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Testemunho emocionado de um voluntário nos corredores da oncologia de um hospital pediátrico

Passei quase oito anos, nos fins de semana de voluntariado, pelos corredores da oncologia do Pediátrico de Coimbra.
Oito anos a aprender que a vida não tem cor, não tem religião marcada na testa, nem tem orientação escrita no boletim clínico.
Ali dentro não havia brancos nem pretos. Havia miúdos. Miúdos com os olhos demasiado grandes para a idade que têm. Miúdos que aprenderam palavras como “quimioterapia” antes de aprenderem a conjugar verbos.
Miúdos que sabem o que é ter medo do amanhã e ainda assim desenham o sol com lápis de cera de várias cores como se ele fosse algo garantido.
Durante oito anos vi sangue. E nunca foi azul, nem verde, nem ideológico. Era vermelho. Sempre vermelho.
Vi corpos pequenos encolherem-se quando a agulha entrava na veia. Vi mãos minúsculas apertarem as minhas com uma força que não cabia naquele tamanho.
Vi vómitos, quedas de cabelo e silêncios pesados, logo pela manhã. Vi pais a fingirem coragem no corredor e a desmoronarem-se na casa de banho. Vi mães a tentarem sorrir enquanto o mundo delas ardia por dentro.
Ali dentro ninguém perguntava em quem votas. Perguntava-se: “Dói muito?” Ninguém queria saber a tua fé. Queriam apenas saber se a próxima análise vinha melhor. Ninguém discutia bandeiras. Discutia-se esperança.
E a esperança… a esperança naquele sítio era uma coisa frágil, teimosa. Era o miúdo que, depois de vomitar cinco vezes, ainda dizia:
“Quando sair daqui, vou jogar à bola.”
Era a menina carequinha que me pedia para lhe pintar uma coroa na cabeça porque, se não tinha cabelo, ao menos tinha realeza.
Oito anos por ali, ensinaram-me que o preconceito é um luxo de quem nunca teve de contar plaquetas.
É apenas distração de quem nunca ficou sentado numa cadeira de plástico à espera que um médico dissesse “resultou” ou “espalhou”.
Há pessoas que precisavam de passar uma manhã naquele corredor. Só uma. Uma manhã a ver um miúdo sem sobrancelhas a sorrir para a vida como se ela ainda lhe devesse tudo.
Uma manhã a ouvir um pai prometer mundos sabendo que não controla nada.
Uma manhã a perceber que, quando a morte entra num quarto de hospital, ela não pede cartão de cidadão.
Depois disso, talvez deixassem de discutir cores. Talvez deixassem de medir pessoas por rótulos. Talvez percebessem que, no fim, somos todos frágeis e isso devia aproximar-nos, não afastar-nos.
A oncologia pediátrica ensinou-me que a humanidade começa onde o ego acaba. E que, quando a dor é verdadeira, as diferenças tornam-se ridículas.
Oito anos ali não me curaram do mundo. Mas curaram-me de qualquer vontade de o dividir.
©℗®™ – Victor Manuel Marques 

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