Se o património tivesse voz… Capela e Fonte de São Lourenço votadas ao abandono. Oito meses depois da tempestade Kristin, permanecem árvores partidas, raízes de grandes dimensões, ervas altas, lixo e restos vegetais junto a um conjunto patrimonial ligado à Batalha de Aljubarrota. Do outro lado da EN110, a histórica Fonte de São Lourenço está praticamente tomada pela vegetação.
Se o património tivesse voz, talvez perguntasse há quanto tempo deixou de ser uma prioridade. Talvez denunciasse o abandono, o esquecimento e a indiferença. É essa a imagem confrangedora que hoje apresenta a zona envolvente da Capela, do Padrão e da Fonte de São Lourenço, à entrada de Tomar, junto à Estrada Nacional 110 e nas proximidades do rio Nabão.
As fotografias recolhidas por O Templário mostram uma realidade difícil de ignorar: vegetação descontrolada, árvores partidas, bases e raízes de grandes dimensões por remover, lixo, folhas acumuladas e restos de uma árvore ainda depositados sobre o telhado da capela.
Não ignoramos que a tempestade Kristin provocou estragos de grande dimensão em todo o concelho. Houve situações urgentes, envolvendo pessoas, habitações, estradas, equipamentos e serviços essenciais, que tiveram necessariamente de passar à frente. Compreende-se que, perante uma emergência desta natureza, tenham sido estabelecidas prioridades.
O que se torna mais difícil de compreender é que, decorridos cerca de oito meses, um espaço de tão elevado valor histórico e patrimonial continue a apresentar sinais evidentes de abandono.
Um cedro caiu sobre a capela
Durante a tempestade, um cedro de grande porte caiu na parte traseira da Capela de São Lourenço, ficando apoiado sobre o telhado do edifício. Perante a ausência de qualquer intervenção durante vários dias, foi O Templário que alertou para o perigo representado pelo enorme peso que a árvore derrubada exercia sobre o monumento.


As entidades competentes acabaram por intervir e cortar o cedro. Contudo, a enorme base da árvore permaneceu no local. Cerca de oito meses depois, continua ali, à vista de quem passa, transmitindo uma preocupante imagem de desleixo.
Ainda hoje são visíveis restos da árvore sobre as telhas, aparentemente não retirados durante os trabalhos de corte. Não sabemos se existem telhas partidas, danos na cobertura ou pontos vulneráveis à entrada da água. Mas sabemos que o outono se aproxima e que, depois dele, chegará o inverno.
Uma eventual infiltração que não seja detetada e reparada atempadamente poderá agravar os danos no edifício. Impõe-se, por isso, uma inspeção técnica à cobertura da capela, não apenas uma observação superficial a partir do exterior.


Árvores partidas, ervas altas e circulação impedida
O problema não se limita ao cedro que caiu sobre o telhado. A zona envolvente encontra-se visivelmente descuidada, com árvores partidas, ervas altas, folhas e lixo acumulados no chão.

Junto aos bancos destinados ao descanso de transeuntes e visitantes, a vegetação cresce sem que se note uma manutenção regular do espaço. Do lado esquerdo da capela permanecem outras bases e raízes de árvores por retirar, dificultando ou mesmo impedindo a circulação naquela zona.

Todo o conjunto transmite a sensação de que ali se fez apenas o estritamente necessário para afastar o perigo mais imediato, deixando tudo o resto para um dia que tarda em chegar.
Fonte de São Lourenço tomada pelas ervas
Do outro lado da Estrada Nacional 110, a situação da Fonte de São Lourenço é igualmente preocupante. Ervas e plantas apoderam-se do monumento e do espaço envolvente, transmitindo uma imagem de absoluto abandono.
A fonte, datada de 1746, é constituída por um tanque retangular e uma bica que nasce sob o escudo português. Possui um alpendre apoiado em pilares e colunas, bancos laterais e um frontão de volutas, coroado por uma cruz.
Não se trata de um fontanário sem relevância patrimonial. A Fonte de São Lourenço e o terreiro anexo estão classificados como Imóvel de Interesse Público desde 1959. O seu valor histórico, arquitetónico e social encontra-se oficialmente reconhecido.

Afinal, quem tem a responsabilidade de cuidar?
Importa esclarecer a quem pertence este conjunto e qual a entidade responsável pela sua conservação e pela limpeza dos terrenos envolventes.
A consulta das fichas oficiais do património permite confirmar as classificações da capela, do padrão, da fonte e do terreiro, mas não esclarece de forma inequívoca quem detém atualmente a propriedade nem a quem compete assegurar a manutenção quotidiana dos espaços. No caso da fonte, o inventário patrimonial indica que se encontra “sem afetação”.
Estará alguma parte deste património ou dos terrenos sob tutela do Ministério da Defesa ou do Exército? Compete a manutenção ao Estado, ao Município de Tomar, à União das Freguesias ou a outra entidade? Existem terrenos pertencentes a diferentes proprietários?
São questões às quais importa responder.
Caso se confirme que alguma parte do espaço se encontra sob tutela militar, seria difícil compreender que não fossem mobilizados meios para uma operação de limpeza e dignificação. Tomar é uma terra de profunda tradição militar e continua a acolher o Regimento de Infantaria n.º 15. Uma colaboração entre o Exército, o Município e as entidades responsáveis pelo património poderia ajudar a devolver dignidade ao local, desde que realizada com o devido acompanhamento técnico, atendendo à classificação dos monumentos.
Mesmo que o espaço não pertença às Forças Armadas, nada impede que seja estabelecida uma parceria institucional. A ligação daquele lugar à concentração das tropas portuguesas antes da Batalha de Aljubarrota torna particularmente simbólica uma eventual participação do RI15 numa ação de valorização do conjunto.
Um lugar ligado à independência de Portugal
A Capela de São Lourenço não é um edifício sem história. Foi erguida no início do século XVI por Aires de Quental, feitor-mor de D. Manuel I, e assinala o local onde, segundo a tradição, se reuniram, a 10 de agosto de 1385, as tropas de D. João I e do Condestável D. Nuno Álvares Pereira.
Daquele lugar partiram em direção a Aljubarrota, onde, quatro dias depois, se travaria uma das batalhas mais decisivas da História de Portugal. A vitória portuguesa garantiu a independência nacional e consolidou a dinastia de Avis.
A capela e o Padrão de D. João I estão classificados como Monumento Nacional. A Fonte de São Lourenço, situada do outro lado da estrada, e o terreiro anexo encontram-se classificados como Imóvel de Interesse Público. Falamos, portanto, de um conjunto onde se cruzam a memória da independência portuguesa, a arquitetura manuelina, o património religioso, a paisagem ribeirinha do Nabão e uma antiga entrada na cidade de Tomar.
O património não pode esperar até cair
É legítimo perguntar quem acompanha o estado de conservação deste monumento. Foi realizada alguma inspeção ao telhado depois da queda do cedro? Existem telhas partidas? Há risco de infiltrações? Está prevista a remoção das bases das árvores e dos restantes detritos? Quando será limpa a Fonte de São Lourenço? Quem é responsável pela manutenção e dignificação de todo o conjunto? São perguntas simples que exigem respostas concretas.
Preservar o património não significa apenas intervir quando uma parede ameaça ruir ou quando um telhado começa a deixar entrar água. Significa prevenir, vigiar, limpar e cuidar. Significa compreender que uma pequena reparação feita a tempo pode evitar, mais tarde, uma intervenção demorada e dispendiosa.
A Capela, o Padrão e a Fonte de São Lourenço representam uma parte da memória coletiva de Tomar e do país. Não merecem permanecer rodeados por árvores partidas, ervas altas, lixo acumulado, raízes por remover e restos de um cedro espalhados sobre o telhado.
As prioridades impostas pela tempestade são compreensíveis. O abandono prolongado já não é.
Se este património tivesse voz, talvez pedisse apenas aquilo que qualquer monumento classificado deveria poder esperar: respeito, vigilância e conservação. Antes que o próximo inverno transforme o desleixo de hoje num prejuízo irreparável amanhã.
Isabel Miliciano






