O deslumbramento de uma cidade com um roteiro de luxo

Por: Mário Beja Santos

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É uma brochura talentosamente organizada, o pretexto é a presidência portuguesa da Federação Europeia da Rota dos Templários, oferece ao leitor um percurso templário em doze etapas, dá-se uma planta atual de Tomar e o visitante percorre à sua vontade o que quer ver agora ou depois.

Manda a cronologia que se destaque a Igreja de Santa Maria dos Olivais, é a mais antiga da cidade, e quem vem apressado tem uma síntese bem precisa: “Tem uma rosácea na fachada e torre sineira que foi antes atalaia; as capelas laterais e a galeria renascentista sul são do século XVI. A Igreja contém uma imagem gótica de Nossa Senhora do Leite, de Diogo Pires-o-Velho e o túmulo de D. Diogo Pinheiro, 1º Bispo do Funchal. Destaca-se ainda a Capela de Simão Preto com paredes e abóbada revestidas de azulejos do século XVII. Foi a igreja matriz (principal) de todas as terras descobertas pelos portugueses nos Descobrimentos”.

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Daqui se prossegue para o Açude dos Frades, inicialmente templário, que conduzia a água do rio para alimentar os moinhos. O primeiro arco da chamada “ponte velha” foi construído para poder criar acesso desde a Corredoura que, com o canal assim aberto, ficou separada da ponte primitiva, acrescentando-a. Manda a economia de meios que se prossiga pela Calçada de Santiago até à Praça da República, há que dar ao leitor algumas indicações úteis quanto à Corredoura e Igreja de São João: “Na Corredoura, que era já um importante arrabalde em 1165, instalaram-se artesãos e mercadores, fazendo dela a rua principal.

A tradição atribui a designação da rua por esta ser local onde os Templários se treinavam e ‘corriam armas’. Todavia, ‘corredoura’, tal como ‘rua direita’ significa rua ou espaço largo que liga dois pontos importantes de uma povoação. A Rua de São João é-lhe paralela, pelo Sul, e era a rua adossada à antiga capela templária de S. João que, com o correr do tempo e das intervenções reais, passou a ser Capela Real e, mais tarde, igreja. Ambas as ruas ligavam o largo templário de S. João ao rio”.

E assim se retorna para outro local histórico, a Rua dos Moinhos ou Rua Direita dos Moinhos. Ao tempo de D. Manuel I foi atualizado o complexo que passou a ser conhecido como Lagares d’El-Rei. Por essa altura, e secados que foram definitivamente os terrenos, foi construída uma nova rua paralela à Rua dos Moinhos, conhecida por Levada. E assim continua o visitante pelos Moinhos da Ordem, temos mais adiante os Paços da Ribeira, ou da Várzea Grande, hoje inexistentes, estamos no Chão do Pombal, agora Praceta Alves Redol / Rotunda da Ponte Nova.

Vale a pena ler o que diz a brochura para ver as voltas que o mundo dá: “Designado como Palácio dos Cubos, em alusão às medidas de contagem utilizadas, o complexo incluía lojas de azeites, celeiros e tercenas, primeiro do tempo dos Templários, depois na época henriquina e, posteriormente, propriedade de Frei António de Lisboa (em dúvida se não era propriedade da Ordem de Cristo). Remodelações não faltaram, depois os moinhos foram vendidos em hasta pública em 1836, na sequência da extinção das ordens religiosas em Portugal.

Os chamados “Paços dos Cubos” foram parcialmente demolidos para que fosse possível construir a atual Ponte Nova. Por aqui também houve os escritórios das Empresas Mendes Godinho. Atualmente, devidamente reabilitado e vencedor de um importante prémio de arquitetura pela recuperação interior, goza do nome de Casa dos Cubos e ali se aloja o Centro de Estudos em Fotografia de Tomar.

Muda-se de agulha para outra via templária, a Riba Fria, a que corresponde a atual avenida Cândido Madureira, em tempos templários correspondia ao acesso sul à Vila de Baixo. Ali ao pé do Posto de Turismo temos o Hospício de S. Brás que aponta para a entrada da Mata dos Sete Montes, fazendo cunha entre as ruas do Pé da Costa de Cima e do Pé da Costa de Baixo. Serviu como gafaria e é a única reminiscência dos vários hospitais e hospícios medievais.

Agora o visitante tem pela frente a Rua do Pé da Costa, assim apresentada: “Serão, conjuntamente com a Corredoura, a Riba Fria, a Rua dos Açougues e a Rua dos Moinhos, as ruas mais antigas de Tomar no arrabalde do sopé do monte conhecido como Vila de Baixo”. E para que o leitor não se desoriente dão-se sinónimos, pé é igual a sopé ou base; costa é sinónimo de encosta do monte”. E mais se esclarece que as ruas do Pé da Costa de Baixo e do Pé da Costa de Cima datam dos séculos XII/XIII.

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Está na hora de se bater à porta do Património da Humanidade, o castelo templário, e pode até acontecer que seja a primeira vez que o visitante  aqui ponha os pés, a síntese oferecida é perfeita: “O castelo apresenta três recintos (a vila intra-muros, servida pela estreita Porta de Almedina, o recinto de parada, hoje ajardinado, a que se acede diretamente do exterior pela entrada nobre da Porta do Sol, e a zona religiosa e militar com torre de menagem) individualizados por duas cortinas ou panos de muralha; todo o conjunto é protegido pela cintura da muralha externa reforçada pelo alambor (uma técnica de reforço defensivo da base das muralhas que Gualdim Pais trouxe do Oriente foi aplicada pela primeira vez em Portugal nesta fortaleza)”. Quem diz castelo diz a Charola octogonal e somos remetidos para os trabalhos do tempo de D. Manuel I quando se abriu um grande arco para ligação a um património marcadamente manuelino que culmina na Janela do Capítulo. Pode dar-se o caso de o visitante entrar no convento e a brochura passa em revista os espaços que tem para ver.

E chegámos à última etapa, a Mata dos Sete Montes e a Porta de Almedina, já foi a cerca dos freires da Ordem de Cristo, é hoje a Mata dos Sete Montes um parque público florestal com 39 hectares de área. Era rei D. Dinis e o sítio era conhecido como o Lugar de Sete Montes e de Sete Vales.

É por esta mata que se acede ao exterior da Porta de Almedina, que era a porta de entrada para a vila antiga, protegida pela muralha exterior e a cortina interior. Reinava D. Manuel I e encerrou-se a vila antiga e emparedou-se a Porta de Almedina também conhecida pela designação de Porta do Sangue, por aí ter sido sustida a investida muçulmana de 1190.

É uma brochura admirável de fresca data, tem texto de Carlos Trincão, validaram os conteúdos Ernesto Jana e Álvaro Barbosa. As imagens são impecáveis, tudo a condizer, quem fizer este percurso templário tem aqui ferramenta útil – para ver e compreender, para rever e reaprender, porque ao longo da vida, ao longo dos dias, semanas, meses e anos, o que se vê no verão não é o que se vê no inverno, com sol doirado ou sol plúmbeo, bem diz o povo que recordar é viver.

Mário Beja Santos

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