“O Dia em que a Escola me Chamou Professor de Teatro”. Há quinze anos, quando a Escola EB 2,3 Gualdim Pais se ergueu no panorama nacional com 5 em todos os domínios da avaliação externa, eu vivi um daqueles instantes que ficam cravados na pele como brasão antigo: as equipas da Inspeção‑Geral da Educação, entravam pela escola dentro com o rigor dos tempos em que se avaliava com verdade — e não com burocracia.
Vieram várias vezes. Ouviram. Perguntaram. Sentiram o pulsar da casa. E no relatório final, entre números, gráficos e pareceres, deixaram uma frase que nunca esquecerei: “Professor de Teatro” – João Patrício.
Eu, que nunca ambicionei tal título, que nunca subi ao Olimpo dos grandes mestres da cena, fui ali reconhecido — não pelo cargo, mas pela alma com que vivia o teatro dentro da escola. Foi como se alguém tivesse visto, por um instante, aquilo que eu sempre escondi: a chama antiga que me acompanha desde os tempos do CNA -Tomar desde os palcos improvisados, desde as histórias que conto para que o mundo não adormeça e que me levaram ao Fatias de Cá.
E havia, na liderança da escola, uma mulher que hoje é Secretária de Estado: DRª Luísa Oliveira. Naquele tempo, era diretora. Hoje, é governante. Mas para mim, será sempre a pessoa que soube ler a escola como quem lê um livro vivo — com páginas que respiram, com alunos que crescem, com professores que se reinventam. A ela, devo parte desse reconhecimento. À escola, devo o palco. Aos inspetores, devo a surpresa de me ver escrito como nunca me tinha visto. Porque naquele tempo — e só quem lá esteve sabe — a avaliação externa não era um ritual mecânico. Era um encontro humano, uma travessia, uma espécie de peregrinação laica onde cada gesto contava: o sorriso do aluno, o silêncio atento da sala, o cheiro dos corredores, o brilho das atividades, a força das histórias.
E eu, filho bastardo de reis imaginários, narrador de vidas, ator ocasional, professor por destino e por teimosia, fiquei ali marcado por uma frase que não pedi, mas que me honrou: Professor de Teatro. Talvez nunca lá chegue. Talvez nunca seja, oficialmente, aquilo que escreveram. Mas naquele dia, naquele relatório, naquela escola que brilhou como poucas, alguém viu em mim o que eu sempre tentei esconder: que o teatro é a minha forma de respirar.
João Patrício





