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Guerra, energia e lucros: quem ganha com a crise?

Com base num estudo do economista Eugéino Rosa, sobre os aumentos «escandalosos» dos combustíveis em Portugal, retiramos as seguintes conclusões: Num contexto internacional marcado por conflitos armados e instabilidade geopolítica, o setor energético volta a destacar-se — não pela escassez, mas pelos lucros extraordinários que acumula. A escalada recente no Médio Oriente, somada aos efeitos ainda presentes da guerra na Ucrânia, está a ser usada como justificação para novos aumentos nos preços dos combustíveis. Mas até que ponto essa explicação corresponde à realidade?

A narrativa do preço do barril

A ideia difundida junto dos consumidores é simples: o preço dos combustíveis acompanha diretamente o valor diário do barril de petróleo. Se o crude sobe para os 100 dólares, o combustível também sobe. No entanto, esta lógica ignora um elemento essencial do funcionamento da indústria: as petrolíferas não operam com base em compras diárias.

Empresas como a Galp trabalham com reservas, contratos de fornecimento e exploração própria. Isso significa que grande parte do combustível atualmente vendido foi produzido com petróleo adquirido semanas — ou meses — antes, a preços significativamente mais baixos. Além disso, os custos de extração em alguns dos seus campos rondam entre 20 e 30 dólares por barril.

Ainda assim, o preço final ao consumidor reflete o valor máximo do mercado atual, e não o custo real de produção. O resultado é uma margem inflacionada, dificilmente justificável apenas por fatores de mercado.

Lucros inflacionados, consumidores pressionados

Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Após os recentes aumentos, as petrolíferas estarão a arrecadar mais de 5 milhões de euros adicionais por dia. Ao mesmo tempo, o Estado também beneficia, com um aumento diário superior a 200 mil euros em receitas fiscais.

No final do mês, isso traduz-se em mais de 155 milhões de euros adicionais para as empresas e cerca de 6,5 milhões para o Estado — valores pagos diretamente pelos consumidores, sem que exista uma correspondência clara com os custos reais de produção.

Este desfasamento levanta uma questão central: estamos perante um ajustamento de preços ou uma transferência massiva de rendimento?

O papel do Governo e dos media

A crítica não se limita às empresas. O Governo, ao não intervir de forma eficaz, acaba por beneficiar da situação. Apesar de existirem mecanismos para mitigar aumentos — como reduções fiscais condicionadas — estes revelam-se insuficientes ou tardios.

Por outro lado, a complexidade da formação dos preços dos combustíveis contribui para a falta de escrutínio público. Grande parte dos media limita-se a reproduzir justificações oficiais, sem investigação aprofundada ou contraditório, o que dificulta uma compreensão clara por parte dos cidadãos.

A guerra como oportunidade

Os dados históricos mostram um padrão consistente: períodos de conflito coincidem com aumentos expressivos nos lucros das petrolíferas. Após o início da guerra na Ucrânia, por exemplo, os resultados da Galp registaram um crescimento exponencial, passando de valores residuais para mais de mil milhões de euros.

A guerra, neste contexto, funciona como um catalisador — não apenas de preços mais altos, mas de lucros extraordinários. O chamado “prémio de risco geopolítico” é incorporado nos preços, mesmo quando os custos reais não acompanham essa subida.

Impacto económico e social

As consequências vão muito além da fatura do combustível. O aumento dos custos energéticos propaga-se por toda a economia: transportes, agricultura, indústria e distribuição. O resultado é uma pressão inflacionista generalizada, com impacto direto no custo de vida.

As famílias de rendimentos mais baixos são as mais afetadas, já que uma maior parte do seu orçamento é destinada a bens essenciais. Ao mesmo tempo, o aumento da inflação pode levar a juros mais elevados, agravando ainda mais a situação financeira de muitos agregados.

Falta de regulação e alternativas ignoradas

Enquanto outros países europeus adotaram medidas para conter os efeitos da crise — como limites de preços, apoios diretos ou impostos sobre lucros excessivos — em Portugal a resposta tem sido mais tímida.

A chamada contribuição sobre lucros extraordinários teve um impacto reduzido, gerando receitas residuais face à dimensão dos ganhos do setor. Além disso, os fundos arrecadados não foram plenamente canalizados para apoio social, como previsto.

Uma questão económica — e moral

No centro deste debate está mais do que uma questão de mercado. Trata-se de uma escolha política e ética: permitir que crises globais sejam transformadas em oportunidades de lucro desproporcionado, ou intervir para proteger consumidores e equilíbrio económico.

Quando o preço da energia sobe sem relação clara com os custos reais, e quando essa subida beneficia simultaneamente empresas e Estado, o sistema deixa de funcionar como um mercado eficiente — e aproxima-se de um mecanismo de redistribuição regressiva.

A pergunta que permanece é simples: quem deve pagar o preço da guerra?

Fonte: Estudo 9-2026-A-C2-1 da autoria do economista Eugénio Rosa

 

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