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Ponte da Chamusca: quando a falta de planeamento faz perder oportunidades

A nova ponte sobre o Tejo entre a Chamusca e a Golegã voltou esta semana à agenda do Governo. Os presidentes das duas câmaras municipais reuniram-se na quarta-feira com o ministro das Infraestruturas e Habitação para reforçar a urgência de uma nova travessia e alertar para os constrangimentos da atual Ponte João Joaquim Isidro dos Reis.

Ponte da Chamusca: quando a falta de planeamento faz perder oportunidades
Presidentes das câmaras da Chamusca e Golegã com o Ministro das Infraestruturas, Pinto Luz

A reivindicação não é nova. Há mais de uma década que populações e autarcas dos dois concelhos reclamam uma nova ligação sobre o Tejo, numa travessia fundamental para a mobilidade das pessoas e das empresas e para a ligação entre as duas margens.

O problema é que o tempo passou e a nova ponte nunca chegou a ter o grau de preparação necessário para passar da reivindicação para um projeto capaz de ser concretizado. E foi precisamente aí que se perdeu uma oportunidade.

O PRR chegou. A ponte não estava preparada

O Plano de Recuperação e Resiliência criou uma oportunidade financeira extraordinária para Portugal. Entre os seus investimentos estava a componente C07 – Infraestruturas, que incluía verbas para intervenções na rede rodoviária, nomeadamente para eliminar missing links e aumentar a capacidade da rede.

É importante sublinhar que o PRR não excluía pontes. As infraestruturas rodoviárias foram contempladas e existiram investimentos que incluíram obras de arte e travessias. Mas a nova ponte Chamusca–Golegã não integrou a carteira de projetos financiados. A razão é particularmente reveladora: não existiam estudos e projeto suficientemente desenvolvidos para que a obra pudesse ser apresentada como uma intervenção pronta para financiamento e execução.

A necessidade era conhecida. A reivindicação existia. Os alertas sucediam-se. Faltava aquilo que permite transformar uma necessidade numa obra pública: planeamento, estudos, projeto e preparação administrativa.

O resultado foi que, quando apareceu uma das maiores oportunidades de financiamento público das últimas décadas, a região não tinha uma nova ponte pronta para candidatar. Não se perdeu o PRR porque o dinheiro não existia. Perdeu-se a oportunidade porque a obra não estava preparada.

Uma reivindicação com oito anos de história política

A nova travessia já era uma prioridade política há vários anos. Em 2018, a Assembleia da República aprovou uma recomendação ao Governo para que fossem procuradas soluções de financiamento para os troços em falta do IC3 e fosse dada prioridade à construção de uma nova travessia do Tejo entre a Golegã e a Chamusca. Passaram oito anos. A ponte continuou sem projeto. E, entretanto, surgiu o PRR.

Esta sucessão de datas expõe uma das maiores fragilidades do investimento público em Portugal: muitas vezes, o poder político reconhece um problema, anuncia uma intenção, responde à pressão das populações, mas não desenvolve atempadamente os projetos necessários para concretizar a solução.

Governar não é apenas identificar necessidades. É antecipá-las. É estudar soluções antes de surgir o financiamento. É ter projetos preparados quando aparecem fundos disponíveis. É garantir que uma região não fica simplesmente à espera de que alguém, algum dia, decida avançar.

A ponte não desapareceu dos planos

Apesar da oportunidade perdida no PRR, a nova travessia voltou agora a estar formalmente prevista. A Resolução do Conselho de Ministros n.º 69/2025 incluiu entre os projetos rodoviários prioritários o eixo A13/IC3 – Vila Nova da Barquinha (A23)/Almeirim (A13).

Posteriormente, em resposta a uma pergunta parlamentar sobre os problemas da atual Ponte da Chamusca, o Governo confirmou que, no âmbito deste projeto, está prevista uma nova travessia sobre o rio Tejo entre a Golegã e a Chamusca.

Em março de 2026, a Infraestruturas de Portugal avançou com o lançamento dos estudos para o novo eixo, com cerca de 45 quilómetros, incluindo a nova travessia.

É um passo importante. Mas é também uma demonstração de quanto tempo se perdeu. Só agora está a ser desenvolvido o trabalho que deveria permitir definir a solução, preparar o projeto e criar condições para avançar para a construção.

Primeiro estudar, depois construir

A construção de uma ponte desta dimensão não começa com a abertura de um concurso. Antes da obra é necessário estudar alternativas, avaliar tráfego, analisar o território, desenvolver estudos geológicos e ambientais, definir a localização, elaborar projetos, tratar de expropriações e licenciamentos e preparar o procedimento de contratação. Tudo isso leva tempo.

Por isso, o planeamento é uma das responsabilidades fundamentais de quem governa. Não basta esperar que uma infraestrutura atinja o limite da sua capacidade para começar a pensar numa alternativa. Não basta reivindicar uma obra durante anos. Não basta anunciar que uma ponte é necessária. É preciso preparar o projeto antes de ser urgente. No caso da Chamusca e da Golegã, a urgência era conhecida há muito. E quando o PRR abriu uma janela financeira excecional, a região não tinha a obra preparada para a aproveitar.

Uma oportunidade perdida

O caso da Ponte da Chamusca deve ser visto para além da disputa partidária ou da responsabilidade de um determinado Governo. A responsabilidade pelo atraso atravessa sucessivos ciclos políticos.

Durante anos, diferentes governos tiveram conhecimento da necessidade de uma nova travessia. Diferentes autarcas fizeram reivindicações. A Assembleia da República recomendou a construção. As populações continuaram a alertar para os problemas.

Mas faltou o essencial: um projeto preparado e pronto para avançar quando surgiu a oportunidade.

É esta a falha que não pode ser ignorada. Porque os fundos europeus não aparecem todos os anos com a mesma dimensão, as mesmas condições e os mesmos prazos.

O PRR foi uma oportunidade extraordinária e temporária. A nova ponte da Chamusca não estava preparada quando essa oportunidade chegou. Agora será necessário começar outra vez pelo princípio: estudar, projetar, decidir, financiar e só depois construir.

A próxima oportunidade não pode ser perdida

A nova travessia está agora integrada no projeto A13/IC3 e é assumida pelo Governo como parte da solução para a ligação entre Vila Nova da Barquinha e Almeirim. Existe, portanto, um caminho definido. O que falta é percorrê-lo até ao fim.

A reunião dos presidentes das câmaras da Chamusca e da Golegã com o ministro das Infraestruturas mostra que a pressão local continua. E essa pressão é legítima. Mas, depois de tantos anos, a região precisa de mais do que reconhecimento político.

Precisa de prazos, projeto e financiamento

A história da Ponte da Chamusca deixa uma lição que deveria ser transversal a qualquer Governo: as obras públicas não se planeiam quando aparece o dinheiro. Planeiam-se antes, para que, quando o dinheiro aparece, seja possível construir.

Foi isso que faltou quando o PRR esteve disponível. Agora há uma nova oportunidade. Que desta vez não falte o projeto.

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