Câmara de Tomar quer comprar por 900 mil euros edifício que a Air Liquide manteve fechado. O edifício do antigo Tribunal do Trabalho foi adquirido pela multinacional em 2022 para acolher os seus serviços, mas nunca recebeu obras. O preço pago pela empresa continua por esclarecer.
A Câmara Municipal de Tomar prepara-se para adquirir, por 900 mil euros, o edifício do antigo Tribunal do Trabalho, situado no n.º 3 do Largo do Pelourinho. O imóvel pertence à Air Liquide Portugal, que o comprou em abril de 2022 com o objetivo de ali instalar os seus serviços, projeto que nunca chegou a concretizar-se.
A aquisição consta da ordem de trabalhos da reunião do Executivo Municipal marcada para 7 de setembro. A proposta do presidente da Câmara surge na sequência de pareceres e informações elaborados pelos serviços municipais nas áreas do Urbanismo, Obras, Finanças e Cultura.
Segundo o documento, a autarquia pretende comprar o imóvel à Air Liquide Portugal, Limitada, pelo preço de 900.000 euros. A concretização do negócio fica condicionada à aprovação da primeira alteração modificativa ao Orçamento e às Grandes Opções do Plano do Município para 2026.
Comprado em 2022, mas nunca recuperado
A Air Liquide adquiriu o edifício em abril de 2022, através da imobiliária Remax. Na altura, foi anunciado que a multinacional pretendia recuperar o imóvel para ali instalar os seus serviços, que funcionavam provisoriamente noutros espaços em Tomar.
Apesar das intenções então divulgadas, as obras nunca avançaram. Ao longo dos últimos quatro anos, o edifício permaneceu devoluto, encerrado e sem qualquer intervenção de recuperação ou adaptação.
Ainda em novembro de 2024, quando a Air Liquide assinalou três anos de atividade em Tomar, o antigo presidente da Câmara, Hugo Cristóvão, referiu publicamente que a empresa pretendia crescer na cidade e que já tinha adquirido o antigo Tribunal do Trabalho para aí se instalar. Manifestou também o desejo de que o processo avançasse rapidamente.
Em março de 2025, a demora na recuperação do edifício chegou a ser questionada numa reunião do Executivo Municipal. Porém, não surgiram sinais do início das obras e o projeto acabou por não se concretizar.
A empresa terá posteriormente alterado os seus planos de instalação, colocando agora o imóvel à disposição do Município.
Preço pago pela Air Liquide não é conhecido
O edifício esteve anunciado para venda em setembro de 2018 pelo preço de 780 mil euros. Quatro anos depois, foi adquirido pela Air Liquide, mas o valor efetivamente pago pela multinacional não foi divulgado nas notícias publicadas na altura.
A Câmara propõe agora pagar 900 mil euros, mais 120 mil euros do que o preço pelo qual o imóvel esteve anunciado em 2018, o que representa uma diferença de cerca de 15,4%.
Esta comparação não permite, contudo, concluir qual será a eventual valorização ou o lucro da Air Liquide com a venda, uma vez que continua por apurar o montante exato que a empresa pagou pelo imóvel em 2022.
O facto de o edifício não ter recebido quaisquer obras desde a compra torna ainda mais relevante conhecer a avaliação imobiliária que fundamenta o valor de 900 mil euros agora proposto pela autarquia.
Entre as questões que ficam por esclarecer estão o preço pago pela Air Liquide em 2022, a existência de uma avaliação independente, o estado de conservação do edifício e o investimento adicional que será necessário para a sua recuperação.
Um edifício com história no centro de Tomar
Localizado no gaveto do Largo do Pelourinho com a Rua Silva Magalhães, o edifício remonta ao século XIX e possui um relevante historial na cidade.
No último quartel daquele século funcionou ali o primeiro estúdio fotográfico de Tomar, criado por António Silva Magalhães. Mais tarde, o imóvel acolheu durante vários anos o Tribunal do Trabalho de Tomar, que permaneceu no local até dezembro de 2008, altura em que foi transferido para o primeiro andar do Palácio Alvaiázere.
Após a saída do tribunal, o edifício foi adquirido pela família de Filipe Antunes, antigo presidente da Junta de Freguesia da Junceira, entretanto falecido. Foi essa família que, em 2022, vendeu o imóvel à Air Liquide.
Utilização futura também por revelar.
A proposta incluída na ordem de trabalhos não explica qual será a utilização que a Câmara Municipal pretende dar ao edifício depois da aquisição, nem apresenta uma estimativa dos custos necessários para a sua recuperação. Uma das utilizações possíveis, será para a instalação de serviços camarários.
A discussão em reunião camarária deverá, por isso, esclarecer não apenas as razões que levam o Município a investir 900 mil euros na compra, mas também o projeto previsto para o imóvel, os encargos futuros com as obras e a avaliação que sustenta o preço acordado.
A recuperação de um edifício histórico e devoluto no centro da cidade poderá representar uma oportunidade de valorização urbana e patrimonial.





