Cerca de duas dezenas de trabalhadoras da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes concentraram-se, na tarde de terça-feira, junto à entrada principal do lar de idosos da instituição, numa ação de protesto marcada pelo descontentamento face ao pagamento faseado dos salários, avança a Antena Livre.
A concentração, de caráter quase espontâneo, surgiu na sequência de um apelo do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas, com o objetivo de alertar para uma situação que, segundo as trabalhadoras, se arrasta desde janeiro deste ano. No final da ação, foi aprovada uma moção a enviar à União das Misericórdias, ao Ministério do Trabalho e à Segurança Social.
De acordo com Teresa Faria, dirigente sindical responsável pelo setor social, no final de abril foi pago cerca de 55% do salário, sendo o restante liquidado “uma semana ou duas depois”. A responsável sublinha que a situação tem vindo a agravar-se, uma vez que inicialmente os pagamentos rondavam os 80%.
“Este é um grito de alerta dos trabalhadores”, afirmou aos jornalistas, destacando o impacto da situação em famílias com rendimentos mais baixos. “Há funcionárias que recebem o salário mínimo e têm rendas para pagar no início do mês. Isto pode prejudicar bastante as famílias”, alertou.
Durante o protesto, a dirigente sindical criticou ainda a gestão da instituição, acusando-a de justificar os atrasos com falta de verbas. “Não pode ser fazer obras e depois os trabalhadores ficarem sem o ordenado”, afirmou, apontando também falhas na fiscalização e defendendo um papel mais ativo da Segurança Social.
Teresa Faria deixou ainda um aviso: caso os salários não sejam pagos integralmente no final do mês, poderá avançar uma greve. A dirigente referiu também atrasos no pagamento de retroativos salariais desde o início do ano e alertou para outros casos preocupantes no distrito, como o do Centro Social do Pego.
Contactado pela AL, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, João Pombo, reconheceu dificuldades financeiras, mas garantiu que a situação é temporária e está em vias de resolução.
“Não escondemos que estamos a atravessar uma fase complicada”, afirmou, apontando como principais fatores o aumento do salário mínimo, a atualização das tabelas remuneratórias e a subida generalizada dos custos operacionais. Como exemplo, referiu o aumento da fatura mensal de gás, que passou de cerca de 4.000 para mais de 5.300 euros.
O responsável explicou que a instituição optou pelo pagamento faseado dos salários como medida temporária de gestão de tesouraria, assegurando que os valores em falta são regularizados “ao fim de quatro a seis dias”.
Para estabilizar a situação financeira, João Pombo revelou que a instituição está a aguardar a atualização das comparticipações da Segurança Social, além de recorrer a um empréstimo bancário — já aprovado — e à venda de património.
Segundo o provedor, a massa salarial continua a ser o principal encargo da instituição, ascendendo a cerca de 2,7 milhões de euros anuais, num universo de 135 trabalhadores. O orçamento previsto para 2026 reflete um aumento significativo, em linha com a atualização dos salários.
A resolução imediata da situação deverá passar pela disponibilização do empréstimo bancário nos próximos dias.






