Três meses após a passagem devastadora da tempestade Kristin, há territórios no distrito de Santarém onde o tempo parece ter parado — e onde o silêncio imposto pelas falhas nas telecomunicações continua a marcar o quotidiano de milhares de pessoas.
Em concelhos como Mação, Tomar e Ferreira do Zêzere, a recuperação das infraestruturas essenciais avança a um ritmo que autarcas classificam como “inaceitável”, deixando comunidades inteiras com acesso precário — ou inexistente — a comunicações básicas.
“Temos mais de metade do nosso território com problemas por resolver. Há pessoas que ainda não conseguem comunicar devidamente”, denuncia o presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, Bruno Gomes, traçando um retrato preocupante de um concelho ainda longe da normalidade.
Postes derrubados, cabos espalhados pelo chão e redes instáveis continuam a fazer parte da paisagem. A fragilidade das infraestruturas não só compromete o dia a dia da população como levanta sérias questões de segurança e eficácia na resposta a emergências.
Em Mação, o cenário é descrito sem rodeios pelo autarca José Fernando Martins: “É vergonhoso.” Três meses depois, persistem “montes de postes caídos” e zonas inteiras sem qualquer tipo de comunicação. Mais grave ainda, segundo o responsável, é a ausência de respostas claras por parte das entidades competentes. “Não há ninguém que diga quando vão resolver. É um abandono total.”
A situação ganha contornos ainda mais críticos quando afeta diretamente serviços essenciais, como os bombeiros e a proteção civil, que continuam a operar com limitações num território já fragilizado por cheias, quedas de árvores e destruição de infraestruturas.
No concelho de Tomar, embora a reposição dos serviços tenha avançado em algumas zonas, a recuperação está longe de concluída. “Tem sido um trabalho muito lento”, afirma Jorge Graça, presidente da União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira. Apesar de níveis de cobertura entre os 80% e 85%, persistem riscos evidentes, com postes instáveis e cabos perigosamente baixos.
Freguesias como Olalhas, Casais ou Alviobeira continuam particularmente afetadas, evidenciando assimetrias na recuperação que agravam o sentimento de abandono entre populações já duramente atingidas.
Paralelamente, os apoios prometidos tardam em chegar — ou simplesmente não chegam. “Até ao momento, não recebemos qualquer tipo de apoio”, denuncia Jorge Graça, sublinhando que associações locais continuam sem acesso a linhas de financiamento essenciais para a recuperação.
A tempestade Kristin, integrada num ciclo de fenómenos extremos que incluiu as depressões Leonardo e Marta, deixou um rasto de destruição por todo o país. No total, pelo menos 19 pessoas perderam a vida, muitas delas durante operações de recuperação. Os prejuízos ascendem a milhares de milhões de euros, com milhares de casas, empresas e infraestruturas afetadas.
Mas, no Médio Tejo, o impacto não se mede apenas em números. Mede-se no isolamento de comunidades, na dificuldade em pedir ajuda, na incerteza diária de quem ainda vive sem garantias básicas.
Três meses depois, a tempestade já passou — mas as suas consequências continuam bem presentes. E, para muitos, a normalidade ainda parece uma promessa distante.




