Mais linda homenagem aos alunos do Colégio Nun’Álvares não pode haver

Por: Mário Beja Santos

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A iniciativa partiu da Associação dos Antigos Alunos dos Colégios Nun’Álvares de Tomar, a edição é de 2000, obra de carinho e saudade, acontece que acolhe textos belíssimos, notas íntimas, imagens associadas à história dos colégios que podiam correr o risco de se diluir no tempo, ficariam sujeitas, sem esta coletânea, a ficarem espalhadas em coleções particulares e arquivos.

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Logo o texto de abertura, do punho de Appio Sotomayor que faz um tocante registo histórico, relevando que o Colégio (ou Colégios) albergou gerações, ainda se vivia na Ditadura Militar, é uma história que acaba tristemente já na década de 1980, recorda com imenso sabor as relações entre o Colégio e a comunidade tomarense, bailes, variedades, cortejos, e muito mais. E a lembrança da constância de alguns professores, que formaram gerações, e no topo aqueles três nomes indiscutíveis, o Dr. Raúl, o Sr. Ilídio e o Dr. Gil Marçal.

Então o autor dá um passo em frente e escreve que não se pode esquecer que havia dois mundos distintos, o masculino e o feminino. Recorda as instalações, o velho casarão no topo da Várzea Grande, a escassos 100 metros da estação da CP, e também o Externato, que tinha entrada pela Rua da Graça para as meninas e pela Rua dos Arcos para os rapazes. E há um outro aspeto a reter: “Diferente foi a forma de encarar o colégio por parte de quantos por lá passaram. Para os externos, seria apenas o local onde tinham aulas, um ponto de encontro com os companheiros. Os internos poderiam, sem dificuldade, dividir-se em vários grupos.

Alguns eram de perto de Tomar e tinham, por isso, a vantagem das visitas pouco espaçadas de familiares ou até das relativamente frequentes idas a casa. Outros, de longe, suspiravam pelas férias para usufruírem de ares diferentes. Mas o grande contingente de estudantes vindos de África fez criar uma terceira espécie: a dos que tinham mesmo de encarar o Colégio como sua casa, férias incluídas.” É uma reflexão que põe uma multiplicidade de questões, o Colégio tem matéria para vários livros, e acresce que cada um dos alunos ficou a seu modo tocado por Tomar. Sobre tantas do Colégio, pode ser que alguém se venha a abalançar a outro tipo de análises…

João Granada discorre sobre Tomar e o ensino, procura dissecar os antecedentes do ensino médio em Tomar, não esqueceu uma Escola Primária Superior onde, entre 1919 e 1925, sob a direção do Dr. José Tamagnini e do capitão Brak-Lamy, já se lecionava francês, inglês e outras disciplinas curriculares do ensino médio; Tomar tinha uma vivência cultural intensa, recorda o vulto do Dr. Vieira Guimarães, os Amigos da Ordem de Cristo, o seminário das missões, havia uma escola técnica, Jacome Ratton. E em 1931 a cidade recebeu o seu colégio.

O mesmo João Granada procede a uma recensão sobre a história e cultura de Tomar no século XX. Segue-se a transcrição da sociedade por quotas formada por escritura de 30 de julho de 1932, Raúl António Lopes diretor e à frente dos assuntos pedagógicos, Gil Marçal na orientação dos serviços da secretaria, Ilídio Dias na parte administrativa da sociedade.

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Os sócios fundadores do Colégio Nun’Álvares, 1931. Sentados: Dr. Carlos de Amorim e Dr. Raúl Lopes; em pé: Dr. Gil Marçal e professor Ilídio Dias. A fotografia é de 1931. Sobre a mesa, a fotografia do benemérito tomarense João de Oliveira Casquilho

E assim chegamos à recordação do primeiro ano letivo, o tal casarão na Várzea Grande, registam-se as disposições regulamentares do Colégio com a data de 1938, segue-se a relação de fundadores, diretores e professores, o brigadeiro Amorim Rosa aparece em destaque. E temos um rol de recordações que se prendem a récitas de gala, o que era a caderneta do aluno, imagens do internato feminino, e espraiam-se as notícias sobre o Colégio no feminino, proliferam imagens dos alunos estamos em 1947-48; e há memória do desporto no Colégio, do pelotão da milícia da Mocidade Portuguesa, as festas académicas e os saraus, abre-se espaço para os jornais do Colégio, o Folha de Couve, a que se seguiu Folha Nova.

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Anos 1960, o novo Colégio, finalistas e caloiros

Fernanda Leitão, que foi diretora deste jornal, deixa o seu registo de antiga aluna. E há memórias não menos tocantes como a história daqueles 8 irmãos que andaram no Colégio, com base no texto de Joaquim Dias Nogueira, prende-se com uma família de 10 filhos, viviam nas Ribeiras Fundeiras, Várzea dos Cavaleiros, Sertã. O mais velho dos Nogueira, de seu nome João, deu entrada no Colégio no ano letivo de 1942-43, veio depois o Joaquim, o Manuel, o Álvaro, o Alberto, o José, o Gabriel e, por fim, a Luísa, entre 1942 e 1944, ao longo de 32 anos, 8 Nogueiras, filhos do tio António Gigante e da mãe Luísa passaram pelos Colégios, após o que fizeram vidas e seguiram percursos por terras de Portugal, do Ultramar e do estrangeiro, todos eles recordam o seu Colégio e os colegas que os acompanharam.

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Uniforme das meninas

Os coordenadores da publicação não descansaram na busca de imagens memoráveis, por exemplo referentes às atividades extraescolares, é impressionante este acervo, impressionante e comovente ver imagem do orfeão masculino e do feminino, dos saraus, das guerreadas (os forcados amadores do Colégio Nun’Álvares participaram no Campo Pequeno na corrida de domingo de Páscoa, por exemplo); imagens da colónia de férias em S. Pedro de Muel, não falta uma referência a ações de benemerência, como bolsas de estudo, casas para famílias carenciadas, refeições a pessoas idosas e carentes.

Caminhamos para o termo deste álbum tão ternurento, vai-se falar do programa do cinquentenário, em 1982; e não faltam os aspetos espinhosos alusivos aos anos do fim e do colapso, a partir de 1 de outubro de 1985 neste ex-Colégio Nun’Álvares era criada a secção da Escola Secundária de Santa Maria do Olival. E dá-se notícia do que era o bairro do Colégio, agora as imagens têm já a ver com a Associação dos Antigos Alunos e os seus convívios, a homenagem ao Dr. Rui Lopes, tudo profusamente ilustrado, um registo que vai até 1996. E as últimas palavras são para a cidade templária, uma citação do professor José Hermano Saraiva: “Tomar não é para todos. É só para quem merece.” Uma edição para guarda e recordar.

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O Templário e o Dr. Rui Lopes, estávamos em 1959, uma reportagem sobre os festejos do Colégio

Artigo da autoria de Mário Beja Santos publicado na edição impressa do Jornal O Templário em 12-10-2023

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