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Beija-me depressa, que o marido é bom: os nomes atrevidos da doçaria regional

Beija-me Depressa, que o Marido é Bom: os nomes atrevidos da doçaria regional. Entre o Pirilau do Frade Ambrósio, os Beija-me Depressa e os Bolos de Cama, há um roteiro de tentações que começa na montra e acaba numa gargalhada. Terá a doçaria da região alguma coisa a ver com o erotismo ou somos nós que temos demasiada imaginação?

Quem percorrer a região à procura de doçaria tradicional arrisca-se a descobrir que o açúcar nem sempre é o ingrediente mais provocador. Às vezes, basta ler o nome. Na Barquinha pede-se um Pirilau do Frade Ambrósio, em Tomar um Beija-me Depressa e, quando a conversa já promete, aparecem os Bolos de Cama. Perante semelhante ementa, a pergunta impõe-se: estamos numa pastelaria ou no primeiro capítulo de um romance atrevido?

Comecemos por Vila Nova da Barquinha, onde o Pirilau do Frade Ambrósio dispensa grandes esforços de interpretação. A forma fálica explica o nome, mas a história acrescenta-lhe conventos, visitas e uma boa dose de malícia popular.

Beija-me Depressa, que o Marido é Bom: os nomes atrevidos da doçaria regional
O Pirilau do Freire Ambrósio

Segundo a narrativa divulgada por Teresa Nicolau, responsável pela recriação apresentada na Feira do Tejo de 2022, o frade do Convento do Loreto oferecia os bolos às religiosas de Odivelas, que lhes terão dado o sugestivo nome. A versão recriada foi descrita como tendo massa semelhante a brioche e marmelada entre os recheios. O episódio deve ser contado como lenda associada ao doce, sem o transformar num facto histórico comprovado. Ainda assim, há que reconhecer: poucos bolos chegam ao balcão com uma apresentação tão pouco discreta.

Em Tomar, a abordagem é mais romântica, embora igualmente despachada. O Beija-me Depressa não perde tempo com rodeios: faz o pedido logo na embalagem.

Beija-me Depressa, que o Marido é Bom: os nomes atrevidos da doçaria regional
Beija-me depressa

Criado em 1960 por Jacinto Teixeira de Carvalho, fundador da pastelaria Estrelas de Tomar, este pequeno doce de inspiração conventual tornou-se uma das imagens gastronómicas da cidade. Os bolinhos de doce de ovos, cobertos com açúcar de pasteleiro, apresentam-se numa caixa de doze. Uma dúzia de beijos parece uma quantidade razoável para começar uma visita.

Mas Tomar tem mais conversa para depois do beijo. Na apresentação da gastronomia local, a própria Câmara Municipal refere os “Bolos de Cama” e associa-lhes os Beija-me Depressa. O nome está, portanto, documentado; qualquer interpretação sobre o que se passava entre o tabuleiro e os lençóis fica por conta da imaginação do leitor. A designação, por si só, já merece lugar neste roteiro de doçaria com segundas intenções.

 

Beija-me Depressa, que o Marido é Bom: os nomes atrevidos da doçaria regional
Bolos de Cama

Em Ferreira do Zêzere, porém, convém repor a paz conjugal. Os doces conhecidos são os Bons Maridos e as Boas Esposas. Maridos enganados não ficaram confirmados nesta pesquisa — e seria injusto começar uma crise matrimonial por causa de um pastel.

Segundo o município, a receita dos Bons Maridos surgiu em 1970, pela mão de Beatriz Soeiro e Silva, vencendo um concurso gastronómico local. Emília Peixoto recuperou-a posteriormente para a pastelaria Pérola do Zêzere e, a pedido de clientes, criou a Boa Esposa. Ficou assim formado um casal que se pode levar para casa numa caixa, sem discussões sobre quem lava a loiça.

Beija-me Depressa, que o Marido é Bom: os nomes atrevidos da doçaria regional
Bons Maridos e Boas esposas

Alargando o passeio a Santarém, aparecem os Arrepiados. Não há aqui fundamento para lhes atribuir uma origem erótica: a ligação é apenas uma brincadeira com a palavra. Mas, depois de um beijo apressado e de tantos nomes sugestivos, até um arrepio parece encaixar na conversa. A promoção turística da cidade inclui-os entre as suas especialidades de tradição conventual.

Beija-me Depressa, que o Marido é Bom: os nomes atrevidos da doçaria regional
Os Arrepiados

Afinal, o que tem a doçaria regional a ver com o erotismo? Estes exemplos não demonstram uma intenção comum, muito menos autorizam a imaginar os conventos como cenários de todas as fantasias. Mostram, isso sim, como a tradição, a criatividade comercial e o humor popular conseguem pôr uma região inteira a sorrir antes da primeira dentada.

E deixam uma proposta para um passeio a dois: começar pelo beijo em Tomar, esclarecer o assunto do frade na Barquinha e terminar em Ferreira do Zêzere, onde, pelo menos na montra, os maridos são bons e as esposas também.

 

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