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Da guerra à escrita: Conceição Godinho recupera a vida de Sá Flores

Da guerra à escrita: Conceição Godinho recupera a vida de Sá Flores
Conceição Godinho a autora da obra

Da guerra à escrita: Conceição Godinho recupera a vida de Sá Flores. O livro «Albertino Flores Santana (Sá Flores) – Guerra, Amor e Paz» reúne testemunhos, documentos e fotografias para contar o percurso do escritor de Ferreira do Zêzere que enfrentou a cegueira e se tornou defensor dos direitos das pessoas com deficiência.

Regressou da guerra praticamente cego e atravessou um período marcado por internamentos, doença e depressão. Na reabilitação e na escrita, encontrou caminhos para reconstruir a vida. O percurso de Albertino Flores Santana, conhecido por Sá Flores, é agora recuperado pela professora Conceição Godinho numa biografia que cruza a história pessoal do escritor com a sua intervenção cívica.

Intitulada «Albertino Flores Santana (Sá Flores) – Guerra, Amor e Paz», a obra tem revisão de Cátia Salgueiro e resulta de uma edição conjunta da Fundação Maria Dias Ferreira e do Município de Ferreira do Zêzere. A apresentação decorreu online, através da Fundação, com vídeos da autoria de Pedro Ribeiro.

O livro acompanha Sá Flores desde a infância no campo até à partida para o Ultramar, passando pela experiência da guerra e pelo regresso a Portugal, com graves problemas de saúde e perda progressiva da visão.

A reabilitação abriu uma nova etapa, na qual a poesia e a prosa assumiram um papel central. A escrita tornou-se uma forma de expressão, de reconstrução pessoal e de participação na sociedade. Paralelamente, Sá Flores empenhou-se na defesa da dignidade, da autonomia e da igualdade de oportunidades das pessoas com deficiência.

Uma vida reconstruída através de muitas vozes

Para conhecer o homem para além da sua obra literária, Conceição Godinho desenvolveu uma investigação que ultrapassou Ferreira do Zêzere, reunindo contributos de familiares, amigos, antigos colegas de trabalho e representantes de instituições ligadas à deficiência e à reabilitação.

Entre os testemunhos recolhidos encontram-se os de Francisco Janeiro, presidente da delegação de Lisboa da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, do coronel Manuel Lopes Dias, de José Serôdio, especialista em Direito das Pessoas com Deficiência, e de Adalberto Fernandes. A investigação contou também com contributos de antigos elementos da ACAPO, como José Luís Carvalho e Fernanda Gomes.

No concelho de Ferreira do Zêzere, participaram pessoas que acompanharam diferentes momentos da vida do escritor, entre elas o professor Manuel António, presidente do Centro de Recuperação e Integração de Ferreira do Zêzere, antigos autarcas, professores, amigos e vizinhos.

A dimensão familiar surge através dos depoimentos dos três filhos — João, Nuno e Patrícia — e da irmã Albertina Santana. João Santana colaborou ainda na revisão do livro e disponibilizou um espólio fotográfico que permite acompanhar diferentes etapas da vida pessoal e literária do pai.

A ligação a Bernardo Santareno

Um dos elementos destacados pela investigação é um testemunho de Bernardo Santareno, encontrado pela autora numa das dezassete obras publicadas por Sá Flores.

O documento ajuda a compreender a amizade entre os dois escritores e o estímulo que essa relação representou para a atividade literária de Sá Flores, acrescentando uma perspetiva sobre as suas relações e o contexto cultural em que escreveu.

A própria construção da biografia procura aproximar o leitor dessa experiência. O livro começa num registo próximo do romance, tendo como ponto de partida «Sol da Noite» e «Vivências no Capim», duas obras de Sá Flores. Progressivamente, a narrativa passa para um registo de investigação, cruzando memórias, testemunhos e documentação.

As numerosas fotografias complementam esse percurso, dando a conhecer rostos, lugares e acontecimentos que marcaram a sua vida.

Uma dedicatória com origem pessoal

A escolha desta história tem também uma ligação à vida de Conceição Godinho. Professora de Educação Especial em Tomar e licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, a autora dedica o livro ao pai, Manuel Godinho, que perdeu a visão nos últimos anos de vida e enfrentou essa condição com amargura e depressão.

O contacto com o percurso de Sá Flores revelou-lhe outra experiência de adaptação à cegueira, apoiada na reabilitação, na literatura e na intervenção cívica.

Guerra, amor e paz surgem, assim, como três eixos de uma vida atravessada pela adversidade, mas também pela capacidade de criar e de agir em defesa dos outros. Ao reunir a obra, as imagens e as memórias de quem o conheceu, Conceição Godinho procura preservar o legado do escritor e dá-lo a conhecer às novas gerações.

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