particulares, sabe-se lá quais as razões porque cada um se desfaz do seu espólio, há quem herdou livros, mas prefira ter dinheiro fresco até porque a casa própria tem espaço exíguo ou até porque a biblioteca herdada nada tenha a ver com o novo dono. E temos o comportamento do vendedor e do comprador, o que leva o autor a falar das técnicas de negociação e o sigilo entre compradores e até o facto de poder haver qualquer coisa de mágico na compra de uma biblioteca, como escreve: “Sentarmo-nos num armazém cheio de livros acabados de chegar e entretermo-nos a desempacotar surpresas, sabendo que poderemos guardar aquilo que quisermos, está próximo do sonho infantil de gerir uma loja de doces. Por muito que o negócio obrigue a alguns sacrifícios e a vender certos livros que, no mundo ideal, guardaríamos, há sempre alguns que nunca chegarão a ser expostos. Guardam um prazer secreto e mil vezes satisfatório do livreiro.”

Discreteia sobre o que está a acontecer às livrarias independentes, o impacto da internet, a intromissão do e-book, as aldeias de livreiros (caso de Óbidos), o que se sabe sobre os bibliófilos e os colecionadores. Ficamos a saber que há a doença dos livros: mutilados, traçados, colados pela humidade, descolorações pelo sol, descosidos, com as lombadas rebentadas, com as coifas dobradas, comidos pelas traças e pelos bichos do papel, manchados por várias razões, às vezes o encadernador faz milagres. São doenças que afetam livreiro e colecionador. E vêm os desafios da internet: “O cliente escreve o nome do livro e espera que, entre Auckland e Oliveira de Frades, alguém queira vender o livro desejado. Os livreiros pequenos podem jogar nesta lotaria; no entanto, fora destes filões anoréticos, a probabilidade de se encontrarem o desejo do comprador e a disponibilidade do vendedor é sempre pequena. Qualquer livreiro sabe que, para vender 10 livros pela internet, precisa ter registados uns 1000”. E fala-se na recém-plataforma RELI, a Rede dos Livreiros Independentes. Carlos Bobone é um otimista, claro que responde positivamente que há esperança para as livrarias, enquanto houver leitores, o livro não morrerá e enquanto houver livros haverá muito mais do que leitores.

Uma bela viagem, um belo hino ao livro, à livraria e aos alfarrabistas, merece que o leitor se imiscua um pouco mais nesta religião.

Mário Beja Santos

 

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