O carteiro já não toca duas vezes. Houve um tempo em que a chegada do carteiro marcava o ritmo dos dias nas aldeias. Era uma presença regular, quase sempre conhecida, que transportava notícias de familiares, pensões, vales, encomendas e correspondência oficial. Hoje, em muitas localidades rurais, já não se espera que o carteiro toque duas vezes. Há lugares onde será uma sorte se passar uma vez por semana.
A degradação da distribuição postal está a tornar-se um problema grave para quem vive mais distante dos principais centros urbanos. Não se trata apenas de cartas entregues com alguns dias de atraso. Há correspondência com faturas da água e da eletricidade, avisos de marcação de consultas médicas e notificações da Autoridade Tributária que chega quando os prazos já estão a terminar — ou até depois de terem terminado.
Foram registadas situações em que cartas relacionadas com o pagamento do Imposto Municipal sobre Imóveis chegaram aos destinatários cerca de um mês depois, quando o prazo já tinha expirado. Casos semelhantes terão sido confirmados por funcionários da Autoridade Tributária, confrontados com cidadãos que procuravam explicar por que razão não tinham realizado o pagamento dentro do período estabelecido.
A correspondência pode ter sido expedida atempadamente, mas isso pouco vale quando permanece dias ou semanas à espera de distribuição. Para o Estado, a obrigação foi comunicada; para o cidadão, porém, a informação nunca chegou em tempo útil.
As consequências podem traduzir-se em juros, coimas, cortes de serviços, perda de consultas ou deslocações desnecessárias. E cabe frequentemente ao destinatário provar que não agiu com negligência, apesar de o atraso ter ocorrido num serviço sobre o qual não tem qualquer controlo.

Um país a várias velocidades
A situação é particularmente preocupante nas zonas rurais, onde reside uma população maioritariamente envelhecida e onde nem todos têm acesso regular à Internet ou facilidade para utilizar plataformas digitais. Pedir a estas pessoas que consultem diariamente o correio eletrónico, o Portal das Finanças ou as áreas reservadas das empresas prestadoras de serviços é ignorar a realidade em que vivem.
Portugal modernizou muitos serviços públicos e privados, mas não garantiu que todos os cidadãos conseguissem acompanhar essa transformação. Enquanto uma parte do país recebe faturas no telemóvel, paga impostos através de aplicações e consulta notificações pela Internet, outra continua dependente da carta que chega à caixa do correio.
É esta desigualdade que torna a degradação da distribuição postal mais do que uma simples falha operacional. Estamos perante uma questão de coesão territorial e de igualdade no acesso aos serviços. O local onde uma pessoa vive não pode determinar se recebe ou não, dentro do prazo, uma comunicação essencial.
Um serviço que perdeu regularidade
Depois da privatização dos CTT, o serviço postal sofreu uma alteração profunda, sobretudo aos olhos das populações que dele continuam mais dependentes. Multiplicaram-se as queixas relacionadas com atrasos, extravios e redução da frequência da distribuição. Longe vão os tempos em que os correios portugueses eram apontados como exemplo de eficiência e organização.
A falta de recursos humanos e a constante mudança de carteiros contribuem para agravar o problema. Um profissional que desconhece o território terá naturalmente mais dificuldades em identificar moradas, casas sem numeração clara, caminhos isolados ou pessoas conhecidas apenas pelo nome por que sempre foram tratadas na aldeia.
No passado, os carteiros permaneciam durante muitos anos nas mesmas localidades. Conheciam as famílias, sabiam onde viviam as pessoas e percebiam quando uma ausência ou uma situação fora do habitual deveria causar preocupação.
Mais do que funcionários encarregados de entregar correspondência, faziam parte da comunidade. Em muitos lugares eram considerados amigos. Chegavam a ler cartas aos mais idosos com dificuldades de visão ou de leitura, ajudavam a esclarecer uma notificação e levavam consigo pequenos recados entre vizinhos.
Esta proximidade não constava certamente das obrigações formais do serviço postal, mas tinha um enorme valor humano e social. Para muitas pessoas que viviam sozinhas, a passagem do carteiro era também um contacto com o exterior e uma forma discreta de combater o isolamento. 
Quando uma carta perdida causa prejuízos
Uma carta extraviada não é apenas um envelope que não chegou ao destino. Pode conter a marcação de uma consulta aguardada durante meses, uma convocatória, um aviso de pagamento, um documento oficial ou uma informação que exige resposta dentro de determinado prazo.
O cidadão acaba penalizado duas vezes: primeiro porque não recebeu a correspondência; depois porque tem de suportar as consequências do atraso ou demonstrar que não teve responsabilidade no incumprimento.
As entidades emissoras também não podem ignorar esta realidade. Quando estão em causa impostos, consultas, prestações sociais ou outros direitos fundamentais, não deveria bastar depositar uma carta no circuito postal e considerar o cidadão automaticamente informado. É necessário assegurar que a comunicação chegou efetivamente ao destinatário, sobretudo quando o seu incumprimento pode originar coimas ou outros prejuízos.
O desaparecimento silencioso de uma profissão
As novas tecnologias estão a substituir progressivamente a correspondência física. O correio eletrónico, as faturas digitais e as plataformas eletrónicas tornaram as comunicações mais rápidas, económicas e fáceis de arquivar. É uma evolução difícil de contrariar e, em muitos aspetos, positiva.
Mas essa transformação está também a conduzir ao desaparecimento lento de uma profissão que chegou a ocupar milhares de trabalhadores de norte a sul do país. Com ela perde-se não apenas uma função, mas também um conhecimento profundo do território e uma relação de confiança construída ao longo de gerações.
A modernidade não pode servir de justificação para abandonar quem ficou do outro lado da transição digital. Enquanto existirem cidadãos dependentes da correspondência em papel, o serviço postal deve assegurar uma distribuição regular, atempada e digna, independentemente de a morada se situar no centro de uma cidade ou no lugar mais distante de uma freguesia rural.
O carteiro poderá já não tocar duas vezes. Mas há muitas aldeias onde os habitantes apenas pedem que ainda toque — e que o faça antes de terminar o prazo escrito na carta que leva consigo.
Isabel Miliciano






