Tomar arrisca-se a pagar caro anos de atraso na concretização de investimentos estruturais. Na última sessão da Assembleia Municipal, a 30 de abril, o presidente da Câmara, Tiago Carrão, traçou um retrato duro da execução dos projetos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e pelo Programa Centro 2030, revelando que o concelho será o mais penalizado da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, com uma perda estimada de 1,3 milhões de euros.
A frase que marcou o debate — “enquanto uns faziam festas, outros faziam projetos” —, atribuída a outros autarcas da região, resume o contraste apontado: municípios que avançaram com obras garantem financiamento, enquanto Tomar enfrenta cortes por incumprimento de prazos e metas.
O caso mais crítico é o da Escola Gualdim Pais. A obra, que deveria estar em fase final, encontra-se apenas com cerca de 40% de execução. O cenário mais otimista aponta agora para a conclusão no final do ano, comprometendo o arranque do ano letivo de 2026/2027 e empurrando a utilização plena para 2027/2028. Um atraso que poderá implicar a perda de financiamento do PRR e obrigar o município a encontrar alternativas, ainda incertas.
Também na área social e habitacional o panorama é desigual. A nova creche municipal, integrada no jardim de infância e financiada pelo Centro 2030, só deverá estar concluída no final do ano, ficando fora dos prazos do PRR. Nos projetos habitacionais, há sinais mistos: na Choromela, as obras avançam dentro de margens aceitáveis, mas em Marmelais o calendário derrapa, colocando em risco o acesso a fundos europeus.
Já a ampliação do Centro de Saúde permanece apenas no papel, sem qualquer execução, agravando um cenário de investimento público aquém das necessidades locais.
No âmbito do Centro 2030, a situação é igualmente preocupante. A reprogramação do programa obriga a um corte de 10% nas verbas destinadas à regeneração urbana — precisamente onde se concentram algumas das principais intervenções previstas para o concelho. Em causa estão projetos como a continuidade da Avenida Maria de Lurdes Mello e Castro (500 mil euros), a intervenção em Carvalhos de Figueiredo (1,5 milhões) e a requalificação do centro histórico (1,3 milhões).
Perante a redução de financiamento, o município terá de fazer escolhas difíceis: abdicar de projetos estruturantes ou repartir os cortes por várias intervenções, com impacto direto no desenvolvimento urbano e na coesão territorial.
Tiago Carrão sublinhou que a falta de execução não tem apenas consequências no terreno, com obras atrasadas, mas sobretudo no plano financeiro, comprometendo a capacidade futura do município captar fundos comunitários. O autarca admitiu ainda incertezas quanto a mecanismos de transição entre programas, nomeadamente a possibilidade de recorrer ao Banco Europeu de Investimento ou a outras soluções para mitigar perdas.
O cenário traçado deixa claro que o desafio de Tomar não é apenas recuperar atrasos, mas reconstruir credibilidade junto das entidades financiadoras. Numa altura em que os fundos europeus são decisivos para o investimento local, a execução — ou a falta dela — tornou-se o verdadeiro teste à governação municipal.





