Terror numa Amazónia pré-histórica, que guarda segredos para o mundo vindouro

Por: Beja Santos

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“Amazónia”, do conhecidíssimo James Rollins, um talentoso e prolífico escritor da literatura de aventuras, com apetite muito especial por revelar mundos invisíveis, descobertas científicas e segredos históricos, Bertrand Editora, 2019, proporciona uma leitura avassaladora ao mais exigente aficionado pela literatura do entretenimento puro. Tudo começa quando numa missão de padres jesuítas no Amazonas, em data recente, aparece saído da selva e a arder em febre um ex-agente das Forças Especiais dos EUA. É bem acolhido pelo padre missionário, mas morre em poucas horas sem esclarecer como entrou naquele lugar selvagem. E mais enigmático é vir a saber-se que fizera parte de uma expedição científica tendo perdido o braço esquerdo na guerra do Iraque e apareceu moribundo naquele ponto remoto do Amazonas com os dois braços intatos.

A CIA põe-se em campo e em simultâneo vão entrando em cena o filho do chefe da expedição científica que desaparecera sem deixar rasto, Manuel Azevedo e o seu jaguar amestrado, um professor poliglota de nome Kouwe, uma empresa farmacêutica ávida por conhecer mais segredos da selva amazónica, uma médica, rangers, prepara-se uma expedição que mais uma vez irá no encalço daquela outra expedição desaparecida. De premeio, ouve-se falar nos Jaguares de Sangue e na tribo dos Ban-ali. Em Caiena, na Guiana Francesa, vive um vilão, Louis Favre, ele recebe a incumbência de uma farmacêutica francesa para acompanhar sigilosamente a missão norte-americana, tem carta-branca para a destruir logo que entre em posse de segredos miraculosos que sirvam os poderosos interesses dessa farmacêutica francesa.

Sem nos dar descanso, James Rollins põe em marcha uma equipa de cientistas e de soldados e na sua peugada vai um grupo de matadores sem quaisquer escrúpulos. O cenário é a selva, uma natureza aterradora, bichos devoradores, rios pejados de crocodilos, no entretanto alastra uma estranhíssima doença talvez propagada pelo corpo daquele militar a quem renasceu um braço. Há discussões, alguém, que está vendido a interesses farmacêuticos, contesta o que os ambientalistas apregoam quanto às consequências da destruição amazónica: “A ideia de que a floresta não se regenera a si mesma é um mito ultrapassado. Ao fim de oito anos de exploração comercial das florestas tropicais da Indonésia, a taxa de recuperação de plantas e animais autóctones supera todas as expetativas. E aqui passa-se o mesmo. Em 1982, empresas de minério arrasaram uma boa secção da floresta no Oeste do Brasil. Quinze anos depois, os cientistas descobriram que a floresta rejuvenescida era em tudo igual à restante. Estes exemplos confirmam a ideia de que a exploração comercial sustentável é possível”. Curiosamente, este argumento demencial continua a fazer proveito, basta pensar no apoio que atualmente as autoridades brasileiras lhe concedem. Enquanto decorrem múltiplas peripécias na selva amazónica, os laboratórios afetos à CIA apuram que o corpo de Clark estava cheio de tumores, algo falhara no processo da sua regeneração, os cientistas interrogam-se se a sua resposta não trará uma revolução no universo da Medicina.

Morre-se na serra amazónica, um horror quase inarrável de bichos devoradores, a expedição prossegue vigiada pelos matadores onde uma mulher índia gosta de cabeças para as miniaturizar e fazer um certo tipo de joias ou amuletos. Surgem sinais da passagem de Gerald Clark, a expedição sofre ataques de piranhas, de crocodilos, de jaguares, avança-se para um local hermético, completamente desconhecido, o leitor vai-se assombrando. Alguém comenta que em termos geológicos aquela região remonta à era do Paleozoico, então a bacia do Amazonas era um mar interior de água doce, antes das alterações tectónicas abrirem uma ligação ao oceano. “Enquanto botânico, não conseguia deixar de se sentir estupidificado pela flora exuberante: cavalinhas com caules de grossura de tubos de órgãos de igreja, fetos maiores que palmeiras, pinheiros primitivos com pinhas do tamanho de automóveis. A mistura do antigo e novo era simplesmente inacreditável”. Avança-se por esse mundo cheio de espécimes pré-históricos. “Flores gigantescas, do tamanho de abóboras, pendiam de videiras e perfumavam o ar com odor intenso”. Mas havia sinais da presença humana, o que pareciam ser lianas e videiras entrelaçadas eram na verdade pontes e escadas suspensas. “Uma dessas escadas encontrava-se uns metros à direita. Flores cresciam em toda a sua extensão, dando-lhe também vida. Era quase impossível distinguir onde terminavam as estruturas feitas pela mão humana e começavam os organismos naturais. Sem saberem, tinham acabado de entrar na aldeia dos Ban-ali”. E com argúcia narrativa, a expedição volta a mergulhar num mundo secreto onde a esperam novos perigos, pois os matadores de Louis Favre vão tentar uma chacina e a posse de segredos ambicionados pela farmacêutica francesa.

Uma das grandes surpresas que James Rollins oferece aos seus leitores é uma árvore gigante, tipo mãe segregadora de vida e cura, possuidora de sementes suscetíveis de aumentar a saúde e a esperança de vida de todos. Encontra-se o diário de campo do chefe da expedição desaparecida, estava-se de facto a caminho de uma grande transformação na humanidade. No meio daquele turbilhão destruidor dos matadores, alguém comenta como o mundo se pode tornar muito melhor, e isto a propósito do diário de campo do cientista desaparecido:

“Daquilo que vimos na pesquisa do teu pai, sabemos que a seiva está cheia de proteínas mutantes, priões que potenciam as capacidades das espécies que protegem a árvore, tornando-os mais fortes, mais inteligentes. Mas esta dádiva tem um custo. A árvore não quer que os filhos a abandonem, e por isso dá-lhes algo mais do que o aumento das capacidades”. Os humanos ficavam obrigados a comer regularmente as sementes, a única forma de impedirem que os priões atacassem o organismo e o leite das sementes continha alguma substância que suprimia a doença.

A seguir à catástrofe veio a bonança, não se concebe a literatura de entretenimento sem um casamento feliz, a punição dos maléficos, a continuação da magia da selva amazónica. Uma construção perfeita para deliciar quem gosta deste subgénero literário.

Beja Santos

 

 

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