A associação ambientalista Quercus manifestou oposição ao projeto da Unidade de Produção de Biometano (UPB) prevista para Torres Novas, alertando para potenciais riscos de contaminação hídrica, emissões gasosas perigosas e incompatibilidades com o ordenamento do território. O projeto está em consulta pública até 3 de julho.
Em conjunto com o movimento cívico “Defender Árgea e Aldeias Vizinhas”, a Quercus exige a emissão de uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) desfavorável, defendendo que o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) apresenta falhas metodológicas e omite riscos ambientais relevantes.
Promovida pela Gasdaterra, a infraestrutura prevê o tratamento de cerca de 100 mil toneladas anuais de resíduos orgânicos e efluentes pecuários. A unidade deverá instalar-se a poucas centenas de metros de zonas habitacionais e a cerca de 2,5 quilómetros da cidade do Entroncamento.
Segundo a Quercus, uma das principais preocupações prende-se com as emissões gasosas e odoríferas resultantes da atividade da unidade, nomeadamente sulfureto de hidrogénio e amoníaco. Com base nos ventos dominantes da região, a associação considera que estes poluentes poderão ser transportados para a malha urbana do Entroncamento, afetando mais de 20 mil habitantes.
A organização ambiental sublinha ainda o impacto do aumento do tráfego pesado associado ao funcionamento da unidade, considerando que as vias locais previstas para o transporte de mercadorias não possuem condições adequadas para suportar circulação intensiva de camiões.
No plano hídrico, a Quercus alerta para o risco de contaminação das linhas de água próximas da instalação, que alimentam a Ribeira de Árgea e desaguam na Albufeira do Bonito, uma das principais zonas ecológicas e de lazer da região. A associação teme que eventuais acidentes industriais, falhas de contenção ou episódios de escorrência superficial em períodos de chuva intensa possam provocar danos ambientais significativos.
Outro dos pontos contestados prende-se com a compatibilidade do projeto com o Plano Diretor Municipal (PDM) de Torres Novas. A Quercus sustenta que a instalação industrial não se enquadra na classificação de uso do solo prevista para a área em causa, acusando o promotor de recorrer a uma interpretação “extensiva e desvirtuada” do regulamento para viabilizar o investimento.
A associação considera que esta abordagem representa um precedente preocupante na flexibilização das normas de ordenamento em benefício de interesses privados. Recorda ainda que o projeto já motivou reservas públicas por parte do presidente da Câmara Municipal de Torres Novas.
Perante este cenário, a Quercus defende que as metas de transição energética não devem sobrepor-se à proteção ambiental nem ao cumprimento das regras de ordenamento do território. Entre as exigências apresentadas estão o chumbo do projeto na localização proposta, a relocalização deste tipo de infraestruturas para zonas industriais consolidadas e o prolongamento do período de consulta pública, acompanhado por sessões presenciais de esclarecimento dirigidas à população local.






