Passe verde, comboios a abarrotar e passageiros sem dignidade. Viajar de comboio entre o Entroncamento e Lisboa tornou-se, nas primeiras horas da manhã, uma prova diária de resistência para centenas de trabalhadores. O Passe Ferroviário Verde trouxe mais passageiros, mas as carruagens não aumentaram. Promoveu-se a procura sem garantir uma oferta capaz de lhe responder.
Terminou agosto. Acabaram as férias para muitos portugueses e regressou o martírio diário aos comboios Regionais e InterRegionais que, pelas primeiras horas da manhã, fazem o percurso em direção a Lisboa-Santa Apolónia.
Por volta das sete horas, centenas e centenas de passageiros entram no Entroncamento e nas principais estações ao longo da Linha do Norte. São trabalhadores que se dirigem para Lisboa e para a sua periferia. Levantam-se de madrugada, deixam as suas famílias ainda a dormir e enfrentam uma longa deslocação antes de iniciarem o dia de trabalho.
O mínimo que deveriam encontrar era um transporte público com condições de segurança, conforto e dignidade. Mas aquilo que demasiadas vezes lhes é oferecido são carruagens sobrelotadas, corredores cheios e viagens inteiras feitas de pé.
Do Entroncamento a Lisboa, a palavra de ordem parece ser apenas uma: aguenta.
A situação não é nova nem resulta de uma impressão isolada. Vários órgãos de comunicação social já deram voz aos protestos dos passageiros, relatando que o comboio com partida de Tomar às 6h50 chegou ao Entroncamento de tal forma cheio que vários utentes foram obrigados a seguir viagem de pé. Em julho, a própria Câmara Municipal do Entroncamento pediu ao presidente do Conselho de Administração da CP o reforço da capacidade das composições com partida daquela estação, justificando-o com o aumento da procura.
Portanto, a CP conhece o problema. O Governo também não pode dizer que o desconhece.

Um passe mais barato não cria lugares sentados
O Passe Ferroviário Verde, criado em outubro de 2024, foi apresentado como uma importante medida de mobilidade. Por 20 euros mensais, permite viajar nos comboios Regionais e InterRegionais e, mediante reserva, nos Intercidades em segunda classe. A medida é positiva. Facilita a vida a milhares de pessoas, reduz os encargos das famílias e incentiva a utilização do transporte público. Mas houve uma questão essencial que parece ter sido esquecida: se o preço baixa e o número de passageiros aumenta, é necessário aumentar também a capacidade dos comboios.
Não basta vender mais passes. É preciso criar mais lugares.
Os próprios números da CP mostram a dimensão da mudança. Em 2025, os serviços Regionais e InterRegionais transportaram 31,7 milhões de passageiros, contra 15,3 milhões no ano anterior. Estamos perante um crescimento de 107,1% — mais do dobro da procura num único ano. Como poderia uma oferta praticamente inalterada absorver tamanho aumento sem provocar sobrelotação?
Criou-se o Passe Ferroviário Verde, incentivaram-se os cidadãos a deixar o automóvel em casa, falou-se de sustentabilidade e de descarbonização, mas não se colocaram carruagens suficientes nos horários em que milhares de pessoas precisam efetivamente do comboio para trabalhar. A política tarifária avançou muito mais depressa do que a capacidade do serviço.
Como sardinhas em lata
Nos horários de maior procura, há passageiros que percorrem dezenas de quilómetros de pé, comprimidos nos corredores e junto às portas. A cada paragem entram mais pessoas em Santarém, Vila Franca de Xira, Alverca e noutras estações, tornando difícil circular dentro da composição ou até chegar à saída.
Em dias de temperaturas elevadas, o problema pode tornar-se ainda mais grave. Já foram registadas avarias nos sistemas de ar condicionado e nem todo o material circulante oferece uma climatização adequada. As janelas não abrem e o ar rapidamente se torna pesado e saturado. Com tanta gente concentrada num espaço reduzido, surgem inevitavelmente odores desagradáveis e um ambiente que está muito longe das condições mínimas desejáveis para uma viagem que, para muitos, se repete duas vezes por dia.
Não se trata de exigir luxo. Trata-se de exigir respeito.
Quem trabalha, paga impostos e escolhe um transporte público por ser mais económico e ambientalmente responsável não pode ser tratado como carga. Um passe de 20 euros não pode significar um serviço de segunda categoria. O preço reduzido é uma decisão política; a dignidade dos passageiros não pode ser reduzida com ele.
Lucros e recordes também criam responsabilidades
A CP apresentou em 2025 resultados líquidos de cerca de 4,8 milhões de euros, mais 166% do que no ano anterior. Transportou mais de 208 milhões de passageiros, o valor mais elevado deste século, e destacou publicamente o contributo do comboio para uma mobilidade mais sustentável. São números positivos. Mas os recordes de passageiros e os lucros apresentados com orgulho também criam responsabilidades.
O sucesso da CP não pode medir-se apenas pelo número de passes vendidos, pelas validações registadas ou pelo saldo das contas. Deve medir-se igualmente pela qualidade do serviço, pela pontualidade, pela capacidade das composições e pelas condições em que os passageiros chegam ao destino. Se a procura aumenta e os passageiros viajam pior, o sucesso fica incompleto.
A transição ambiental não pode ser feita à custa do sacrifício diário de quem aceitou deixar o automóvel em casa. Para convencer mais cidadãos a escolher o comboio é necessário que essa escolha seja fiável, segura e humanamente aceitável.
Os novos comboios chegarão a tempo?
A CP adquiriu 22 novas automotoras à Stadler, num investimento de 158 milhões de euros: 12 unidades bimodo e dez elétricas destinadas ao serviço regional. A primeira chegou a Portugal em dezembro de 2025 e tem sido vista a realizar testes e ensaios de homologação.
Cada uma destas unidades poderá transportar 369 passageiros, dos quais 204 sentados e 165 de pé. As primeiras entregas estavam previstas para o segundo semestre de 2026. A renovação da frota é indispensável e deve ser reconhecida. Mas permanece a pergunta: serão 22 comboios suficientes para responder às necessidades acumuladas em todo o país? E quantos serão destinados às ligações entre o Entroncamento e Lisboa, onde a sobrelotação é particularmente sentida nas horas de ponta?
Os passageiros não podem continuar indefinidamente à espera de uma solução que circula em testes, enquanto eles circulam apertados dentro de carruagens lotadas. É tempo de a CP atuar. Enquanto os novos comboios não entram plenamente ao serviço, é necessário reforçar as composições nos horários de maior procura, adaptar a oferta aos fluxos reais de passageiros e assegurar o funcionamento dos sistemas de climatização.
O Passe Ferroviário Verde foi criado para democratizar o acesso ao comboio. Não pode transformar-se num bilhete barato para uma viagem sem condições. Promover o transporte ferroviário é uma boa política. Duplicar a procura é um feito. Mas transportar mais pessoas só é verdadeiramente um sucesso quando essas pessoas são transportadas com segurança, conforto e dignidade.
Isabel Miliciano





