O Convento de Cristo não precisa de chamadas de valor acrescentado para ser uma maravilha. Há qualquer coisa que me incomoda profundamente quando vejo o Convento de Cristo apresentado como um monumento que precisa dos nossos votos — pagos — para conquistar um lugar entre as maravilhas de Portugal.
Não porque lhe falte grandeza. Precisamente pelo contrário.
Classificado como Património Mundial pela UNESCO desde 1983, o conjunto monumental de Tomar reúne séculos de história, arte e arquitetura. Ligado à Ordem do Templo e, posteriormente, à Ordem de Cristo, guarda na Charola, na arquitetura manuelina e nos seus claustros testemunhos excecionais da história portuguesa. O seu valor universal está reconhecido há mais de quatro décadas. UNESCO
Como compreender, então, que uma das joias do património nacional e mundial seja colocada numa competição em que a passagem à fase seguinte depende de votos que custam dinheiro?
Na edição de 2026 das Novas 7 Maravilhas de Portugal, o Convento de Cristo concorre na categoria Religião. Na meia-final regional, esteve a concurso com o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e a Sé Velha de Coimbra. Na final regional, realizada a 15 de agosto, na Curia, disputou com a Sé Velha a passagem à fase nacional, conseguindo o apuramento. São também estes monumentos merecedores de respeito, estudo e divulgação. A minha objeção não é à sua presença: é ao modelo que os coloca nesta disputa.
O Convento disputa agora um lugar na final nacional, com votação até 5 de setembro. Mas a minha reserva manter-se-á mesmo que vença o concurso. Não depende do resultado.
A organização disponibiliza votação por chamada de valor acrescentado e pela aplicação TVI Pass, anunciando um custo de um euro mais IVA por voto. Na aplicação, é possível adquirir pacotes para votar várias vezes. Assim, a contagem não corresponde necessariamente ao número de pessoas que preferem determinado monumento. Pode também refletir a capacidade de mobilização e de despesa dos seus apoiantes
É esta a medida que queremos usar para distinguir o nosso património?
Por rigor, importa reconhecer que o concurso prevê uma seleção inicial por especialistas e que a votação é auditada pela PwC. Não está aqui em causa insinuar uma contagem irregular. Está em causa discutir se uma votação paga é uma forma adequada de consagrar bens culturais desta natureza.
Dir-se-á que a iniciativa promove os monumentos, atrai visitantes e leva imagens do património a públicos que, de outra forma, talvez não lhes prestassem atenção. Reconheço esse argumento. O próprio Turismo de Portugal apoia a iniciativa, apresentando-a como um instrumento de promoção e valorização do património edificado.
Mas não haverá formas mais nobres, mais duradouras e culturalmente mais exigentes de cumprir esse objetivo?
Documentários, reportagens, programas educativos, visitas comentadas, projetos com escolas, investigação e divulgação acessível podem aproximar as pessoas do património sem transformar essa relação numa sucessão de apelos para telefonar e pagar.
Uma eventual eliminação não retirará uma pedra à grandeza do Convento de Cristo. Mas considero desnecessário sujeitá-lo à encenação de uma derrota, como se tivesse ficado aquém de um reconhecimento que a história e a UNESCO há muito lhe conferiram. O que me parece humilhante é a situação criada pelo formato, nunca o monumento ou os outros concorrentes.
Há ainda uma dimensão financeira que merece esclarecimento.
Segundo o regulamento, a iniciativa é organizada pela empresa EIPWU, Lda. A formalização de uma candidatura singular implica uma taxa administrativa de 240 euros mais IVA; uma candidatura múltipla, 700 euros mais IVA. O documento admite também encargos adicionais em determinadas ações promocionais.
Quem apresentou a candidatura do Convento de Cristo? Quem assumiu os encargos? Qual foi o montante efetivamente pago? Houve financiamento público? Que benefícios concretos foram previstos para o monumento e para Tomar?
A informação pública consultada não permite responder com segurança a estas perguntas. Por isso, devem ser dirigidas às entidades responsáveis, sem atribuir decisões ou despesas a quem não sabemos se as tomou.
E quanto rende esta participação à organização? Que receitas resultam dos votos associados ao Convento? Como são repartidas? Existe alguma verba destinada à conservação ou valorização do património participante?
Não conhecemos esses valores. Também não seria rigoroso confundir o total pago pelos votantes com o lucro da empresa: há impostos, custos e uma eventual repartição de receitas a considerar. Mas desconhecer as contas não torna a pergunta menos legítima.
Quando um património que pertence a todos é associado a uma iniciativa comercial, é razoável exigir clareza sobre os encargos, as receitas e o benefício público.
Não censuro quem vota por amor a Tomar. Compreendo esse sentimento. Questiono que se peça às pessoas que o traduzam repetidamente em pagamentos.
O Convento de Cristo merece ser conhecido, cuidado e transmitido às próximas gerações. Merece uma política cultural à altura da sua importância.
O seu valor não se conta em chamadas. E Tomar não precisa de pagar para provar que possui uma maravilha.
Isabel Miliciano




