Crédito Agrícola

Os combatentes faziam-se homens, Portugal mudava de rosto

Por: Beja Santos

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Autora, Joana Pontes

 

Sinas de Vida, Cartas de guerra 1961-1974, por Joana Pontes, Tinta-da-China, 2019, é uma obra peculiar do panorama dos estudos históricos sobre a guerra colonial. Como a autora observa, “em treze anos de guerra colonial, de Angola para Portugal, de Portugal para Moçambique, de Moçambique para a Guiné, entre namorados, pais e filhos, amigos e camaradas de armas, circularam milhares de cartas, com o correio entre as colónias e a metrópole chegando a atingir dez toneladas por dia. Estas missivas emprestam perspetivas e sensibilidades pessoais a um conflito de caráter global, composto também por episódios privados de ciúme, saudade, medo, aborrecimento, racismo, resignação ou revolta crescente. Aqui representadas por 16 acervos, com cerca de 4400 cartas e aerogramas, esta são as histórias dentro da História, neste caso escrita por quem a viveu”.

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Sobre a importância deste correio, diferentes escritores têm relevado a importância capital que representava para quem combatia a chegada das sacas de correio, por barco, avião ou transporte terrestre. Era o encontro com as raízes, a chegada da voz dos afetos, as informações do rincão, das culturas agrícolas, as notícias de quem casava ou morria. Joana Pontes esteve associada ao Projeto Recolha, o Arquivo Histórico Militar apelou a que todos estes contributos escritos ficassem resguardados como dever de memória. Ela tratou um acervo e faculta-nos um olhar novo, vemos ao espelho como iam crescendo aqueles jovens num dos três teatros de operações militares e como Portugal se desenvolvia com a emigração, o turismo, a industrialização, a fuga dos campos para as cidades.

Trata-se de uma obra muito bem estruturada. Em primeiro lugar, “As palavras escritas no papel e na alma”, vão sendo apresentados os atores destas narrativas, em grande número jovens com poucos estudos, oriundos do Norte, praças, num desfile cronológico expressivo (o mesmo não se poderá dizer dos três teatros de guerra, Angola e Moçambique têm a fatia de leão, lamenta-se que a Guiné, pela real natureza do conflito ali travado, tenha tido uma voz tão reduzida). Há as saudades, a manifestação permanente de que tudo passe depressa, os cuidados e conselhos das mães e mulheres e namoradas para que se cuide da saúde e que se use prudência, observa-se a autoridade do homem, estamos ainda num tempo em que ele é o cabeça de casal indiscutível e o decisor supremo. De cá para África, conta-se as alterações que se vivem no meio, a chegada do dinheiro da França, as turistas que se passeiam em biquíni, a informação de que as saias subiram acima do joelho, de que chegou o subsídio de Natal, de que há férias, de que se vive na miséria, que já se pratica o planeamento familiar. Há o correio para a mulher ou a namorada, bem distinto do que se envia aos padrinhos, aos avós ou aos amigos. Nos primeiros anos, ainda se escreve para África incentivando ao dever pátrio de proteger o que é nosso, conquistado há séculos. Também de cá para lá se informa que chegaram as urnas de combatentes, e houve muita compulsão na aldeia. Há a religiosidade, incluindo a ampla divulgação à “Oração do Soldado Português”, a incorporação no Exército é apresentada como um serviço à Pátria, a missão a cumprir está profundam

ente ligada ao serviço a Deus. São mudanças que se acentuam, com o aumento da escolaridade, com a telescola, e depois o regime de Marcello Caetano traz a segurança social aos

pequenos agricultores e rurais. Os jovens combatentes tornam-se adultos, Portugal está em transição.

A segunda parte da obra comporta os relatos que os jovens passam para a metrópole, informações militares com muito ou pouco significado, contrariando as regras militares, a par dos desabafos quanto à solidão, à comida sensaborona, aos pequenos conflitos, à exaustão em crescendo na comissão. Os anos passam, vão crescendo as dúvidas, as mentalidades aceleram-se, já houve a crise universitária, deixará marcas na formação dos jovens oficiais milicianos. O que se passa cronologicamente nos teatros de Angola e Moçambique aparecem bem registados nestas cartas de guerra.

Temos aqui um documento de valor indiscutível sobre a evolução do pensamento dos militares ao longo dos treze anos de guerra. Joana Pontes, em jeito de conclusão, procura extrair um punhado de conclusões: a vontade de regressar é cada vez mais premente à medida que os meses vão passando, é uma ânsia, um desejo de regressar que se sobrepõe ao cumprimento do dever; é também manifesto o desejo de procurar escapar aos perigos que cercam a vida do combatente, a segurança só baixa de nível em tempos de profunda exaustão ou quando o tédio da missão embaraça o espírito; diz-se aonde se vive e como se vive mas é manifesto que não há uma compreensão em grande ecrã do problema da questão colonial, a grande maioria combate por obrigação sem refletir sobre o que está em causa, este não-discernimento é permanentemente ocupado pelo queixume de estar separado dos seus, nos melhores anos da juventude; esta correspondência permite observar que a crença na virtude do sacrifício exigido a todos para defender a Pátria se irá esbatendo ao longo do tempo de guerra; e de igual modo, não há um entendimento da evolução do conflito, a comissão militar está datada, são dois anos, em certos locais, não há entendimento do contexto da manobra geral, a despeito de se ir observando, em certos teatros, que os guerrilheiros têm bom equipamento, estão bem preparados, e que se fazem operações bem custosas, e que quase tudo fica na mesma, a guerrilha retoma posições parecidas com as que tinha, mesmo que se queimem aquelas bases e se destrua a comida; perpassa esta correspondência a vivência da monotonia da vida, são uns dias como tantos outros, pode haver a expetativa de uma flagelação, uma deslocação para abastecimento, um patrulhamento, depois tudo volta ao local onde dezenas ou centenas de homens se encontram hoje como já se encontraram ontem e se encontrarão amanhã.

Em conclusão, escreve a autora, “as narrativas individuais dos envolvidos devem ser tomadas não só como a experiência de cada um, mas como testemunhos de uma época, testemunhos esses que dão a conhecer as representações individuais e coletivas da guerra”.

Insista-se: é um primoroso e utilíssimo material de investigação das mentalidades, no contexto da guerra colonial.

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