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Quando a fé se põe a caminho: a história dos Círios que chegam a Dornes

Há tradições que não vivem apenas nos livros. Vivem nos passos das pessoas, nas velas que se acendem, nos cânticos que atravessam as aldeias e nas memórias que passam de geração em geração. É assim com os Círios que, ano após ano, chegam a Dornes, para prestar homenagem a Nossa Senhora do Pranto.

E uma destas manifestações de fé realiza-se no próximo dia 15 de agosto a tradicional romaria em honra da Nossa Senhora do Pranto, feira tradicional e a chegada dos Círios de Cernache do Bonjardim, Zambujal, Maçãs de Dona Maria, São Pedro do Rego da Murta e Pussos. Às 12h00 será celebrada Missa campal seguida de procissão com a participação da centenária Filarmónica Frazoeirense.

Mas afinal, o que são os Círios?

A palavra começou por designar uma grande vela de cera, símbolo da luz e da devoção. Com o passar do tempo, passou também a identificar as próprias peregrinações organizadas por comunidades que se deslocam a um determinado santuário para cumprir uma promessa, agradecer uma graça ou pedir proteção.

Em Portugal, os Círios fazem parte de uma das mais antigas manifestações de religiosidade popular. São peregrinações coletivas que unem fé, tradição e identidade comunitária.

Em Dornes, essa tradição encontrou um dos seus lugares mais antigos e emblemáticos.

Uma viagem que é também uma promessa

Ao longo dos séculos, diferentes comunidades da região foram criando a tradição de partir em direção ao Santuário de Nossa Senhora do Pranto. Cada Círio leva consigo uma história própria, mas todos têm em comum a devoção à Senhora do Pranto.

Muitos destes caminhos terão começado como cumprimento de promessas feitas em momentos de aflição. Doenças, epidemias, guerras, dificuldades económicas ou más colheitas levavam as populações a pedir auxílio aos santos e a Nossa Senhora. Quando a graça era alcançada, ficava a promessa de regressar.

E aquilo que começou como uma promessa tornou-se tradição. É por isso que um Círio não é apenas uma peregrinação. É também uma viagem pela memória de uma comunidade. Quando parte, leva os seus estandartes, a sua vela, os seus cânticos e as suas orações. Mas leva igualmente as histórias dos que fizeram aquele mesmo caminho antes.

Dornes, lugar de encontro

O destino é Dornes, uma das mais singulares paisagens do Médio Tejo, onde a aldeia se ergue numa pequena península rodeada pelas águas do Zêzere. Ali está o Santuário de Nossa Senhora do Pranto, cuja história remonta a tempos antigos e cuja ligação à Ordem de Cristo marcou profundamente a identidade deste território.

A igreja atual foi mandada construir em 1453 por D. Gonçalo de Sousa, Comendador-Mor da Ordem de Cristo, sobre uma construção anterior. Ao lado ergue-se a conhecida torre pentagonal, uma das imagens mais emblemáticas de Dornes.

É neste cenário, entre a pedra antiga, a água e a fé, que os Círios encontram o seu destino.

As peregrinações decorrem tradicionalmente entre a segunda-feira de Páscoa e setembro, fazendo de Dornes, durante meses, um lugar de encontro de diferentes comunidades e devoções.

Uma tradição que continua viva

Talvez o mais extraordinário nos Círios seja precisamente a sua capacidade de sobreviver ao tempo.

Mudaram os meios de transporte, mudaram os modos de vida e muitas das comunidades que antigamente percorriam longas distâncias a pé passaram hoje a utilizar autocarros ou automóveis. Mas a tradição permanece.

Porque o Círio não é apenas o caminho até Dornes. É o reencontro com uma promessa feita pelos antepassados. É a vela que passa de umas mãos para outras. É a criança que acompanha os pais e os avós e que, um dia, poderá levar a sua própria família pelo mesmo caminho.

É, afinal, uma forma de dizer que há memórias que não se querem perder. E quando os Círios chegam a Dornes, entre o som dos sinos, as orações e os cânticos, não chega apenas uma romaria.

Chegam comunidades inteiras com a sua história

Chegam aqueles que acreditam, aqueles que agradecem, aqueles que cumprem uma promessa e aqueles que simplesmente não querem deixar morrer a tradição. Porque enquanto houver quem acenda a vela e faça o caminho, a história dos Círios continuará a chegar a Dornes.

Quando a fé se põe a caminho: a história dos Círios que chegam a Dornes

 

 

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