Fraústo da Silva: «Tomar vai ser sempre a minha cidade», mas a cidade esqueceu-o. Nasceu em Tomar há precisamente 93 anos. Cientista de projeção internacional, fundador e primeiro reitor da Universidade NOVA de Lisboa, antigo ministro da Educação e presidente do Centro Cultural de Belém, João Fraústo da Silva teve uma intervenção fundamental na instalação do ensino superior em Tomar. Foi também colaborador d’ O Templário, onde publicou poemas assinados simplesmente «João José». Uma vida que merece ocupar um lugar mais visível na memória da cidade.
Fraústo da Silva: o tomarense que ajudou a construir o futuro e nunca esqueceu a sua cidade
«Tomar vai ser sempre a minha cidade». A frase deu título a uma entrevista de João Fraústo da Silva a O Templário, recuperada na revista especial de aniversário de agosto de 2006. Hoje, 30 de agosto de 2026, quando se assinalam 93 anos do seu nascimento, aquelas palavras ajudam a reencontrar o homem para além dos cargos: o jovem que escrevia poemas, o antigo aluno do Colégio Nun’Álvares, o amigo dos passeios no Mouchão e o cientista que percorreu o mundo sem perder a ligação à terra onde nasceu.
João José Rodiles Fraústo da Silva nasceu em Tomar a 30 de agosto de 1933 e morreu em Lisboa a 10 de junho de 2022, aos 88 anos. Deixou uma obra que atravessa a investigação científica, a universidade, a administração pública e a cultura. Recordá-lo é também perguntar se Tomar tem dado a conhecer suficientemente o seu percurso e o contributo que prestou à própria cidade.
Nomeou a Comissão Instaladora da Escola Superior de Tecnologia de Tomar
Esse contributo tem uma expressão concreta no ensino superior tomarense. Enquanto ministro da Educação, Fraústo da Silva nomeou, em outubro de 1982, a comissão instaladora da Escola Superior de Tecnologia de Tomar, presidida por Pacheco de Amorim e integrada por Júlio Dias das Neves e Maria do Rosário Baeta Neves. A escola tinha sido criada em 1979, mas foi com aquela comissão que passou a dispor da estrutura encarregada da sua instalação. Os primeiros cursos começaram a funcionar em 1986, na Avenida Cândido Madureira.
Na génese do nascimento do Instituto Politécnico de Tomar
Importa distinguir as etapas: o Instituto Politécnico de Tomar foi formalmente criado em 1996, com efeitos a partir de janeiro de 1997. Mas a sua história não se compreende sem o caminho anterior, no qual a decisão de Fraústo da Silva ocupa um lugar que merece ser reconhecido. Mais do que uma ligação de nascimento, houve uma intervenção efetiva na construção de uma instituição que viria a alargar as oportunidades de formação na cidade e na região.
A dimensão nacional e internacional do seu percurso começara a afirmar-se muito antes. Licenciado em Engenharia Químico-Industrial pelo Instituto Superior Técnico, em 1958, doutorou-se pela Universidade de Oxford em 1962. A Academia das Ciências de Lisboa reconhece-o como um dos fundadores da química bioinorgânica, área dedicada ao estudo do papel dos elementos inorgânicos nos sistemas biológicos
Tomar deu ao mundo um cientista reconhecido internacionalmente
Em Portugal, foi pioneiro no desenvolvimento dessa área. A investigação e a colaboração com o cientista britânico Robert J. P. Williams deram origem a livros científicos, deixando uma herança que se prolongou no trabalho de outros investigadores. O grupo de Química Biológica da NOVA identifica expressamente Fraústo da Silva como o introdutor da química bioinorgânica no país.
Foi também fundador e primeiro reitor da Universidade NOVA de Lisboa, entre 1973 e 1975. A instituição reconheceu esse papel atribuindo-lhe a medalha do Senado, em 1999, e o doutoramento honoris causa, em 2001, além de dar o seu nome a uma residência universitária. Entre junho de 1982 e junho de 1983, integrou como ministro da Educação o Governo liderado por Francisco Pinto Balsemão. Presidiu ainda ao Instituto Nacional de Administração.
A cultura ocupou igualmente um lugar central na sua vida. Assumiu a presidência do Centro Cultural de Belém em 1996, exercendo-a durante cerca de uma década. Presidiu ao Conselho de Curadores da Fundação Oriente entre 1988 e 2014 e integrou o júri do Prémio Pessoa desde a sua criação, em 1987. Na evocação publicada pela Academia das Ciências, Armando Pombeiro recorda o seu gosto pela poesia, pelo piano, pela ópera e pela música.
Fraústo da Silva com uma edição do jornal O Templário, no qual publicou um dos seus artigos, por volta do ano de 1952.É, porém, na entrevista a O Templário, realizada por Elsa Ribeiro Gonçalves, publicada na revista especial aniversário de agosto de 2006, distribuída na edição n.º 812, da qual destacamos alguns dos pormenores referentes às suas raízes e ao homem, que Tomar viu crescer.
Viveu em Tomar até aos 18 anos, numa casa entretanto desaparecida, perto da Praça de Touros. Aprendeu piano com o «mestre Ventura», da Banda Gualdim Pais. Guardava as memórias dos cafés, dos filmes e dos bailes, da Feira de Santa Iria e das rivalidades musicais entre as bandas Gualdim Pais e Nabantina. Recordava os passeios no Mouchão com os amigos da rua, da cidade e do Colégio Nun’Álvares, companheiros de aventuras.
«Conservo ainda uma grande ligação a Tomar», afirmou ao jornal. Reconhecia que a cidade mudara e interrogava-se sobre o peso da saudade na forma como a via. A Tomar da juventude continuava presente na sua memória.
Assinava no Jornal O Templário por «João José»
No Colégio Nun’Álvares, criou o jornal académico «Folha de Couve», escrito pelos alunos e marcado pelo humor. A escrita acompanhou-o depois em O Templário: foi um dos primeiros colaboradores da segunda fase do jornal, relançada em fevereiro de 1952. Estreou-se na edição n.º 27 com «Poema de Vida e da Morte», assinando simplesmente «João José».
Segundo a entrevista, manteve essa assinatura ao longo dos muitos anos de colaboração. Via no jornal uma imprensa «mais liberal, mais aberta». E, quando recebeu a entrevistadora, mostrou-lhe um exemplar dos anos 1950 com textos da sua autoria. Décadas depois, ainda guardava as páginas onde o jovem tomarense encontrara espaço para publicar.
Em 2008, voltou a associar-se à vida d’ O Templário, participando nas comemorações do 20.º aniversário da quarta fase do jornal, ocasião em que recordou o início dessa colaboração.
No dia em que se completam 93 anos do seu nascimento, há razões para devolver visibilidade a esta história. Pela ciência que desenvolveu, pelas instituições que ajudou a construir, pela cultura que serviu e pelo contributo para a instalação do ensino superior em Tomar.
Para além do seu reconhecido valor e percurso académico, foi sempre um homem simples e afável
O jovem que assinava «João José» tornou-se uma figura de projeção internacional. Mas continuou a guardar um jornal da sua terra e a reconhecer-se nas memórias da cidade. Se Tomar foi sempre a sua cidade, cabe também a Tomar manter viva a memória de Fraústo da Silva.
Fontes: arquivo d’ O Templário; história institucional do IPT; Universidade NOVA de Lisboa; Academia das Ciências de Lisboa; Lusa.
Isabel Miliciano




